Você tem culpa de quê?

Foto: George Thomson/Flickr.com

Parece que toda escolha vem com um bônus: a culpa.

A culpa é filha do bem e do mal. Criada, desde pequena, pela moral. Mimada, ela se instala na nossa casa e lá fica, dando pitaco em tudo. A gente não percebe, mas presta uma atenção danada ao que ela diz. Porém, a culpa, tirando crime e acidente de trânsito, não está a serviço de ninguém. Ela é um desserviço contra todos nós.

A culpa por trabalhar muito. Por trabalhar pouco. Por não trabalhar. Por ter casado cedo, por ter casado tarde. Por amar demais. De menos. Por ter ido. Por ter ficado.

Culpa pela traição imaginada, pela efetiva e pela que sequer se deixou virar ideia. Culpa por acordar tarde. Por ter dito não. Por ter dito sim. Por não ter dito nada e ficado na mesma. Por ter dito muito e estragado tudo.

Culpa por ter cuidado da carreira em vez dos filhos. Culpa pelo vice-versa. Ou por não ter escolhido nem uma coisa nem outra, já que as duas pareceram desinteressantes. Culpa pelo cansaço do corpo, que não encara mais nenhuma vontade da cabeça. E pela fadiga da cabeça, que não acompanha o resto do corpo.

Culpa por não rezar. Por não fazer ginástica. Por ler menos do que gostaria. Por não gostar de ler. Pelo trigésimo par de sapatos no armário em vez da consulta no dentista. Pela indisciplina, pela bagunça. Pelo prazer de um vinho fora de hora. E por não saber que horas são.

Tem mais. Culpa por não telefonar para os amigos. Por esquecer o aniversário do pai. Culpa pelo ócio fundamental. Por topar um trabalho pelo dinheiro, sem prazer. Ou por aceitá-lo por prazer, sem pensar na grana. Culpa por tolerar a insatisfação, por denunciá-la ou até por senti-la. Culpa pela sobremesa, pela mesa inteira. Pelo sono diurno e pela insônia noturna. A culpa, simplesmente por se sentir culpada.

Desculpas à parte, o negócio é o seguinte: hora de parar com a síndrome da crucificação. Já basta aquele moço. Que, aliás, não tinha culpa no cartório.

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25 responses to “Você tem culpa de quê?

  • beto

    Cumadra.
    Um suicida me contou.
    Tava ele ali, prestes, quando se deu conta: “Faltou o bilhete!!”
    A mesa tava ali, a caneta (com tinta), o papel e o tempo. Tinha tempo.
    Por primeira vez na vida, o tempo era todo dele, de mais ninguém.
    Como o suicida era virginiano, olhou pras coisas cuidadosamente dispostas sobre a mesa. Simétricas, limpas, organizadas. À esquerda, seu livro preferido embrulhado num tecido de linho branco, a caixa de incenso e o suporte em cobre brilhante. À direita, o revolver preto.
    Faltava só o bilhete.
    “Ninguém tem culpa. Nem eu.”
    Achou muito hermético.
    “Ninguém tem culpa, a culpa não existe.”
    Muito filosófico.
    “A culpa não existe, morri feliz.”
    Seria difícil alguém acreditar.
    Tava difícil.
    “Não culpo ninguém, sei que todos fizeram o melhor. Eu também.”
    Pensou. Ainda não.
    Escreveu.
    “Se meu melhor é este na hora mais importante da minha vida. E não é culpável, eu me desculpo. E mais, ninguém tem culpa, melhor deixar pra lá. Melhor viver pra espalhar que a culpa não existe.”
    Desdobrou a toalha de linho branco. Abriu o livro na página que os dedos escolheram.
    Leu.
    “Pulando na beira de um abismo, ele não tem culpa. Nem a ascenção nem a queda duram muito tempo; o que importa é evitar o mal. O Princípio Criador o está levando a uma de suas grandes transformações. Ele está testando seus poderes, por isso não tem culpa nenhuma.”
    O suicida fechou o livro, dobrou o linho, guardou o revólver.
    Tomou um banho, sorrindo.
    Sem culpa, nada era pesado. Nem a vida.

  • Rafa

    Hum.. Por não saber o que comentar (já que a carapuça serviu).

    [e pelo comentário picadinho ali embaixo... rs]

  • Sally Owens

    Oie! Cheguei por indicação da Jady (Between Us). É que escrevi um texto sobre culpa, ela leu e me mandou aqui. Aliás, vc já leu o texto sobre a culpa na TPM desse mês? Vale a pena dar uma olhada.

    E, assim, o texto está perfeito. É isso mesmo. A gente sente culpa até por se sentir culpada por tudo… rs. Que saco.

    bjos e prazer!

  • Karolvale

    Olá, Silmara, muito prazer, segui a indicação da Raquel (Reflexos) até aqui. Sabe quando você pensa numa coisa e alguém materializa a idéia? Foi o que aconteceu comigo em relação a esse post. Estava conversando com uma grande amigo justamente sobre culpa e gostei muito de ler seu texto. Estou estudando para concurso e é duro dar uma escapadinha para viver sem ficar sentindo uma culpa desgraçada por está se divertindo e não estudando. Aos poucos eu vou me livrando dessa culpa, que representa um grande peso nos ombros. Aprendendo que tem hora para tudo e que viver sem culpa é viver mais feliz.
    Parabéns pelo blog. Sucesso!

  • Rosana Tibúrcio

    Silmara, você está certinha: já basta Ele que levou sem culpa alguma.
    Muito bom!!!!
    Beijoss, tava com saudades de vir aqui.

  • Eloína

    Eu já era fã de seus textos… Mandei esse último, sobre a culpa, para o meu marido e… Voilà! Ganhou mais um fã!

  • Su

    Culpa! Tô me sentindo culpada por um monte de coisa, boas e ruins! Mas a culpa sempre nos acompanha, não é?! É assim: a culpa é minha e eu ponho ela em quem eu quiser! Hahahaha!

    (no momento estou culpada por ter comprado amêndoas confeitadas, que custou o meu olho esquedo e eu não tinha visto do preço pois não estava na gôndola e na hora de passar no caixa, nem e atentei…e o pior…não achei lá essas coisas de gostoso!)

  • Isabela

    Sabe quando você entra em uma loja e diz “Eu estou procurando um sapato preto, de couro”, ao que o atendente responde “Desculpe, senhora, mas não trabalhamos com couro.”?!
    (…)
    Pois, o slogan de minha vida tem sido “Não trabalhamos com culpa”.
    Às vezes falha, mas sempre orienta. rsrs
    *
    *
    *
    *
    E tenho dito.

  • Iêda Ferreira

    Muito bom. Se não pelas palavras bem-colocadas, pela escolha do tema, muito apropriado.

  • Ana F.

    Nossa, essa aí sou eu! Deviam inventar um “Culpados anônimos” – alguém aí cria um sistema de 12 passos para nos livrarmos disso, please?
    (Eu agora, por exemplo, estou com culpa por ter comido três colherinhas de brigadeiro, ai ai ai)

  • Melissa

    Ô maldita que culpa que nos assola e nos persegue! Chega dessa síndrome, né!? Aos poucos a gente consegue se libertar e que maravilha deve ser quando nenhuma culpa aparece depois de fazermos o que queremos…
    Ótimo texto para refletir durante o fim de semana prolongado! Obrigada pelas palavras que escreve sempre!
    Beijos!

  • Laély

    Uma culpa não me persegue: de deixar de comentar o quanto seus pequenos textos me encantam!

  • silmaraemutah

    Nossa Silmara,

    Como a carapuca serviu hein? Me encaixei em quase todos os exemplos.
    Sinto ate culpa pelo que ainda nao foi feito nem decidido. Esse texto me deu vontade de sair correndo, me libertar desse sentimento banal que nao nos leva a nada.
    Esse texto eu vou chamar de “abre-olho”, pois esse e mesmo pra dar uma acordada geral na turma.

    Bjos.

  • debora

    sil…..sumida….mande notícias

    adorei o que vc escreveu!!! culpa de quem???
    bjos

  • Priscila

    Sil, tenho momentos em que apesar de qualquer coisa tenho me isentado de culpa e como me sinto leve quando isso acontece (faço o que é possível, o que não dá, terá uma outra chance) … Fico imaginando o pq de não conseguirmos viver totalmente sem culpa…

    Texto excelente!

    bjus

  • Noéle

    As vezes tenho culpa de ser Eu sempre, inteira e transparente.

    Adoro suas palavras
    adoro vc…
    bjos

  • Cris Guerra

    Sensacional. Como sempre. Adoooooooro. E sem culpa. Beijos.

  • paula mello

    Silmara, a culpa faz parte da vida, parece que está geneticamente inserida na gente…Assim como a outra amiga dos comentários se sente culpada por se sentir culpada, tem gente que se sente culpado por ser feliz. Pode?
    Sei lá, tem dias em que eu gostaria que as coisas fossem mais simples. Que a gente pudesse largar mão dessa frescura de se sentir culpada por tudo e “contabilizasse” as bênçãos, sabe? Que são muitas. Vai ver isso é coisa de mulher mesmo, que é um bicho esquisito. Digo isso sem culpa, ops, por que vejo meu marido tão sem culpa de nada, que me dá até raiva! O pior é que a mulher quando quer deixa até quem não tem na dúvida.
    Que fazer? Para mim, dar uma volta no jardim e ver minhas árvores maravilhosas crescendo felizes (e sem culpa) resolve.
    E para você?
    Uma semana iluminada!

  • Ana Karina

    Nossa, e como parar com isso quando suas escolhas parecem não fazer sentido pra mais ninguém a não ser pra vc mesmo? Meu grande dilema atualmente. E vc, como sempre, parece saber disso há muito mais tempo que eu. rs.
    Beijo grande!

  • Ivana

    Silmara,

    Esse tema tem tanto a ver comigo, no meu atual momento de vida.

    Hoje, todas as minhas culpas, de uma forma ou de outra, estão relacionadas com o meu filho. Mas acho que isso é coisa de mãe…não tem jeito. A gente tenta amenizar um pouco, mas sumir, mesmo, ela não some.

    Espeo que ao longo da vida, com mais maturidade e experiência, eu possa me tornar uma mãe melhor, e isso pra mim significa, com menos culpa.

    Como sempre, adorei.

    bj

    Ivana (tete)

  • Marianne

    Acho que a culpa é o ônus da escolha…
    Mas escolher passar por aqui não tem este ônus…
    Toca o coração dos outros com o seu com seus textos e em um dia particularmente estrenho até o momento, não me sinto culpada ainda, mas esse texto faz todo sentido!
    Gracinha você sempre…. beijinhos!

  • Nara

    Oi Silmara!

    Simplesmente brilhante!
    Não tem jeito… vamos sequestrá-la… ah! E sem culpa!
    Avise a familia! rsrsrsrs

    Beijos

    Nara

  • Jemima

    Olá Silmara! Sempre passo por aqui e nunca me arrependo…
    Lembro de todas as culpas que me massacraram e hoje não sei se sinto culpa, porque não sofro mais. Isto é libertador e não há dinheiro no mundo que pague. Bjão, Je.

  • Gi

    todo mundo devia ser mais honesto com si mesmo e saber que uma escolha, implica em abrir mão de alguma coisa pra ganhar outra. é assim com tudo na vida. eu mesma, sofro da culpa por me sentir culpada.

  • Marcela Gomes

    Excelente! Como sempre! bejos

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