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Eu (não) uso óculos

Levei meu pai ao oftalmologista – “olhista”, como ele gosta de dizer. Aos oitenta e seis, a visão do Seu Tonico anda precária. Resiste aos óculos com receita, bom mesmo é o self-service da farmácia, com modelos prontos. Apanha na vitrine e vai testando, “Esse está ruim”, “Agora melhorou um pouquinho”, “Ah, esse está bom”. Leva ao caixa, paga e vai embora. Feliz da vida, enxergando vários palmos diante do nariz.

Quando eu tinha sete anos, usei óculos. Astigmatismo. Minha primeira grande provação, depois da botinha ortopédica. Não gostava da ideia, nem do modelo, tampouco do que via no espelho. Naquela época, a gente chamava oftalmologista de oculista. Só depois fui aprender: um é o médico que cuida dos olhos. Outro é a pessoa que faz os óculos. Não sei se nós confundíamos os dois, afinal oculista é mais fácil de pronunciar, ou se nossos óculos eram, de fato, prescritos e feitos pelo tal do oculista (o que nem pode). Só sei que fomos a uma ótica e saí de lá dividida: contente porque conseguiria ler a cartilha Caminho Suave numa boa, mas angustiada, antevendo os apelidos na escola.

O Banana, por conta das sardas, ganharia dos colegas um complemento fofo: Quatro-Olhos. Fiquei sendo Banana-Quatro-Olhos. Eles achavam aquilo engraçado. Eu não via, nem com óculos, graça alguma.

Dia desses, postei nas redes sociais um achado: minha foto do primeiro ano, com os ditos cujos. Rendeu imediata comparação com a Chiquinha, do Chaves. É preciso admitir que a semelhança procede. Infelizmente, no dia da fotografia não havia ninguém para dar uma ajeitadinha em mim antes do clique, nem uma penteada de leve nos cabelos. Resultado: o mal ajambramento e os malditos óculos eternizaram-se. Na época, rabisquei, de propósito, a fotografia. Inventei-me dentes e flor na camisa. Customizei a infelicidade, dando-lhe ares bufônicos para, talvez, sobreviver à desgraça.

O astigmatismo cedo foi embora, aposentei por conta própria os óculos. Adulta, fui brindada com leve miopia. Quando me perguntam se uso óculos, digo que não. Em seguida, lembro que sim – os de sol têm pouco mais de meio grau, iguais aos que ficam na bolsa, para o caso de uma rodovia à noite. Deve ser uma espécie de negação.

Há algum tempo, Nina cismou que queria usar óculos. Sem indicação para tal, quase me convenceu a mandar fazer uns sem grau, como se fosse um acessório, uma tiara. Diante das consecutivas negativas, fez birra, chorou, ficou infeliz. Lembrei de mim, sofrendo justamente pelo contrário: ter que usar o trambolho. Das inúmeras vezes que os “esqueci” sob a carteira, na sala de aula. Do sumiço que dei na peça, quando concluí que não precisava mais deles. Cada um com seu drama. No final, tudo depende de como você vê as coisas.

Hoje, quando olho a fatídica foto do primeiro ano, rio e tenho vontade de abraçar a menininha que fui. E, parafraseando a raposinha d’O Pequeno Príncipe, diria ao pé do meu ouvido: “Sabia que só se vê bem com o coração, e que você fica linda de óculos?”.

silmara gallicho 1o ano 1974

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Enxergações

Ilustração: Fred Seibert/Flickr.com

Foi entrar na escola e o oftalmologista sentenciou: eu precisava usar óculos. Não enxergava bem de perto, apertava os olhos para fazer lição. Senso estético em formação e certa insegurança infantil não podiam dar noutra: saí da loja com os óculos mais feios do mundo. Percebi tempos depois, quando a fotografia do primeiro ano caiu nas minhas mãos. A moda muda com o tempo, e isso nem sempre é uma boa notícia. Talvez algum adulto – mãe ou vendedor, entenda-se – tenha palpitado na escolha, fui na onda. Ou era o modelo mais em conta, e não se falava mais nisso. Grandalhão, em nada ajudava a meninota sardenta que desejava pertencer ao bando das meninas bonitas e populares. Tampouco ajudou a ver o que, nem de longe, eu suspeitava: o pueril desejo não me levaria a lugar algum. Não, pelo menos, interessante. Criança, ainda, eu mesma me dei alta e convenci minha mãe de que não havia mais necessidade deles. Aposentados, acabaram sepultados na gaveta onde iam parar minhas bugigangas, restos esquecidos de nada e de tudo.

Vinte anos passaram. Senti, de leve, a falta das lentes para enxergar de longe. Desta vez, mais ajeitado, o novo modelo foi escolhido com ajuda do namorado, numa manhã de sábado. Em nada lembrava o trambolho da infância. Eram óculos para ver o que, de perto, eu já sabia. Que saudade, principalmente de infância, é a verdade mais líquida que há. Se deixar, ela preenche, facilmente, qualquer cantinho dentro de nós. Que terapeuta, igual freguês, sempre tem razão. E que a história de amor, com o moço do sábado de manhã, não tinha futuro. Porque já havia passado. Como da primeira vez, logo me dei nova alta. Deixei os óculos no armário, em outro ponto de encontro de bugigangas, agora atualizado. E eles sumiram.

(As gavetas de bugigangas mudam conforme a temporada e a idade. De pequenos, costumamos ter nelas um brinquedo quebrado, uma tampa qualquer, um pedaço de desenho feito com canetinha. Já adolescentes, o conteúdo é outro: fotografia recortada, cartas de amor e desamor, letra de canção impressa em propaganda de escola de inglês. De adulto, é chaveiro de candidato a vereador, caneta que não escreve, canhoto do talão de cheques.)

Menos de dez anos depois, novos óculos. Bonitos, de verdade (até que outra estética entre em cartaz). Moram na gaveta, mas não das bugigangas. Saem para dirigir somente à noite, se houver rodovia pesada no caminho. E olhe lá. De dia, mais pela ligeira fotofobia do que por outro motivo, quem passeia são os de sol, com lentes calibradas para o minúsculo grau. Nem tanto para longe, nem tanto para perto. Esses são para ver as coisas, reais e imaginárias, nas suas devidas distâncias.

Que óculos me reservam a velhice? Os de lentes gorduchas, bem-alimentadas, projetando sorrisos por onde meu olhar for? Os fotográficos, com o poder de congelar o instante flagrado? Os com zoom, para deixar pequeno o que é pequeno, grande o que é grande? Ou os de chocolate, para ler olhos de criança?

Vou é querer óculos de assistir os ciclos, a espera, os frutos, o sono, o amanhecer, a preguiça, o contentamento. Aqueles, de enxergar as horas em seu tempo justo – nem um minuto a menos. Aqueles, de olhar pai e mãe lá atrás. Aqueles, de avistar filho, neto, bisneto e a vida inteira ali na frente.

Crônica de minuto para quem enxerga bem

Ilustração: Jeff Turner/Flickr.com

À minha frente, na fila, ela chegou a esbarrar em mim. Desculpou-se. Não foi nada, respondi. Pediu um pão de queijo, um espresso, quis saber se tinham macaron. Quando o gerente do café, Thiago – não posso ver crachá, que leio –, aproximou a maquininha do cartão da mão tateante da moça, foi que notei. Era cega. E estava de salto alto. Eu, que tenho dois olhos funcionando bem, não me animo a reativar os meus, empoeirando no armário.

Olhos cegos não são olhos desligados. Tampouco são como aqueles bolsos falsos, só decorando a roupa. Olhos cegos inventam para si outra função. Aprendem o invisível. Farejam o oculto. São bolsos onde a alma guarda alguns dos seus segredos.

O Thiago, que enxerga longe, não só a ajudou na hora de pagar, como a acompanhou até a mesa. Fez a acessibilidade na prática, recheada de gentileza.

O contraponto: no final do nosso lanche o Luca, sete anos, quis mais um croissant. Dei-lhe três reais, deixei-o ir comprar sozinho. Ele ficou na fila, bonitinho. Na sua vez, o Thiago não o enxergou junto ao balcão que tinha quase a sua altura, e já ia atendendo o próximo freguês. O que os olhos do Thiago não viram de perto, meu coração sentiu de longe. Levantei-me e fui ao caixa, ajudar meu filho.

Enxergar ou não enxergar. Eis a questão.

Sobre a esperança, os óculos e outras formas de ver as coisas

Foto: Charles Dodds/Flickr.com

Perdera, misteriosamente, os óculos. Eram novos, de um azul cobalto intenso, leves como borboleta. Com eles, passara a enxergar tudo. Desde as letras pequeninas até os minúsculos veios do papel reciclado que usava no escritório, que nunca havia notado. Certa noite, recolhida em sua cama e sem sono, deu por sua falta – queria ler um livro. Levantou-se, foi até a sala, vasculhou a bolsa. De pijama, foi até o carro, conferiu os porta-trecos. Apanhou o telefone e acordou a mãe, Não deixei aí, não? Repetiu mentalmente o percurso que fizera de manhã até àquela hora, procurando se lembrar do que os óculos haviam participado. A má notícia: não os usara naquele dia. Suspirou. O jeito foi pegar os do marido emprestado, que tinham um grau próximo. Avançou duas páginas do livro e uma leve tontura a obrigou a desistir dele. Apagou a luz. As ideias, no entanto, continuaram acesas.

Olhos abertos para a escuridão do quarto, brincou de ser cega. Era capaz de localizar a chapeleira. O armário. A almofada do gato. Mas isso era fácil; ela era uma ‘recém-cega’, e com alguma memória espacial. Virou-se para onde dormia o marido, e tentou construir sua imagem a partir dos sentidos que lhe restaram. O som da sua respiração, tranquila e compassada, indicava uma serenidade que normalmente ela não via. Estranhou o perfume fresco dos seus cabelos, não combinava com a velhice que ela notava despontar neles, dia após dia. Perdeu-se, por um instante: em qual dos sentidos deveria confiar, então?

Após o inexplicável desaparecimento dos óculos novos, conformou-se em continuar com os velhos, já não tão bons assim, e passou a viver de uma esperança: a de que os reencontraria, assim, de uma hora para outra. Ao desfazer as malas de uma viagem: será que não haviam ficado lá no fundo? Sempre que abria uma gaveta, na verdade, aguardava uma surpresa: a empregada poderia tê-los guardado ali por engano. Uma caixa antiga sobre o armário virava representante de uma nova possibilidade. Assim como um bolso de um casaco antigo. Passou anos na crença de que, cedo ou tarde, eles surgiriam na sua frente. Intactos, como na última vez que os vira. Sua esperança, assim como a fé, não via falhas. Desconhecia o pessimismo. Ignorava o azar. Desconsiderava até o deboche fantasiado de realidade: Perdeu na rua, ué!, sentenciou o marido numa ocasião, farto da esperança silenciosamente estrondosa da mulher.

Solitariamente, passou a fazer a brincadeira da cegueira nas ruas, no trabalho, no shopping, na igreja. Para isso, recorria, como naquela noite, aos demais sentidos. Principalmente à imaginação, que é a soma de todos eles. Espantava-se com os diferentes jeitos de ver uma mesma coisa. E viu que poderia escolher o que mais lhe agradava, já que, no fim, tudo dava praticamente no mesmo. Um dia, avistou na vitrine de uma loja um par de óculos de intenso azul cobalto. Pediu ao vendedor para experimentá-los. Levíssimos. Como é que os danados vieram parar aqui?, brincou, feliz da vida, enquanto digitava a senha do cartão de crédito.