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Previsão vencida

Arte: D.Boyarrin
Arte: D.Boyarrin

Gosto de folhear revista velha. Há várias, em casa. Umas, por distração, outras por puro apego – um artigo, uma fotografia, um insight que merece ficar. Mantê-las por perto é quase uma garantia.

Alcanço um exemplar que jaz no revisteiro do banheiro. Nossos revisteiros são os mais desatualizados da paróquia, praticamente museus da imprensa. Abro-a aleatoriamente, não busco nada especial. Igual quando entro em uma loja e a vendedora vem perguntar se pode ajudar e eu digo “Estou só dando uma olhadinha”. Então, eu estou só dando uma olhadinha na revista.

Chego na parte do horóscopo, que quase sempre não me atrai. Não é endereçado a uma pessoa que nasceu no dia sete de maio de mil novecentos e sessenta e sete, às vinte horas e trinta minutos, na capital paulista, no bairro da Mooca. Mesmo assim, procuro meu signo. Tem coisa que a gente não bota fé, não dá bola, nem assina embaixo, mas tem curiosidade. O texto começa mal: “Muitas pessoas viajam em agosto”. Não me diga! Frase válida para os outros onze meses também. Sempre vai acertar. Continua: “Três dias antes ou depois do dia 31 de agosto, planeje uma tarde encantadora com os amigos”. Combinado: enviarei agora mesmo um e-mail às minhas amigas, convidando-as para um chá. Mas avisarei que a data fica em aberto, podendo ser nos dias 28 ou 3 de setembro. Elas que se virem com suas agendas.

Mais adiante, epa. O que está escrito ali bem que tem a ver. Acomodo-me, tomo gosto no que leio. Num súbito, busco a capa: agosto de 2012. É agosto de 2013. Estou um ano atrasada.

Se a tendência astrológica deu uma volta completa em torno do sol, significa que suas causas e condições retornaram ao ponto de partida e a previsão pode ser considerada fresquinha?

Não, claro que não. Assim fosse, a vida seria uma eterna repetição de acontecimentos, com data e hora marcadas.

Tirante o negócio da viagem e o chá com as amigas, busco na memória se a previsão que me interessou faria sentido, doze meses atrás. Não, não faria.

E nem faz hoje – apesar de que não seria nada mal. Mas não como comida fora do prazo de validade, não tomo remédio expirado. Por que haveria de dar ouvidos a uma previsão vencida? Por mais que sua, digamos, aparência esteja boa?

Previsão não tem conservante, também fica velha. Estraga. Se insistir, é dor de barriga na certa.

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