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A inteligência da escada rolante

foto: Simone Huck

Gosto de observar escada rolante. Mas não qualquer uma. Só as inteligentes. E não o tempo todo. Só quando estou quieta. Como agora, tomando este cafezinho.

Funciona assim: quando não tem ninguém usando, a escada rolante se move vagarosamente. Para economizar energia. Basta alguém botar o pé nela, no entanto, para que ela role mais rápido. Quando a pessoa sai, não havendo mais ninguém sobre ela, a velocidade diminui novamente. E assim ela passa o dia. Movimentando-se mais rápido quando é necessário; poupando energia no resto do tempo.

Eu quero ser como a escada rolante inteligente.

Porque ela é esperta e sabe identificar a hora de agir. Nem antes, nem depois; no momento exato.

Eu não.

Passo os dias rolando velozmente sobre minha própria engrenagem, vivendo e revivendo coisas vividas e ainda nem vividas.

Gasto energia à toa, não me poupo.

Sempre acelerada, executo tarefas e penso pensamentos sem parar, nem mesmo desacelerar. Emendo fazeres uns nos outros, sequencialmente, tais os degraus da escada rolante.

Na esteira non-stop da imaginação sou capaz de ter diálogos mentais inteiros, antecipando conversas. E quando a conversa acontece, bingo. Não sai do jeito que imaginei. A pessoa não fala o que eu ensaiei para ela dizer, audácia da pilombeta! Perdi tempo e desperdicei energia tendo a pré-conversa imaginária. Fosse eu como a escada rolante inteligente, só me ateria à prosa na hora da prosa.

Com e sem estímulo, subo e desço, desço e subo. Às vezes, também rolo em elipses e não chego a lugar algum.

Sou um modelo obsoleto de escada rolante. E o cansaço manda a fatura no fim do dia, do mês, do ano. Não quero mais pagar. Nem rolar em vão.

Por isso gosto de observar a escada rolante inteligente. Há em seu movimento hipnótico uma inegável sabedoria. Que só consigo captar quando estou quieta. Como agora, tomando este cafezinho.

 

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O que quer o homem que ultrapassa

Da série “Veículo curto”, 2012 – Simone Huck

Só ele ouviu o disparo imaginário do tiro de partida: engatou a primeira, a segunda, costurou, ziguezagueou. A lanterna traseira de seu bólido acendeu cinco vezes em menos de vinte segundos. Tanto esforço para nada: acabou em penúltimo lugar na prova dos cem metros nada rasos do quarteirão encalacrado. Conquistou morno segundo lugar na pole position do sinal fechado.

Afinal, o que quer o homem que ultrapassa? Salvar o planeta, pegar a padaria aberta ou fazer xixi?

A ultrapassagem rápida e feroz preenche sua rotina de ideias lerdas e inócuas. A descoberta da velocidade lhe é soberana à da roda. Missão: ultrapassar o impossível. Quebrar recordes invisíveis. Nascer a cada esquina, parido pelo motor dos duzentos cavalos selvagens e esfomiados. Chegar primeiro ao infinito e além, mais conhecido como nada.

O homem que ultrapassa participa da corrida sem prêmio, encara desafio sem competidor, vive da glória sem devoção, da fama sem fã. Viciado em tempo, tem fantasias com o podium, delira com a linha de chegada que teima em lhe escapar. Morre na praia.

Estamos, ele e eu, sob o mesmo céu, sobre o mesmo asfalto a nos sustentar. Todos de passagem.

Talvez seja um homem sem quereres, feito de estares: à frente, ao alto, avante, em eterna vantagem. Para construir, em prazo recorde, a breve história de seu dia. O que você quer, homem de Deus, ao deixar o mundo para trás? Se nem conhece o que vem pela frente.

Perco de vista o homem que ultrapassa. Apressado, se foi no sumidouro da avenida, desapareceu da minha crônica.

Talvez, no fundo, ele tenha a valentia que me falta, a ousadia que não me pertence. A coragem de que não sou feita. Sou o seu veículo longo. Freio é medo.

Ultrapassada estou.

Anjice

Ilustração: Talas/Flickr.com

Basta eu ter pressa, e ensaiar algumas manobras de direção ligeiramente perigosa no trânsito, para que o evento se repita. É quando comprovo a existência dos anjos.

Um caminhão surge à frente, a cinco quilômetros por hora, freando qualquer tentativa minha de andar mais rápido do que a via permite. Lerdo, ele parece passear pela estreita rua de mão dupla, não deixando ao motorista de trás – no caso, eu – nenhuma alternativa, a não ser a prática da paciência. Alheia ao exercício, impraticável no momento, eu me descabelo enquanto o relógio dispara, os segundos se transformam em primeiros e o Coelho Branco de Alice aboleta-se no banco do passageiro, sempre resmungando. Tento ultrapassar de um lado, não dá. Do outro, também não. A próxima quadra é contramão, desisto de fugir. Tampouco adianta buzinar, o paquidérmico rodoviário nada pode fazer. Bem que seu condutor gostaria de estar a cem por hora. Resignada, vou estudando, mentalmente, as consequências do meu atraso, armando justificativas.

Quando não é caminhão, é ônibus. Daqueles cujo motorista resolve inventar pontos intermediários entre os oficiais. Ou outro veículo, também maior e mais forte que o meu. Morasse no litoral, um transatlântico cruzaria meu caminho num dia de pressa, só para me impedir de avançar o sinal. Qualquer dia, um tanque de guerra surgirá do nada na pista ao lado, assim que eu cogitar cortar caminho pelo posto de gasolina. É o jeito que meu anjo da guarda encontra para me proteger, na impossibilidade de aparecer sob a forma de guarda de trânsito. Embora eu ache que seria mais fácil ele me telefonar:

– Alô?

– Vai tirar o pai da forca?

– Quem está falando?

– Adivinha.

São vários, os métodos dos anjos. Certa vez, perdi um ônibus. Era manhãzinha, eu ia para o colégio. Cheguei à porta de casa e vi o das seis e dez passando na esquina. Caminhei até o ponto, vociferando. Emburrada, peguei o das seis e trinta. Assim que chegamos à avenida, escondi meu escárnio. O das seis e dez havia batido num caminhão de laranjas. O canteiro central inundara-se de azeda laranjada, cacos de vidro por todo lado, passageiros assustados ao longo da calçada, tentando explicar uns aos outros como é que tudo havia acontecido. Mais cheio que de costume, o ônibus das seis e trinta chegou ao seu destino. Como entraria somente na segunda aula e ainda tinha tempo, dei um pulo na lanchonete. Em seguida, recolhi-me em silêncio na quadra ainda vazia e tomei um suco de laranja, com bastante gelo. Aquela era a minha prece de agradecimento.

Se um dia meu telefone tocar no meio do trânsito, e for um deles, vou querer saber por que se preocupam tanto conosco. De quem vem a ordem da proteção, qual a motivação para cuidarem tanto de nós, o que há por trás da eterna missão de nos resguardar e qual o mistério quando alguma coisa aparentemente não dá certo. Sobretudo, de onde eles ligam. Mas aí eu já sei: a ligação vai cair.