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Verbo familiar

arte: Juliana Moraes
arte: Juliana Moraes

Agendar consulta das crianças na pediatra. Inspecionar orelhas do mais velho. Desembaraçar os cabelos da mais nova. Tirar dente mole dos dois.

Comprar os remédios do meu pai. Certificar-me que suas meias e cuecas estão em ordem. Levá-lo para cortar os cabelos e, na volta, passar no mercado para ele comprar bolachas.

Da matrioska, sou a boneca do meio. Cuido da boneca de fora, a que veio antes, e de onde vim. Cuido das que vieram depois, saídas de mim.

De mim, quem cuida?

Eu mesma agendo minhas consultas e nos dias marcados pego meu carro e vou. Lavo minhas orelhas, decido meus cabelos e, sem ninguém mandar, escovo os dentes – surgidos, tanto tempo atrás, em substituição aos meus moles. Não preciso de remédios; precisasse, os tomaria na hora certa. Determino o que entra e o que sai de meu guarda-roupa. Administro minhas próprias bolachas.

Encravado entre a infância e a velhice, o adulto é a peça autocuidante. No meio do jogo, é o presente, cuidador de si, do futuro e do pretérito.

O futuro, da vida, pensa que sabe tudo.

O pretérito sabe, efetivamente, tudo. No entanto, em triste gerúndio, vai se esquecendo.

O presente arde no desejo imperativo de tudo saber. Efetivamente, nada sabe.

São todos imperfeitos.

E isso é infinitivamente mais-que-bonito.

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Crônica de minuto #54

Arte: Jim Media Art
Arte: Jim Media Art

Sei que estou envelhecendo quando, ao preencher um cadastro eletrônico, vou muito lá embaixo para selecionar o ano do meu nascimento.

Sei que envelheço quando invoco com o manobrista do estacionamento que põe o meu banco para trás.

Sei que, além de envelhecida, estou mais impaciente que de costume quando pulo todos os anúncios do You Tube assim que é dada a deixa.

Sei que envelheço quando, ao fim de um dia com as crianças e suas energias infindáveis, cantarolo repetidamente “Eu quero o silêncio das línguas cansadas”.

Sei que envelheci quando lembro, não sem alguma nostalgia, de quando eu ia à loja da Telesp pagar a prestação do plano de expansão.

Sei que não só estou envelhecendo como ficando distraída, quando tenho ideias brilhantes do tipo desenvolver um alarme sonoro para pias de banheiros públicos, acionado automaticamente sempre que um anel é esquecido ali.

Sei que estou envelhecendo quando prefiro dormir de estrela do mar a dormir de conchinha – ainda que a praia não seja a minha praia.

Envelhecer é ônus e é bônus.

Crônica de minuto para um feriado

Foto: Romana Klee/Flickr.com

A mais nova da mesa ganhava todas as rodadas do jogo da velha. Ela escolhia sempre o x (para dar sorte?), analisava a estratégia da adversária e, poucos movimentos depois, fechava o jogo. Até que as amigas resolveram acabar com a farra: “Agora você vai ficar com o o. Resignada, ela aceitou. E iniciou a partida. Não deu outra: ganhou de novo. “Você está proibida de começar”, decretaram. Ela se recolheu, concordou com a cabeça. Aguardou a oponente posicionar seu x. Pensou um bocadinho, fez a jogada, aguardou a resposta. Pimba, ganhou de novo. As demais confabularam. Nem o trote na sorte, tampouco a revogação do direito ao primeiro lance haviam dado jeito. E todas ali eram macacas velhas no esporte. O café. Só podia ser o café. “Traz um chá para ela”, a da ponta pediu ao garçom. A contragosto, ela serviu-se da infusão de hibisco com limão. Ganhou. Trocaram de lugar na mesa, culpando o leste de favorecê-la. Dispensaram o x e o o , substituídos pelos saquinhos de açúcar e adoçante, respectivamente. Confabularam novamente, sem sucesso. Ela continuou papando todas.

O jogo não era mais delas. Pediram a conta.

Sobre baleias e vulcões

Ilustração: Elizabeth/Flickr.com

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A garotinha das tranças tortas entregou o giz de cera, uma folha de papel, e pediu:

– Desenha uma baleia?

Danou-se. Quando ela era pequena, tudo que tentava desenhar ficava parecido com vulcão. “Por que um vulcão, Helena?”, a professora perguntou. “Não é vulcão…”, e desabou no choro que não terminaria antes do recreio. Desde aquela época resolvera: não desenharia mais e pronto. Passou a infância distante dos crayons. Era inimiga dos pincéis, avessa às aulas de educação artística. Adolescente, descobriu as ilustrações digitais. Foi sua alforria. Agora, a menina lhe propunha um retorno ao inferno.

– Vou tentar – disse, ajeitando-se no banco de concreto da pequena alameda. Esboçou uma montanha e acrescentou nela um rabo de peixe. Cruzou os braços, condenando o próprio trabalho:

– Eu não sei desenhar baleia.

A pequena quis tranquilizá-la:

– Não faz mal – e segredou-lhe no ouvido, baixinho: – A baleia também não sabe desenhar gente.

Retomou o giz. Riscou a metade inferior da ‘montanha’ com um longo e ondulado traço, representando o mar. Fez-lhe um olho triste. A garota examinou. Séria, inquiriu:

– Cadê o esguicho?

– Esguicho?

– Toda baleia solta esguicho pela cabeça. Nunca viu, não?

Desenhou, então, uma espécie de chafariz sobre a baleia disforme. Igual ao do jardim que ficava na entrada do asilo. Há um mês ela passava as manhãs ali, visitando os velhos. Mas sentia-se incomodada perto deles, alguns cheiravam a manteiga. Era com a menina que conversava a maior parte do tempo. Filha da cozinheira que, não tendo com quem ficar, ia junto.

Ela riu:

– Isso não é esguicho!

“Danou-se de vez”, pensou. O vulcão. Mas a menina soltou:

– Parece mais uma flor!

Estava sempre com duas tranças mal-feitas, produzidas às pressas pela mãe, ainda na madrugada. Uma começava acima da orelha. A outra, abaixo. Uma dúzia de fios eram banidos do abraço cor-de-rosa do elástico, aqui e lá. Diariamente interrompida em seus sonhos, tratava de terminá-los no caminho, embalada pelo sacolejo dos três ônibus.

“Flor é melhor que vulcão”, ponderou. Corrigiu o esguicho. Desenho aprovado, enfim. Os velhos dali nunca lhe pediam para fazer desenhos. Alguém os havia ensinado que era melhor serem quietinhos. Como vulcões extintos.

Meio-dia. Hora de partir. Desceu a alameda, cruzou os portões. Fez um último aceno à pequena amiga. Na esquina de casa, buscou na bolsa o controle remoto da garagem. Encontrou a baleia, dobrada em quatro. Sorriu. A semana estava apenas começando.

Partida e chegada

Foto: Pink Sherbet/Flickr.com

Era dia dos mais sem graça. Dia bom, porém. Mas com jeito de dia usado, daqueles que parecem já ter acontecido. À noitinha dei um pulo no aeroporto, o avô das crianças vinha passar uns dias em casa. Enquanto o esperava, brinquei de prestar atenção no mosaico de gente e mala que se formava a cada embarque e desembarque. E acabei encontrando ali a graça do meu dia. Aeroportos são estações de trem com asas.

Um velho numa cadeira de rodas passou pela minha frente. Atrás dele, um bebê num carrinho. Cada qual com seu condutor. Eles não estavam juntos. Mas tinham algo em comum, além dos cabelos ralos: os dois dependiam de alguém para cuidar deles.

Infância e velhice passam à nossa frente o tempo todo. Para notá-las é preciso ter olhos de ver. O que não é nada fácil para quem está na metade do caminho, longe das duas pontas. A gente se esquece do que já foi e finge não saber do que será.

Saber os dois – bebê e velho – é exercício. De paciência, para o primeiro. De cuidado, para o segundo. Porque o velho é um espelho mágico que mostra o futuro. Então, meu amigo, é bom se cuidar. Começando pelo coração, que é a casa da cabeça. Ele manda no resto. Manda até nas pernas, nossas rodas de verdade.

O bebê do aeroporto era risonho, inquieto na sua fome de novidade. O velho era sério, imóvel. Olhava para o nada, já que tudo lhe parecia conhecido. Bebê e velho eram começo e fim. Oito e oitenta – meses e anos. Diferença e indiferença. Partida e chegada. Como as origens e os destinos lá no grande painel do mundo, que troca as informações a todo instante. O bebê ia para o velho. O velho vinha do bebê. O bebê me disse de onde eu vinha. O velho me mostrou para onde eu ia. E os dois me lembraram que o tempo passa é muito rápido. Voando, eu diria.