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Crônica de minuto #54

Arte: Jim Media Art
Arte: Jim Media Art

Sei que estou envelhecendo quando, ao preencher um cadastro eletrônico, vou muito lá embaixo para selecionar o ano do meu nascimento.

Sei que envelheço quando invoco com o manobrista do estacionamento que põe o meu banco para trás.

Sei que, além de envelhecida, estou mais impaciente que de costume quando pulo todos os anúncios do You Tube assim que é dada a deixa.

Sei que envelheço quando, ao fim de um dia com as crianças e suas energias infindáveis, cantarolo repetidamente “Eu quero o silêncio das línguas cansadas”.

Sei que envelheci quando lembro, não sem alguma nostalgia, de quando eu ia à loja da Telesp pagar a prestação do plano de expansão.

Sei que não só estou envelhecendo como ficando distraída, quando tenho ideias brilhantes do tipo desenvolver um alarme sonoro para pias de banheiros públicos, acionado automaticamente sempre que um anel é esquecido ali.

Sei que estou envelhecendo quando prefiro dormir de estrela do mar a dormir de conchinha – ainda que a praia não seja a minha praia.

Envelhecer é ônus e é bônus.

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Crônica de minuto para um feriado

Foto: Romana Klee/Flickr.com

A mais nova da mesa ganhava todas as rodadas do jogo da velha. Ela escolhia sempre o x (para dar sorte?), analisava a estratégia da adversária e, poucos movimentos depois, fechava o jogo. Até que as amigas resolveram acabar com a farra: “Agora você vai ficar com o o. Resignada, ela aceitou. E iniciou a partida. Não deu outra: ganhou de novo. “Você está proibida de começar”, decretaram. Ela se recolheu, concordou com a cabeça. Aguardou a oponente posicionar seu x. Pensou um bocadinho, fez a jogada, aguardou a resposta. Pimba, ganhou de novo. As demais confabularam. Nem o trote na sorte, tampouco a revogação do direito ao primeiro lance haviam dado jeito. E todas ali eram macacas velhas no esporte. O café. Só podia ser o café. “Traz um chá para ela”, a da ponta pediu ao garçom. A contragosto, ela serviu-se da infusão de hibisco com limão. Ganhou. Trocaram de lugar na mesa, culpando o leste de favorecê-la. Dispensaram o x e o o , substituídos pelos saquinhos de açúcar e adoçante, respectivamente. Confabularam novamente, sem sucesso. Ela continuou papando todas.

O jogo não era mais delas. Pediram a conta.