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Crônica de viagem #4 ou Manual do retrato alheio

Arte: Hersson Piratoba

Fotografar é uma arte. Tirar fotografia para alguém que deseja sair na própria foto é mais que arte; é benevolência.

Basta dar bobeira num local turístico, cruzar o olhar involuntariamente com outro olhar, por uma fração de segundo, e vem o pedido: “Você pode tirar uma foto?”. Se o idioma não é familiar, não importa: a linguagem não-verbal, nesse caso, é universal. Ao menos no mundo civilizado – não há de dar muito certo numa aldeia aborígene. Como recusar? Dizer “não” ao turista carente é como privar uma criança do doce. Negar assento ao idoso no ônibus. Comer o resto da coxinha na frente do cão esfomeado na rua. Não se faz.

Nunca as câmeras fotográficas foram tão digitais, portáteis, acessíveis e fáceis de operar (sem contar os celulares), o que justifica o hábito moderno. Imagine se, a cada paisagem bonita que encontrasse pela viagem, o fotógrafo tivesse de conferir atentamente o cenário, montar o equipamento sobre o tripé, ajeitar a pose do fotografado, voltar à máquina, colocar o pano escuro sobre a cabeça, para só então deflagrar o clique. Nenhum passeio duraria menos de dez meses.

Quem registra o momento turístico dos outros se torna, indiretamente, responsável pelo sucesso da sua viagem. Co-autor do seu álbum de recordações. Produtor executivo das suas memórias. Por isso, faz-se mister um guia que pode ser útil aos retratistas de ocasião. É o manual básico do retrato alheio.

1. Se quiser evitar a abordagem, não circule nas áreas mais populares da cidade. Se tiver de fazê-lo, incorpore um permanente e intimidador cenho franzido, faça cara de poucos amigos, ocupe-se dobrando o mapa do metrô, arrume um cão-guia e finja-se de cego. Caso contrário, você será forte candidato a personal travel photographer, ainda que por um minuto.

2. Coloque-se no lugar do outro. E pense na tristeza de você ser o turista em questão e ter que se contentar com fotos de viagem onde sempre falta alguém: um amigo, parente ou mesmo você, escolhido para anunciar o “passarinho”.

3. Quase todas as câmeras têm uma alcinha de proteção. Enlace-a no pulso, se não quiser ser objeto da praga de um turista enfurecido ao ver seu equipamento, adquirido em seis vezes no free shop, espatifado no chão.

4. Peça um briefing sobre como a pessoa quer a fotografia. De perto? De longe? A igreja deve ficar inteira? É para aparecer o lago? E jamais, em hipótese alguma, pergunte; apenas faça uma avaliação mental: é prudente cortar a barriga?

5. Caso esteja realmente disposto a colaborar, lembre-se que pode ser a primeira e única vez que a pessoa visita a Torre Eiffel, a estátua da Liberdade, as pirâmides do Egito. Caprichar no clique, portanto, é um dever moral, um ato de compaixão. Estude previamente noções de ângulo, foco, luz, planos, enquadramento.

6. É de bom tom dizer “Veja se ficou boa”. E oferecer-se, se for o caso, para um segundo clique. Ou terceiro. Nada que faça você perder o próximo trem, no entanto.

7. Saiba: o desejo de vínculo afetivo por parte do fotografado é instantâneo, especialmente nos povos latinos. Ao ver que a foto ficou bacana, ele passa a nutrir inexplicáveis simpatia e gratidão por você, o santo que quebrou seu galho. Portanto, se o turista satisfeito quiser apertar sua mão, lhe dar um abraço, adicionar você no Facebook, relaxe. O sentimento não durará até o próximo monumento histórico e ele logo esquecerá você.

8. Por fim, esteja pronto para o inesperado. Aqui vai minha experiência, uma variante dessa situação. Vinte e cinco anos atrás, eu estava em Veneza com meus irmãos e dois rapazes orientais se aproximaram. Resmungaram qualquer coisa e apontaram a câmera. Entendi e já ia estendendo o braço, quando um deles disse, num inglês primitivo, mais ou menos assim: “No… you [apontou para mim]… and… he [apontou para o outro]”. Traduzindo: era comigo que o moço queria tirar foto. Talvez para, de volta ao Japão, mostrar aos amigos que arranjara uma amiga – namorada? – na Itália. Aquela não era propriamente a época da inocência, mas não vimos mal algum na solicitação. Posei na Praça de São Marcos com um desconhecido. Sorri, autenticando a farsa. Quem sabe eu ainda exista, amarelada e carcomida, n’algum álbum guardado num velho armário em Tóquio, Hiroshima, Yokosuka…

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