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Engano

telefone 2

Quando o telefone toca de madrugada, boa coisa não é.

Ninguém liga no meio da noite para pedir a receita daquele biscoitinho de nata, convidar para o aniversário da caçula, contar que foi promovido na firma. Tampouco que foi despedido – salvo, neste caso, se a pessoa resolveu afogar as mágoas num cabernet e perdeu a noção da hora.

Telefonema na madruga é notícia ruim. Ou engano. De qualquer forma, é prejuízo.

Semana passada, eram três e vinte quando acordamos com o triiim. E no fixo, para piorar: em casa só há um, e ele fica na sala. Telefone fixo é o fio que nos prende ao passado.

Entre achar os chinelos e descer as escadas, a visão de todos os entes queridos, exceto os que dormem placidamente nos outros quartos, passa pela tela mental. Meu Deus, o que será que aconteceu? Delegacia, hospital e velório lideram a imaginação. Quinze segundos tateando até o aparelho são suficientes para o desenrolar do roteiro completo da tragédia. O “boa noite” dito antes de deitar não valeu.

Chego tarde, no entanto. Desligaram antes que eu atendesse. Engano? Não, era um desengano.

Apanho o celular, tiro do modo avião. Se for importante, tornarão a ligar, concluo. Aliás, devem ter tentado – da delegacia, hospital ou velório – primeiro nele, caiu na caixa postal, recorreram ao fixo. Já tracei toda a história. O 4G entra, aguardo a notificação.

Nenhuma chamada não atendida. Nenhum recado. Verifico o WhatsApp. Messenger. SMS. Voxer. Skype. Gmail. Direct. Nada. O mundo dorme em paz, sonhando. Só eu, às três e vinte e cinco, estou acordada.

Olho no aparelho o número da chamada. Não reconheço. Volto ao celular, pesquiso na agenda. Sem resultado. Reparo no DDD. Ligo de volta? Jogo o número no Google? Três e meia.

Antigamente, quando alguém nos telefonava, não se sabia quem era. Era preciso aguardar o alô do outro lado da linha para poder saudar, “Oi, tia!”. Ter identificador de chamadas no fixo era coisa de gente rica. Um aparelhinho acoplado ao aparelho, disputando espaço na mesinha. Os primeiros celulares também não vinham com a facilidade. Era “call” e só. Só fomos saber quem é que nos chamava no final dos anos 90.

Vinte e cinco para as quatro. Notícia ruim, dizem, chega rápido. Não mora aqui, portanto, o destinatário daquela ligação. Voltei à cama, fechei os olhos, custei a dormir.

A tecnologia evoluiu. A curiosidade, não. E quem liga?

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Escreveu, não leu…

Ilustração: Gustav Söderström/Flickr.com

Desde o momento que ganhei um smartphone, desses que fazem interface com Deus e o Diabo (às vezes, mais um que outro), tenho convivido com um professor de português pró-ativo mas, não raro, equivocado. É o corretor ortográfico, mestre em linguística embutido na engenhoca e que tem me dado um trabalhão. Tenho a opção de ativá-lo ou não. Porém, de razoável utilidade em casos de pressa aguda, ainda não me senti forte e determinada o bastante para dispensá-lo.

As aulas iniciam assim: entabulo a prosa com a comadre pelo SMS, sem notar que algumas palavras digitadas vão sendo substituídas por outras, que ele julga, de acordo com sua experiência e sabedoria, mais convenientes. Oh oh. Nem sempre ele está certo. Às vezes, é tarde demais. Há que se enviar nova mensagem: “Estou lesada”, explico, e não “Estou ‘mesada’”. Esclareço que preciso traçar um açaí duplo, e não um ‘Havaí’.

Ainda pelo smartphone visito, na rede social, a página da amiga na intenção de saber como foi a cirurgia do seu ciso. Ela responde que, felizmente, não precisou operar seu ‘riso’. (Só rindo.)

Comento a postagem bem-humorada de um fulano e risada vira ‘rodada’.

Compartilho que o cantor foi mal no show e ninguém entende, porque vaia virou ‘caia’. Um tombo, então? Eu, no passado, já vangloriei minha capacidade de datilografar rápido e certo.

Acesso o email para informar, em tempo real, que o amigo passou mal e foi levado de maca para o hospital. Concluo a mensagem e clico em “enviar”. A notícia espanta os destinatários, que devolvem: levado de ‘maçã’?

É a era das retificações ortográficas virtuais.

Donos da verdade, os corretores desses aparelhos pensam saber o que é melhor para nossas conversas e manifestações no ciberespaço. Sugerem vasto dicionário de possibilidades, mas sempre batem o pé que a primeira grafia é a melhor. E, num instante de descuido, zás!, assumem decifrar nosso pensamento. Nessa toada, não está longe o dia em que os smartphones terão ideias por nós. Pior: num belo dia eles resolverão ligar, por conta própria, para todos os contatos da nossa agenda. Sabe-se lá o que dirão a eles.

Smartphones levam a sério seu nome, estão ficando demasiado inteligentes. Alto lá: quem manda na minha vida sou eu e o lema é extensivo à minha escrita. O corretor ortográfico pode estar cheio de boas intenções. Porém, vide a antológica frase a respeito delas e o inferno. Seu slogan deveria ser o velho “Escreveu, não leu…” – e eu nem quero ver como é que ele completaria a frase.