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Vá lamber sabão!

arte: Zoraida de Torres
arte: Zoraida de Torres

Os sabonetes andam, não de hoje, atrevidos.

Do tempo em que nove em cada dez estrelas usavam Lux até os anos dois mil, uma passada rápida nas gôndolas do supermercado confirma: não se toma mais banho como antigamente.

Se para minha avó bastava escolher entre sabonete para pele normal ou seca, tenho à minha disposição opções para pele normal, seca, desanimada, em crise, moderna, retrô, light, diet, integral. O sabonete ganhou predicado afetivo, social, mágico e, por que não?, gastronômico.

Valei-me! Sabão é sabão.

Provocar, relaxar e estimular são os verbos preferidos dos slogans. Há também aqueles que não se contentaram com o universo do banheiro e se estenderam à sagrada cozinha, incluindo na receita ingredientes inusitados como vinho, macadâmia, morango, chantily. Agora me lavo com medo de engordar. Vou ter que instalar uma lava-louças no lugar da banheira.

Vou ao delírio quando vejo um rótulo minimalista e sincero: “sabonete para banho”.

Tem sabonete candidato a último romântico oferecendo buquê de sonhos, prometendo suavidade de pétalas, sensação luminosa, maciez renovadora. Uns, mais atirados, convidam: “degusta-me”, “seduza-me”. Já já precisarão colocar a classificação indicativa nas embalagens.

Um sabonete, para ser capaz de estimular meus sentidos, teria que ter o gosto do pão de batata que minha mãe fazia ou o cheiro do meu primeiro carro zero.

Para ser merecedor do título de relaxante, um sabonete precisaria saber fazer massagem nos pés, contar uma boa história ao pé do ouvido, preparar chá de alfazema. Energizante? Bastaria que cantasse “Fistfull of love” igualzinho ao Antony.

Dá para deixar os meus sentidos em paz? Eu só queria sair do chuveiro limpa e razoavelmente cheirosa.

Porque contra cansaço, angústia contemporânea, falta de amor ou paciência, não tem lauril éter sulfato de sódio, anfótero betaínico ou fragrância que resolvam, meu bem.

Atribuir superpoderes àquilo que foi feito para limpar, perfumar e, no máximo, não ressecar, soa a desespero. É forçar a barra do sabonete. Líquido, inclusive.

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Vestindo a camisa

Foto: Patrícia Garcia/Flickr.com

Acontece de faltar algo no slogan daquelas camisas. Uma palavra, uma ideia, algo para dar continuidade ao que sujeito e predicado deixaram (de propósito?) no ar. E não falta apenas o objeto, direto ou indireto. “Para mulheres que decidem”, diz a frase. Ora, ora. Que decidem o quê?

Camisas para mulheres que decidem o destino dos milhões nas companhias ou das moedas no cofrinho do filho, louco para comprar um Lego?

Que decidem eleições ou o que a família vai comer no jantar?

Será que ela, camisa, cai bem tanto na mulher que decidiu ser mãe quanto naquela que jamais sonhou parir? Vestirá, igualmente, as que decidem interromper uma gravidez e as que resolvem adotar o bebê resgatado de um lixo-berço?

Ou é camisa para mulher que decide botar o bloco na rua, o blog na lua, posar nua?

E se ela representar o traje ideal para a mulher que decide salvar o planeta, mas deixa de salvar o cachorro faminto que passa a noite ao gélido relento?

Talvez seja para a mulher que já percebeu e, portanto, decidiu: a tristeza não lhe cai bem, e o melhor a fazer é vestir uma alegria bem bonita, com muitos bolsos, para ir guardando as felicidades que encontrar.

Nada disso, quem sabe? É roupa para mulheres que decidem pintar a sala de roxo e azul-turquesa num dia de colorida fúria. Que decidem encerrar o velho jejum de paixão, feito em nome de um amor evaporado. Que decidem por silicone aos dezesseis e fazer tatuagem aos sessenta. (Afinal, para umas, nunca é cedo. Para outras, nunca é tarde. E todas estão certas.) É vestimenta para mulheres que decidem não dançar conforme a música que toca e, em vez disso, compõem a própria trilha e saem bailando por aí. E que, bem sabem, camisa nenhuma confere poder de decisão a alguém – exceto a camisinha.

A camisa, parece, é generosa e nasceu para todas. Afinal, o que é um slogan? Um autorretrato bem encomendado ou uma enganação mal planejada? Eu, por enquanto, visto-me de ventania e vou flanando pelo mundo. Tudo que quero são roupas novas.