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Falou e disse

Arte: GM Nikolaidis

Levei um bocado de tempo para descobrir que a tia Tervina, aquela senhora doce, rechonchuda, que morava em Casa Branca e tinha um quadro de Jesus Cristo na sala, se chamava, na verdade, Etelvina. Talvez não haja registro de que ela tenha sido chamada, algum dia, pelo seu nome original.

O mesmo se deu com minha prima Duvirge. Passamos a vida, eu e a família toda, chamando-a assim. Já moça, descobri, não sem algum espanto, que seu nome de batismo era Edwiges, em homenagem à santa protetora dos pobres e endividados. E foi bobagem eu tentar corrigir a pronúncia, depois. Ninguém sabia de quem eu estava falando. Nem ela.

Para algumas famílias – caso da minha – , a tradição oral é muitíssimo mais forte que a escrita. Mais que meros apelidos, ela inventa novos nomes, perpetuados pelas gerações. Pudera, quase nenhum dos meus antepassados sabia ler ou escrever. Imigrantes, a maioria foi para a roça cuidar do café e tinha mais o que fazer em vez de se dedicar ao beabá. Juntou-se à condição de analfabetos (ou quase isso) um sotaque interiorano, e deu no que deu. Valia o que era dito. E não se falava mais nisso.

As duas – tia e prima – pareciam não se importar em ter seus nomes corrompidos. Nunca as vi corrigindo seus interlocutores. Quando eu era bem pequena, havia no programa do Sílvio Santos uma jurada (as pessoas que decidiam se o calouro era bom ou não) bem popular, chamada Gilmara Sanches. Era eu dizer meu nome e as pessoas o confundiam com o dela. Eu olhava feio, sempre.

Um dos causos dessa oralidade particular, porém, não teve relação com os nomes da parentada, e sim de um logradouro. Eu e minha irmã, bem novinhas (ou nem tanto), queríamos enviar uma carta para outra prima que morava longe. Era um tempo inimaginável, sem e-mail, celular ou rede social. Só para dar um alô, saber notícias de todos. Pedimos ajuda ao vô Paschoal, o único que sabia o endereço. Ele ditou, com seu sotaque ítalo-caipira, e nós escrevemos direitinho no envelope.

A avenida Melvin Jones, que fica na cidade paulista de Mogi-Guaçu, era, no seu entendimento, “Mervin Júnior”, em “Mogin-Guaçu”. E foi com essa grafia que a carta seguiu caminho. O fundador do Lions ou revirou-se no túmulo, ou sacudiu o esqueleto de tanto rir. E, por milagre, sorte ou dedicação do carteiro, a missiva chegou ao seu destino. Ao que a prima logo escreveu de volta, dizendo que estavam todos bem.

A tia Tervina e o vô Paschoal, que eram irmãos, já se foram. Não vi mais a Duvirge, nem a prima de Mogi. E a Gilmara Sanches caiu no esquecimento. Melhor assim; ninguém mais erra meu nome.

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Será o Benedito?

Ilustração: Andrea Joseph/Flickr.com

Outro dia o Benedito apareceu em casa, já noitinha. Eu fechava as cortinas da sala quando bati os olhos nele, sentado na poltrona. Queria saber o que eu queria com ele.

– Como assim? – perguntei. Sentei-me no sofá.

– É que você vive falando meu nome. Vim ver o que é.

Ele tinha razão. Não tem pessoa no mundo que evoque mais São Benedito do que eu. Ora é São, ora é Santo. Mas é sempre ele, como se não existisse mais santo nenhum, que eu chamo para acudir. Na hora da pressa, da raiva, do desespero, da paciência esgotada. Quando levo uma fechada no trânsito. Se percebo que não vai dar tempo de entregar o trabalho. Quando a filha chama, pela vigésima terceira vez em cinco minutos, ou a cancela do estacionamento do shopping resolve emperrar bem na minha vez. Ou, no telefone, quando a moça da pizzaria não entende o nome de onde eu moro. (Se minha profissão fosse batizar edifícios e condomínios, seria tudo simples como “Parque das Flores”, “Residencial Maria”.)

Ensaiei as desculpas ao santo mouro quando ele, amavelmente, me interrompeu. Todo santo é amável.

– Não é que eu não queira ajudá-la – disse, entrelaçando as mãos sobre a túnica, como quem se prepara para fazer uma importante explanação. – É que cada santo tem o seu departamento, compreende? A Edwiges, por exemplo, cuida do Financeiro. Se é para ontem, o Expedito dá conta do recado. Para achados & perdidos, Longino é o cara. E nem precisa dar os pulinhos, isso é invenção.

– Longino? Mas não é Longuinho, São Benedito? – perguntei.

– Pois é. Tanto tempo se passou, minha filha. Ficou Longuinho. Mais fácil de dizer. Ele não se importa, leva a coisa como um apelido carinhoso.

Eu não sabia se servia um café, não faço ideia do que gente canonizada gosta de beber. Ainda mais ele, que é bom nos assuntos gastronômicos. Mas ele é santo, deve relevar uma porção de coisas.

Então, o Benedito descobriu, sem querer, que a poltrona reclinava. Deitou-se, sentou-se, deitou-se de novo, pés balançando sob as vestes (aquilo era um All Star?), rindo uma risada gostosa de quem acabara de criar uma brincadeira nova.

– E vou lhe falar mais uma coisa – disse, ajeitando-se e encerrando a santa risada, enquanto buscava ao lado da poltrona o entendimento da engenhoca. – Acho que você não precisa de tanta ajuda assim.

Não preciso mesmo, o santo estava certo. Difícil é mudar o padrão. E agora, o que é que vou dizer naquelas horas? Será que tem algum santo das reclamações bobas?

Vou dar um jeito de agradecer ao Benedito pela visita. Amanhã mesmo passo naquela loja que tem umas poltronas bonitas, escolho uma reclinável, branca, bem macia. E pergunto se entregam no céu.