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O Havaí é aqui. Ou não

Arte: Ana Maria Dacol

Eu que nunca fico elegante de sandálias Havaianas, igual às moças que desfilam pela Oscar Freire de terça-feira à tarde. (Para elas, é sempre terça-feira à tarde). Botam camiseta, jeans, chinelo de dedo e lá vão, irremediavelmente chiques. Quase não-terrenas.

Eu não. De Havaianas, não pareço descolada, não fico moderna. Metidos nelas, meus pés denunciam a deselegância nata, ou discreta – em livre caetaneação. E, não importa o quão produzida eu esteja, incorporo, invariavelmente, o arquétipo da jeca.

Inveja das moças da Oscar Freire.

As Havaianas, que já foram ícone de pobreza, foram alçadas a uma incompreensível categoria superior, através dessas mágicas ocidentais cuja poção leva quilos de propaganda, generosas doses de bom humor e uma pitada de sorte.

Com as legítimas, fajuta sou eu. Eu, que não solto pela vida minhas tiras particulares – aquelas que julgo me sustentar – , percebo que o buraco é, literalmente, mais embaixo. Toca o chão.

No primário, as crianças remediadas da minha escola assistiam às aulas de Havaianas. Destoavam do resto da classe, com seus assexuados sapatos pretos, tão fechados quanto a blusa branca de logotipo bordado no bolso que fazia parte do uniforme. Minha mãe dizia para eu não reparar nos pés delas. Eu reparava.

Não dei conta, em apenas algumas décadas, de assimilar tamanha mudança de status daquele simples chinelo. Meu subconsciente ainda o vê como calçado ordinário. E, como tal, instrumento de vagar à toa pela casa, lavar quintal, podar as roseiras, organizar as gavetas – qualquer atividade solitária e, obrigatoriamente, indoor.

Mas a mágica ocidental é poderosa. Então, eu bem que tento: flerto nas lojas com as Havaianas temáticas, fascinantemente multicoloridas. Afinal, nos pés das moças da Oscar Freire elas caem lindamente. Ensaio a compra, prometo superar o bloqueio emocional e me integrar à nova era, pertencer ao bando, ser cool. Que nada. Vêm à mente os colegas da escola e seus pézinhos encharcados pelo enfrentamento das poças em dia de chuva. Mudo de loja e escolho um par de sapatilhas. Espero que meus filhos não carreguem a ruidosa herança determinista e se esbaldem nas Havaianas, com liberdade e altivez, por onde quer que andem.

Centenas de milhões de pessoas em oitenta países do globo usam as Havaianas. Eu não. Não pertenço a este mundo.

Meu reino por uma fotografia da Jackie Onassis de Havaianas.

Tenho meu par, pasmem. Ganhado, não adquirido. Ele vive em meu armário, raras vezes circula. Nunca foi ao shopping. Nem até a portaria do condomínio, buscar a pizza. Vou descalça, se for o caso. Posso sair de casa sem batom; de Havaianas, jamais.

Sou doente do pé. Provavelmente, ruim da cabeça também.

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