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A moça do tempo

Arte: Jonas Seaman
Arte: Jonas Seaman

“Não tenho tempo”. Mente quem diz.

Há tempo de sobra, tempo pra chuchu. Tempo é o que não falta neste mundo de meu Deus. Basta olhar a certidão de nascimento e conferir quanto tempo já lhe foi concedido. E, em teoria, quanto ainda será. E, na prática, quanto está sendo nesse exato instante.

É tentador, fácil, gostoso até, reclamar da falta de tempo. É seguro, também – ninguém contesta. Vale para qualquer setor da vida ou ação cotidiana. É hábito institucionalizado e sacramentado, assim como conversar sobre o frio e o calor, suas variantes meteorológicas. É lamento pronto, desculpa engomada, queixume-curinga.

A falta de tempo para a ginástica, para trabalhar, para ler, para ir ao cinema, para ir ao teatro, para ir ao show, para deitar na rede, para ensinar o filho a andar na bicicleta sem as rodinhas, para assistir novela, para fazer um bolo de fubá, para cuidar das plantas, para arrumar as gavetas, para passar filtro solar, para tomar café da manhã direito, para estudar, para responder e-mails, para organizar as fotografias do celular… são as faltanças em geral, representadas numa só. O tempo que se passa, ao longo da existência, lamuriando a falta dele, bem que daria para fazer um bocado de coisas. À frase “Não tenho tempo para isso” cabe, geralmente, legenda: “Não quero fazer isso”. O resto é imbróglio do inconsciente de cada um.

O tempo escapa porque se enfia coisas demais nele. É como querer usar uma roupa apertada, sem que caiba tanto corpo ali. No dia-padrão, feito de suas medidas próprias, também não cabe tanta agenda. (Ou então, é a gente que usa errado, de trás pra frente, do avesso.)

Comprar flores, no trajeto para o escritório, não toma quinze minutos. Quinze, num dia de mil, quatrocentos e quarenta minutos. É um por cento. Vá lá que é preciso descontar os minutos dedicados ao sono. A conta do desconto passa a ser o quanto você gosta (ou não) das flores, e o quanto elas lhe são (ou não) essenciais.

Tomar um café, naquele lugarzinho charmoso entre o supermercado e a escola das crianças, leva dez minutos. Menos de um por cento. ( E café tira o sono.)

Até a Terra arruma tempo para dar suas voltinhas, em torno de si e do astro-rei. Faça chuva ou faça, veja só, sol.

A moça do tempo, aquela da TV, a falar de nuvens e precipitações, não sabe como gastou seus minutos de ontem. Nem de hoje. Foi dormir com déficit de hora e acordou com superávit de tarefa. Como irá gastá-los amanhã, ninguém sabe. E, se pensar que, na verdade, não existe isso de minuto, hora, nem ano, a previsão fica mais complicada (ou divertida) ainda.

Eu não sou a moça do tempo, sou meu próprio planeta. Faço minha rotação endoidecida de movimentos planejados e aleatórios, nem sempre giratórios, e dou conta da translação no prazo combinado. Tenho tempo para fazer tudo que quero, devo e preciso. Se faço ou não, são outros mil, quatrocentos e quarenta.

 

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… falta um tanto ainda eu sei (*)

Arte: Iroki

Ela adianta o rádio-relógio em dez minutos, todos os dias. Promulga uma espécie de horário de verão, particular e abreviado, para ver se consegue se safar do próprio atraso. Finge não desconfiar da farsa que constrói. Enganar o oráculo do tempo é seu maior embuste.

A serviço de quem está a sabotagem?

Ao primeiro pi-pi-pi ela abre os olhos, tateia em busca do algoz de seu sono e lhe ordena o silêncio. Confere: seis e meia. Lá fora: seis e vinte. O fuso horário que separa seu quarto do resto do mundo tem seiscentos segundos mentirosos. Sua alma se levanta e tenta convencer seu corpo a fazer o mesmo. A batalha é cruel. Não há vencedores; apenas teimosos.

Nos dez minutos de faz-de-conta cabe o resto de descanso providencial. Cabe um terço de sonho e cabe até um sonolento sentimento de culpa, devidamente aninhado em irresistível travesseiro.

O tempo ganho ilicitamente é suficiente para uma escova expressa, um xixi em paz, uma cutucada nas unhas do pé. Ou para preparar um pão na chapa, passar rímel, combinar saia e blusa, fazer um afago no cão. A farsa continua.

Ela ignora o relógio digital do microondas, a delatar o horário de Brasília. Sua fé analógica é inabalável: ainda há dez minutos, viva!

Confere a bolsa, apanha as chaves, dá a partida no carro. Ainda crê estar no futuro, apesar do relógio no painel jurar dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. O banco do motorista é o mesmo do réu. Ela dá de ombros, mete os óculos escuros e engata a primeira. Tem quarenta minutos para chegar antes dela mesma ao seu destino. O dia está quase salvo.

Ao burlar a lei do tempo ela se julga mais esperta que si. De esperteza é feita a hora que ultrapassa o dia pela direita.

Enquanto isso Cronos, de seu trono circular adornado com ponteiros de ouro, ri dela. Seu castigo está logo adiante, no primeiro semáforo quebrado. Arruinando o tempo que ela julgava sobrar.

(*) “Sobre o Tempo”, Pato Fu (John Ulhoa)

Eu, o Tempo

Arte: João Grando

Disse ele, o Tempo, n’algum dia desses:

“Vou lhe explicar, pessoa, por que não retorno ao ontem, nem demoro-me no hoje, tampouco antecipo-me ao amanhã. São justamente os verbos que jamais conjugo.

Ainda que resolvesse fazê-lo, perceba o caos: a feijoada da sexta, o casamento do sábado, a missa do domingo, nenhum deles teria início, nem fim. Só um eterno e desesperador durante.

Relógios endoideceriam. As horas, embaraçadas, confundiriam os minutos. Atos e acontecimentos acomodariam-se num único segundo, condenados a um gerúndio maldito.

O nascimento quedaria distante do parto. A morte não daria cabo da vida, como é de sua natureza. Super-heróis não salvariam o mundo que, por sua vez, não careceria ser salvo (ou viveria em permanente perigo). O Papa reproduziria o gesto da bênção para todo sempre, e os fiéis não teriam o que fazer com ela.

E, caso me dispusesse a atender tantas súplicas a mim dirigidas, a quem deveria dar ouvidos? Ao homem arrependido, à mulher apaixonada ou ao filho ansioso? Cada um tem seu desejo particular de conjugação. Não. Não correria o risco de importunar a Justiça, que em mim deposita tanta confiança.

Seria a era do tiro que perdura, da dor que não cessa, da oração sem amém. Do penne nunca al dente, do bife nunca ao ponto, da água nunca vinho. Nada de pouso ou decolagem. Nem partida, nem chegada. Dia e noite convertidos a uma só massa. O sinal verde sem vez, o vermelho reinante, o amarelo confuso e mais seis combinações possíveis para cada um – todas sem desfecho algum.

Portanto, pessoa, aceite: não sou seu, nem de ninguém. Nem às coisas, sequer, pertenço. Sou livre e desvencilhado, solitário e feliz. Sou aquele que arrebata, incomoda e salva.

Não dispenda sua força ao implorar por mundanices. Não reivindique que o final de semana se prolongue ou que o relógio custe a despertar ao amanhecer da segunda-feira; que a aula seja breve ou que o beijo não finde. De nada adiantarão suas rogativas, desconheço a compaixão. Faço o que quero. E sei o que faço”.