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O quadro

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No quarto dos meus pais havia um quadro de Jesus Cristo. Minha irmã conta que foi ideia do nosso avô. Provavelmente, para que Ele abençoasse o casal e a família. Ou para lembrar Seu Tonico e Dona Angelina que o filho de Deus estava vendo tudo, tudinho.

O quadro era grande e trazia um Jesus bonitão, loiro dos olhos claros, barba meio hipster. A moldura dourada tinha uma cordinha atrás para pendurar no prego, deixando-o levemente pendente para frente. O que talvez causasse ao Senhor certo constrangimento, de vez em quando.

De qualquer forma, minha mãe devia ter altos papos com o Jesus emoldurado. Contava-lhe dos filhos, das encomendas de tricô, dos apertos financeiros, as fofocas na família. Será que contou a ele quando ficou doente? Para nós, os filhos, não.

Foi nessa cama que nasceu, de parto normalíssimo, meu irmão mais velho. Ter Cristo assistindo ao vivo e em cores, abençoando tudo de pertinho, quem não haveria de querer? No entanto, comigo, a caçula, e minha irmã do meio, meus pais resolveram não arriscar, então nascemos no hospital. No meu caso, fez toda diferença: só estou neste planeta graças ao fórceps.

E a ideia do quadro só pode mesmo ter sido do meu avô. Ele mantinha um exército de santos em seu quarto, dispostos em um oratório ao lado do guarda-roupa. Eu tinha medo da santaiada, evitava entrar lá sozinha. Como se eu adentrasse uma festa sacra, e secreta, para qual eu nunca era convidada. Era nesse quarto também que meu irmão, o afilhado de Cristo por tabela, quando criança costumava ver freiras enfileiradas caminhando e sumindo através das paredes. Coisa que minha mãe tratou logo de resolver na Federação Espírita.

O Jesus Cristo loiro e cabeludão morou com a gente por muito tempo. Sua imagem estava incorporada ao quarto, à casa, à minha infância, adolescência, juventude. Tipo um parente. Lembro-me com exatidão de suas mãos, tão serenas, apesar das marcas da crucificação. Que sina, a dele; pregado na cruz, pregado nas paredes.

Quando minha mãe morreu, reconfiguramos os dormitórios e o quadro foi embora. Não sei que fim levou. Se o demos para alguém, ou se acabou indo para o lixo, de tão velho. É pecado jogar fora um quadro de Jesus, ainda que desbotado e carcomido pelas traças? E será que traças que moram em um quadro santificado, quando morrem também ganham o reino de Deus, fazem upgrade evolutivo e retornam à Terra como peixes?

Na nossa cozinha havia outro quadro, menor, da Santa Ceia. Vá lá: cozinha, comida, ceia. Mas deixar Cristo sobre a cama do casal? Que ideia, vô.

Os amigos do papa

David Yerga, acrílico s/tela, Flickr.com

Hoje vi uma fotografia do Bento XVI. Não tenho intimidade com o papa. Mas olhei seus cabelos brancos tão penteados e notei seu olhar, estranhamente não-angelical. Matutei, enquanto apanhava uma maçã na fruteira da cozinha. Maçã gorda, suculenta.

Como é a vida do papa, além da eterna rezação? Será que ele gostaria de sair do Vaticano sozinho, ir a uma padaria e tomar um café, sem ter que abençoar meio mundo pelo caminho? O papa torce para algum time? E se o time dele vai para a final, no grande dia ele põe a camiseta por baixo da túnica, troca a mitra pelo boné e grita gol? Será que o papa xinga quando bate o dedinho do pé na quina da parede? Porque isso acontece com todo mundo, não vá dizer que com pontífices é diferente.

Será que o papa morre de vontade de sentar em frente ao mar, só de calção? Papas parecem ser feitos apenas de cabeça e mãos – as mãos que acenam para todos e para ninguém –, com longas e amplas vestes a encobrir o nada que as une. Como serão seus pés?

O que tenta o papa no pecado da gula? Um bom espaguete, eu arriscaria. Daqueles com bastante molho, com direito a passar o pãozinho no que sobrou depois. Iguais aos que minha mãe fazia. Papas lambem os dedos?

Saberá o papa todos os segredos que a igreja católica guarda a sete chaves? Os mistérios de Fátima, as verdades sobre outros planetas, as revelações sobre o final dos tempos. Se sabe, será que se assombra?

E amigos, o papa tem? Desses que a gente telefona quando a tristeza vem. Dos de conversar por horas e, em pouco tempo, já se sentir melhor. Quem é que dá colo ao papa, se ele precisar? E ele deve, vez por outra, como qualquer um. Para quem o papa liga quando quer prosear? Quem ele chama para um chá, não por protocolo, mas por saudade?

Para quem o papa dá seu primeiro bom dia, todo dia? Para o amigo mudo na cruz, que não pode lhe dar um abraço?

Será que o papa já teve um grande amor? Terá sonhado com casa avarandada, filhos, cachorro, férias de verão nas montanhas?

Será que o papa deseja, de vez em quando, ser apenas um anônimo na multidão, para ir ao cinema sossegado?

Quais músicas será que o papa gosta, além da Ave-Maria? Será que ouve, secretamente, Rolling Stones? Terá ouvido Tom Jobim? Que, cá entre nós, tem o efeito de uma oração.

Última mordida na maçã. Seu bagaço, amarelado, é a prova da missão cumprida do fruto. Sou apanhada pela dúvida entre pensar se a figura mítica do nosso imaginário é aquela que enxergo na fotografia, ou se é tão-somente um personagem construído, assim como o Homem-Aranha, a Branca de Neve. E estes, noves fora as fábulas que os envolvem, ao que tudo indica, tiveram seus amigos.