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Já assinou uma petição hoje?

arte: Carmela Alvarado
arte: Carmela Alvarado

Perdi a conta de quantas petições assinei, eletronicamente, nos últimos tempos. Nunca foi tão fácil criar – e apoiar – campanhas para qualquer coisa. Mais fácil que tirar o doce de uma criança. Lembrando que tirar doces de crianças daria uma ótima petição contra quem faz isso.

Com as petições online, sem por o pé na rua, ajudei a salvar baleias no Japão, abelhas na Europa e elefantes na África. Se quisesse, engrossaria o coro daqueles que são contra a remoção do povo Masai, na Tanzânia. Gente que não conheço, num país que nunca visitei.

A humanidade descobriu o poder transformador de um clique. Da sala de estar, comanda-se uma revolução. O que Mahatma Gandhi não faria, se tivesse uma conta no Twitter.

Já que é festa, proponho minhas próprias petições. Nem tão públicas; às vezes, um tanto particulares. Todas fundamentais. Com elas, minha vida seria melhor. Quiçá, a sua também.

1. Petição para que as vinte e quatro horas da sexta-feira – e não somente as últimas seis – sejam, oficialmente, integradas ao fim de semana.

2. Petição para manobristas de estacionamentos não mexerem no ajuste do banco.

3. Petição para o antiaderente das frigideiras durar mais de um ano.

4. Petição para proibir preços terminando em 96, 97, 98 e 99 centavos, uma vez que para esses nunca há troco.

5. Petição pela venda de morangos a granel, e não mais em enganosas caixinhas – aquelas onde os maiores e bonitões ficam por cima e os mirrados e estragados, por baixo.

6. Petição para que toda sala de espera de consultório médico ofereça, em local visível e de fácil acesso, um bom café.

7. Petição para que nenhum cavalo precise puxar charretes impossíveis, e que galinhas só botem ovos quando elas quiserem.

8. Petição para que as revistas femininas não ensinem mais como enlouquecer um homem na cama ou ter uma barriga chapada em quatro semanas.

9. Petição para as lojas pararem de usar os termos “sale” quando querem dizer “liquidação”, e “off” quando querem dizer “desconto”. Esta petição prevê, ainda, proibição aos vendedores de chamar os clientes de “meu bem”, e também de acompanhá-los até a porta ao final da compra.

10. Petição para criminalizar a publicação de textos apócrifos nas redes sociais, bem como a replicação de boatos e qualquer coisa que termine com “se curtiu, compartilha”.

11. Petição para proibir a Wanessa Camargo de lançar novos discos.

12. Petição para que a trilha incidental “Com quem será” seja, de uma vez por todas, excluída do Parabéns a você.

13. Petição para que os anúncios do You Tube, que insistem em passar antes das suas músicas preferidas, sejam sumariamente extintos.

14. Petição para não deixar o samba morrer, nem acabar, pois o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar.

Junte-se a mim!

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Greve é grave

auto falante

Saibam todos: a partir de hoje, também estou em greve.

Por aumentos: de quintal, de roupas novas, de horas no relógio, de recheios e coberturas em geral, de respeito nos SACs.

Por direitos: de cantar letra errado e pegar caminho idem, de dançar esquisito e ter dente torto. De lembrar do sonho depois de acordada, de ser ranzinza às oito da manhã, de raspar os cabelos sem acharem que estou doida ou doente. Sobretudo, luto pelo direito ao direito de greve, posto que não pertenço à nenhuma classe fazedora delas. Meu sindicato é o da brabeza.

Quanto à jornada, não faço questão de redução. Minha reivindicação é justamente fazer uma. Mas tem que ser nas estrelas.

Minha greve é de impaciência, para poupar os filhos. De silêncio, para preservar ouvido alheio. E de raiva, por garantia.

Vou aderir à greve de nostalgia e parar de dar bola para o passado que, vez por outra, vem fazer piquete na porta do presente. Entrarei de cabeça na greve de preguiça, para fazer o que deve ser feito e nem um “mas” a mais. Mergulharei na greve de tristeza, exigindo mais motivos para ser alegre. Farei coro na greve de desânimo, de modo a inventar disposição.

Por outro lado, furarei greve de fome – prefiro a de gula. Serei grevista de porrada e palavrão, cruzarei os braços e pararei tudo que afete os serviços essenciais da gentileza. Pela paz, anunciarei a greve branca. Azul. Verde. Amarela. É bom dar bandeira.

Se ao redor a moda é paralisação, minha greve é puro movimento. Legítima, com acordos nem sempre fáceis e sem data para terminar. Sou dirigente de mim mesma.