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O primeiro beijo

Arte: Hsiao Ying

Meu primeiro beijo romântico, aos doze, foi isto: uma porcaria. O menino era da escola, daqueles que eu via aqui e ali, em frouxa convivência. Um dia, ele apareceu em casa. Tocou a campainha, desci as escadas para atendê-lo. Trocamos meia dúzia de frases compactas, conforme o esperado para a pouca idade. Quando dei por mim, estava beijando no portão. Não foi beijo dado, nem roubado. Foi beijo acontecido.

Por muito tempo, cobrei-me não ter tido um primeiro beijo especial como os das amigas e seus relatos encantadores. Em geral, os primeiros e primeiras, o que quer que sejam, costumam carregar, injustamente, um fardo: a obrigação de serem mágicos, perfeitos, inesquecíveis. Nem o amor à primeira vista dá garantia de felicidade, tampouco de eternidade. E as amigas, até as melhores, costumam inventar.

Meu primeiro carro, aos dezenove, não ficou escondido na garagem, enfeitado a laço, e eu não fui conduzida até ele de olhos fechados, para não estragar a surpresa. Foi um Fiat 147 (troco em um negócio do meu pai) caindo aos pedaços, cuja palheta do para-brisa saiu voando quando precisei usá-la num dia de chuva. A primeira vez no sexo também não foi nenhuma maravilha, posto que o rapaz era, antes de tudo, meu amigo. O primeiro emprego, ah!, esse é preciso confessar: teve o charme da estreia e está num bonito porta-retrato da memória. Foi no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga. Viver os bastidores do lugar que abriga a história do país, com acesso privilegiado, valeu cada hora de estágio. O primeiro salário, porém, não foi dedicado a nenhuma causa nobre, como pagar um jantar para os amigos ou ajudar os pais nas despesas do mês e, sim, torrado inteirinho numa única calça jeans.

Desajeitada, eu não queria continuar o beijo. Primeiro – e óbvio – motivo: não estava bom. Segundo, o medo de ser pilhada em flagrante. Um ato secreto e proibido como aquele não deveria ocorrer em território tão doméstico. Terceiro, não era daquele jeito que eu havia sonhado. Se é que sonhara. Às vezes, a gente sonha que sonhou. Primeiro beijo é feito de espera, susto ou sabor. O menino foi embora, razoavelmente decepcionado. Nunca soube se também era o seu primeiro. Ficou o beijado pelo não-beijado.

O que fazer com um beijo pioneiro absolutamente esquecível? Ele não foi, sequer, importante para os beijos que vieram depois. Não estudo mais naquela escola, não moro mais naquela casa e não sou mais colega do menino. E não tenho mais doze anos. Certos eventos não valem nem como experiência, ficam velhos, padecem e morrem. Servem apenas para risadas futuras. Ou para ilustrar histórias despretensiosas n’algum blog por aí.