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arte: Mariesa de la Rosa

 

Procuro professor de piano. Que more pertinho, para eu poder ir e voltar a pé. Que dê aulas em sua casa, numa sala toda janelada e de cortinas amarelas, dando para uma varanda iluminada por uma clave de sol. Ipê branco e jabuticabeira carregada no quintal são itens desejáveis no seu currículo. E que tenha gato ou cachorro. Ou calopsita. Hamster, coelho, tartaruga, furão, iguana, salamandra, porquinho-da-índia. Pode ter peixe, também. O problema dos peixes é que não dá para conversar com eles.

Que, num dia friorento, interrompa a aula e diga “Fiz sequilhos”. Que, se acaso eu estiver bem cansada, feche o piano e me mostre sua coleção do Calvin & Haroldo. Que não ria quando eu perguntar se vai demorar muito para tirar School, do Supertramp. E que nunca, jamais, em hipótese alguma, me faça solfejar.

Que tenha sempre disponíveis e fresquinhos: café, bom humor e paciência. Que traduza com leveza o significado de todos aqueles símbolos esquisitos que a gente vê nas partituras. E que também nunca, jamais, em hipótese alguma, questione por que resolvi aprender piano agora, aos 50. (Pensando melhor, que questione, sim; assim falaremos longamente sobre como as pessoas podem passar a vida inteira sem ir atrás do que amam sem ter, contudo, justificativa razoável para tal.)

Que me conte da vida dos autores clássicos como se os tivesse conhecido e fossem, Rachmaninoff, Debussy, Villa-Lobos, todos seus chapas. Que não tenha dó, nem ré, de mim, se eu não alcançar as notas porque meus dedos são curtos. Mas que vibre comigo quando eu, lá na frente e de surpresa, tocar algo e ele identificar, de primeira, o que é.

Que num dia, do nada, um poema meu caia em suas mãos e ele diga, eufórico: “Isto dá samba”. E que a coisa acabe virando bossa-nova, e a gente se divirta muito vendo nascer som das palavras que plantei no papel.

 

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Poesia para gato

Ilustração: Johanesj/Flickr.com

Ontem li um poema da Adélia Prado para o gato. No intervalo de botar pijama, apanhei o livro sob o criado-mudo e o abri numa página qualquer, brincando com a sorte. “É onde cair”, avisei. Enrodilhado na cama, em sua eterna roupa de dormir, ele bocejou e me encarou, como quem diz: “Feito”. Gatos falam com os olhos.

Vesti a blusa, limpei a garganta e comecei:

Hoje de tarde

pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas

Nunca estudei se gatos gostam de poesia, ou se preferem a prosa. Falei baixo, a métrica felina depende do volume, eu sei. Tolerante, ele foi afinando as orelhas para meu recital, os pequenos movimentos indicando se eu agradava ou não. Gatos escutam com os bigodes, mais que os ouvidos. Os olhos, mesmo semicerrados, tudo veem.

e comecei a chorar,

até me lembrar de que podia

falar sem mediação com o próprio Deus

daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.

No ‘cinza’ ele se levantou. Não crê, nem descrê em Deus; apenas não o sabemos – ele e eu – do mesmo jeito, já conversamos tanto sobre isso. Temi que pulasse da cama e me deixasse a sós com minha voz. Ninguém em casa queria ouvir verso às vinte e três horas e cinquenta e quatro minutos de um dia frio (não roxo). Eu contava com sua audiência noturna; era para mim que eu lia.

Me agarrei aos seus pés:

Vós sabeis, Vós sabeis,

só Vós sabeis, só Vós.

Do que sabe um gato? Que conhecimento se arquiva em uma cabeça tão pequena, do tamanho duma fruta de chupar? Lembranças de ir e vir pelas ruas, antes de aportar aqui, achar bom e resolver ficar? Acolher um animal sem rumo é abrir os braços para todos os deuses.

O bagaço da laranja, suas sementes

me olhavam da casca em concha

na mão seca.

Era apenas uma rotação, dentre tantas que seu dia de gato costuma ter. Recolheu o rabo, deitou-se de novo. Coloquei a calça do pijama, só ele, só ele, sabe o quanto este é velho. Faltavam as meias da noite anterior, de paradeiro desconhecido. Busquei outras na gaveta.

Não queria palavras para rezar,

bastava-me ser um quadro

bem na frente de Deus

para Ele olhar.

O gato pardo, penso, gostou da Prado. Ele, que tem olhos azuis iguais aos do Jesus no quadro que ficava na parede do quarto dos meus pais, sobre a cabeceira. Fechei o livro, ele lambeu uma das patas. E perguntou que gosto tem tangerina. Nunca comeu.

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“A pintora”, in A duração do dia