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arte: Mariesa de la Rosa

 

Procuro professor de piano. Que more pertinho, para eu poder ir e voltar a pé. Que dê aulas em sua casa, numa sala toda janelada e de cortinas amarelas, dando para uma varanda iluminada de sol e clave. Ipê branco e jabuticabeira carregada no quintal são itens desejáveis no seu currículo. E que tenha gato ou cachorro. Ou calopsita. Hamster, coelho, tartaruga, furão, iguana, salamandra, porquinho-da-índia. Pode ter peixe, também. O problema dos peixes é que não dá para conversar com eles.

Que, num dia friorento, interrompa a aula e diga “Fiz sequilhos”. Que, se acaso eu estiver bem cansada, feche o piano e me mostre sua coleção do Calvin & Haroldo. Que não ria quando eu perguntar se vai demorar muito para tirar School, do Supertramp. E que nunca, jamais, em hipótese alguma, me faça solfejar.

Que tenha sempre disponíveis e fresquinhos: café, bom humor e paciência. Que traduza com leveza o significado de todos aqueles símbolos esquisitos que a gente vê nas partituras. E que também nunca, jamais, em hipótese alguma, questione por que resolvi aprender piano agora, aos 50. (Pensando melhor, que questione, sim; assim falaremos longamente sobre como as pessoas podem passar a vida inteira sem ir atrás do que amam sem ter, contudo, justificativa razoável para tal.)

Que me conte da vida dos autores clássicos como se os tivesse conhecido e fossem, Rachmaninoff, Debussy, Villa-Lobos, todos seus chapas. Que não tenha dó, nem ré, de mim, se eu não alcançar as notas porque meus dedos são curtos. Mas que vibre comigo quando eu, lá na frente e de surpresa, tocar algo e ele identificar, de primeira, o que é.

Que num dia, do nada, um poema meu caia em suas mãos e ele diga, eufórico: “Isto dá samba”. E que a coisa acabe virando bossa-nova, e a gente se divirta muito vendo nascer som das palavras que plantei no papel.

 

O piano e a máquina de escrever

piano

Sempre quis saber tocar piano. Em vez disso, fui escrever. Combinar letras, em vez de notas, sempre me pareceu mais fácil. Repare: palavra é um tipo de nota musical. E um texto não deixa de ser uma música. Ouça esta história; leia esta canção. Tem poesia de dançar coladinho.

Quando criança, fiz meia dúzia de aulas do instrumento com o amigo, vizinho, gente boa. Osmar tinha cabelos loiros e compridos, parafinados como pedia a moda. Trouxera um skate dos Estados Unidos, o que, nos anos 70, o tornaria uma celebridade no quarteirão. Tocava piano como poucos. Conta a lenda que, no aprendizado, eu estaria mais interessada na hora do lanchinho. Costumava levar algum quitute para as aulas na casa dele, pegada à nossa. Por isso, ou não por isso, a coisa não foi para frente. Entre outros motivos, eu odiava solfejar. E não sei se ele gostava daquele ofício.

Nunca cheguei a tirar som de um piano, exceto o antológico trecho d’O Bife. Sou capaz, no entanto, de tocar uma máquina de escrever (das de ferro, das virtuais). Componho meus textos instintivamente; não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe o que são orações coordenadas sindéticas, quanto mais as assindéticas. Quer dizer, devo ter aprendido um dia, não sei mais. Escrevo “de ouvido”.

Quando tinha vinte anos, chorei as pitangas para um (outro) professor de piano. Disse-lhe que, àquela altura, achava tarde para aprender a arte. Aos trinta, lamentei: houvesse começado aos vinte, já estaria tocando tudo, tudinho. Aos quarenta, mesma lamentação, retroativa aos trinta. Hoje, um pé nos cinquenta, tivesse começado aos vinte, trinta ou quarenta, já estaria tocando tudo, tudinho. Imaginei-me aos sessenta. Jamais consegui responder, com razoável argumentação, por que não retomo o sonho.

Osmar e eu ficamos muito tempo sem saber um do outro. Da última vez, eu fui lhe dar um abraço pela sua exposição; ele se tornara artista plástico. No reencontro, quase vinte anos depois, ele veio me dar seu abraço pelo meu livro. O piano, para nós dois, e cada um ao seu modo, ficara para trás.

E se nem todo sonho deixado para trás tiver que ser lamentado, dado como morto? Já sonhei ser professora, já sonhei me chamar Noeli (por causa da novela Bandeira 2), já sonhei ter uma calça baggy verde limão (da loja Piter, centrão de São Paulo). Três quimeras infanto-juvenis que, simples assim, não são mais. O piano, talvez, esteja na mesma categoria, e meu deleite seja apenas seu som, enfim. Eu disse talvez. Gostar de cinema e de pavê de chocolate não me faz, obrigatoriamente, desejar produzir um e outro. Cinema e pavê estarão em mim, do mesmo jeito.

A partir de hoje, quando me perguntarem o que estou fazendo com caderno e caneta nas mãos, direi: “Estou compondo”. E o farei, por que não?, solfejando.