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Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

Arte: Nikkinella

Eu me divirto bastante quando vou cortar os cabelos. (Embora não tenha ousado grandes transformações. O comprimento dos meus, nem Joãozinho usa mais.)

Gosto do ritual da lavagem terceirizada. Gosto de vestir a capa plástica, para que os fios decepados não piniquem depois. Gosto do café adoçado com futilidade. Gosto das revistas de bobagens alheias. E gosto, sobretudo, do lero que antecede a operação, o papo despretensioso com o cabeleireiro, as divagações sobre paletas de cores, a previsão de como vai ficar, como se nada mais importante estivesse em curso no planeta. Aquela hora em que nada – nem as injustiças do mundo – tem relevância, exceto o planejamento do novo corte.

Uma coisa, no entanto, me aborrece: buscar inspiração nas revistas especializadas e encontrar penteados fictícios: aqueles que só existem na fotografia, só se realizam com mais de três produtos e/ou acessórios e só funcionam quando não tem vento, chuva ou qualquer outro fenômeno da natureza. Que dependem do ar-condicionado para sobreviver e valem somente se vistos de frente. É o penteado-instalação, cuja única função é ser assistido. Longe de ser uma obra-aberta, não permite interatividade – nem com a própria dona.

O cabeleireiro vai explicando: esse fica assim na base da pomada. Aquele foi conquistado com mousse, secador e chapinha – a santíssima trindade dos salões. A cor do outro tem Photoshop; humanos não dão conta de fazer esse degradé. A cada página, um cabelo devidamente organizado. Sentada no cadeirão, melenas molhadas escorrendo pelas orelhas, lanço a questão ao universo: com qual corte se pode, verdadeiramente, acordar, tomar banho e sair?

Mais aborrecido, só propaganda de xampu. Dobrada a esquina do século, elas insistem na velha fórmula dos cabelos longos (sempre longos; não há curtos nos comerciais) e brilhantes balouçando em câmera lenta. Que mentira, que lorota boa: a vida não passa em câmera lenta.

Tal como na propaganda, com seus filmes produzidos para faturar prêmios e não, necessariamente, ajudar a vender, há penteados preparados tão-somente para vencer concursos.

Quero ver nas revistas e nas tevês cabelos de verdade. Cabelos de levar a cria para a escola, de fazer reunião com cliente e faxina nos armários. Cabelos de bater perna no shopping, ir ao dentista, deitar no sofá para assistir as reprises do canal Viva. Cabelos de namorar, sem vergonha de ficarem nus. Cabelos de preparar camarão na moranga e ler Drummond na rede.

Cabelos que, fossem gente, usariam jeans, camiseta branca e havaianas.

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Perguntas da Primavera | Qual é o pente que te penteia?

Foto: Philippa Willitts/Flickr.com

O pente que me penteia anda estranho. Agora fica meio desajeitado nas mãos, e deu de querer botar coisas na minha cabeça. Quer saber por que é que tenho essa mania de só me ver de frente, sem dar conta que tenho um lado atrás. Mandou-me colocar outro espelho na porta do armário, em frente ao que já está lá. Para que eles conversem?, perguntei. Não, boba. Para que você veja como é de costas, o pente respondeu. Em nove das dez vezes que me olho no espelho, é para prestar atenção na frente. No perfil também. Mas lá, onde não há olhos, nem boca, nem peito, mas há nuca, ombros, tatuagem, bunda, batata de perna, não.

O pente que me penteia também tem uma conversa esquisita. Diz que veio da China e que bom mesmo é ser careca. Quem tem pelo é bicho, filosofa. Digo que já está combinado: quando eu fizer sessenta e sete, cabeça toda branquinha, passo máquina um. O pente quer saber porque 67. Ano em que nasci. Vim ao mundo com máquina um, só que meio desregulada. Então, é para voltar às origens. ‘Ashes to ashes’.

No contraponto do papo capilar, o pente que me penteia conta um segredo: gostaria é de desembaraçar as ideias das pessoas. Que vivem com nós e caraminholas demais. Sonha fazer num cabelo cheio de ondas um tsunami de coisas novas, levando os pensamentos a mares nunca dantes navegados. Nos lisos, um penteado para se achar o fio da meada. Ele sabe que é na cabeça que as coisas nascem, vivem e morrem, então é ali que elas podem ser reinventadas. E eu, que não sou boba, fico só prestando atenção.

E teu pente, o que te fala?