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Empinando pensamento

Litogravura e aquarela: Caroline Pires

Banheiro é o maior celeiro de ideias que existe. Não há páreo para ele. Soluções, descobertas, conclusões, rimas, eurekas – é no cômodo mais íntimo da casa (ou do escritório) que as melhores são paridas. É ali que as ideias saem para passear, felizes da vida, sem ter que dar satisfação a ninguém. Não há censura, crítica, vaidade ou pretensão. Se a liberdade é azul, em um banheiro ela é azulejada.

Deus há de ter rascunhado muito enquanto fazia a barba. Jesus Cristo deve ter tido seus primeiros insights enquanto usava o trono. E não estranharei se contarem que “Stairway to heaven” e “Águas de março” surgiram entre uma chuveirada e outra.

A distração criativa  já criou e salvou mundos inteiros.

Mais que zelar pelo saneamento básico de um povo, lutar por bons banheiros é lutar por um mundo melhor.

Não admira que, no lar, mães reivindiquem seus direitos ao xixi em paz, sem interferências dos filhos pequenos. Mais que esvaziar a bexiga, é nesses breves minutos no um-por-dois que elas se recompõem e adquirem energia extra para seguir o dia em meio a lições de casa, roupas no varal e cardápios para o jantar. Não fosse assim, que vantagem Maria levaria? De nada adiantaria fazer perguntas ao espelho, espelho meu, se não houvesse tempo (e sossego) para ouvir as respostas.

Banheiro é o único lugar do mundo onde é você, você e mais ninguém. Nele, há sempre algo nu. Um pedaço de corpo, um engano, uma moral, uma mania, um erro. É a nudez – total ou parcial, metafórica ou não – que absolve, cura e entrega quem se é. (A eventual presença de um gato não só não interfere no processo, como o aprimora.)

Não inventaram lugar melhor para empinar pensamento do que banheiro. Feito pipa. E quanto mais corda você der, mais alto ele vai.

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Crônica de minuto para quem pensa muito

Ilustração: Michael Young/Flickr.com

Repartir um prêmio em dinheiro que você nem punha fé? Não pense duas vezes. Apostar tudo naquele namoro que ninguém põe fé: pense duas vezes.

Ultrapassar aquele caminhão só porque a pressa está maior que de costume? Pense duas vezes. Agradecer ao anjo da guarda por ter escapado de ir para o beleléu, por causa do dito cujo: não pense duas vezes.

Socorrer o cãozinho atropelado que as pessoas fingiram não ver? Não pense duas vezes. Comprar um animalzinho, em vez de adotar: pense duas vezes.

Derrubar o fícus em frente à sua casa porque suas raízes levantaram um bocadinho a calçada, e agora você precisa desviar, de leve, para entrar na garagem? Pense duas vezes. Parar dois minutinhos para fotografar o ipê rosa que amanheceu florido na rua de cima: não pense duas vezes.

Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano? Não pense duas vezes. Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano: pense duas vezes.

Topar uma proposta para trabalhar mais feliz e ganhar um tiquinho menos? Não pense duas vezes. O contrário: pense duas vezes.

Cortar os cabelos porque deu uma vontade súbita, assim, do nada, sem explicação? Não pense duas vezes. Mantê-los longos apenas porque seu namorado gosta, e vive pedindo, com aquele olhar que você conhece bem, para você deixá-los assim? Pense duas vezes.

Adicionar, multiplicar e dividir os bons amigos nas redes sociais? Não pense duas vezes. Subtrai-los da sua vida porque, de vez em quando, eles não concordam com você: pense duas vezes.

Aproveitar o triz de inspiração para guinar a vida praquele lado que ela, há tempos, precisa? Não pense duas vezes. Se pensar uma vez e meia, o triz já era.

Pensar uma, duas ou três vezes. Não pensar. Ter cérebro à vela, com vento comandando o pensamento. Ideia motorizada, para ir o mais longe possível em menos tempo. Mente a jato, para perder de vista o que ficou para trás.

Dou-lhe uma. Dou-lhe duas. Dou-lhe todas.

Colecionadora de devaneios

Caríssimos leitores: acho que descobri por que vocês não estão conseguindo postar comentários. Agora o formulário fica lááá embaixo, finalzão da página. Viram? Espero que seja isso. Se mesmo assim não der certo, me falem? Por e-mail ou no Facebook… Só não me deixem só. Beijos,

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Ilustração: Silvia Falqueto/Flickr.com

Devaneio recorrente número 1. Boto o pé na loja de roupas, aquela a qual cobiço integralmente prateleiras e cabides, e a recepção é retumbante. Confete, serpentina e vuvuzela: sou a milésima freguesa a pisar ali e, para comemorar, ganho um vale-compra no valor de três mil reais. Quanta modéstia. Eu não podia imaginar logo dez mil? (Toda imaginação é uma espécie de pedido.) Mente pobre é uma droga. Atrapalha até devaneio.

Devaneio recorrente número 2. Sou a entrevistada da noite no programa do Jô Soares, por ocasião do lançamento de meu livro. Que, aliás, foi muitíssimo bem recomendado pela Veja, Bravo, Folha de S. Paulo e Lola. O Estadão falou mal, a Época nem deu tchum, mas como sou uma escritora meio blasé, não ligo. Estabeleço diálogos interessantíssimos com ele e não estou nervosa. Devaneio é devaneio. Lá pelas tantas, aproveito uma deixa e conto ao Brasil um causo verídico envolvendo o gordo. Final dos anos sessenta, ele, já rechonchudo, aboletou-se no sofá da minha amiga, e este veio ao chão. Ele leva alguns segundos para se lembrar, abre uma gargalhada (a plateia e o sexteto também), seguida da franzida de sobrancelha que é sua marca registrada. Quer notícias do pai da minha amiga, eu conto, ele se entristece. Depois, pergunta se o conserto do sofá ficou caro. Humoristas.

Devaneio recorrente número 3. Faturo a Mega Sena da Virada e descubro en passant, porque ouço no jornal a repórter anunciando, inconformada, que o milionário de Campinas ainda não foi retirar seu prêmio. Gosto de apostar, mas me escapa a conferência. Maquino um plano para ir ao banco sem alarde, disfarço-me esplendidamente, de modo que nem meus filhos me reconhecem. Decido viajar até Palmas, no Tocantins, para receber a dinheirama, digamos, incógnita. Esse devaneio, em particular, costuma vir acompanhado de outro, o 3-a: sou sequestrada e passo vinte e dois dias no cativeiro antes que a polícia me liberte, a partir da denúncia de um vizinho. O devaneio 3-b consiste do encontro (secreto, evidentemente) com meu salvador, um vendedor de morangos de beira de estrada, para lhe dar um abraço. E algum dindim.

Devaneio recorrente número 4. Entro na cozinha para apanhar uma bolachinha e dou de cara com um senhor que não conheço, já falecido. Percebo isso porque seus passos não fazem barulho. Eu ajo naturalmente, porque sou uma pessoa sem preconceitos com ninguém, nem com os mortos, e pergunto se somos parentes. Ele não responde. Tento saber o que ele quer ali, fuçando na minha despensa, e nada. Sondo se é possível tocar-lhe o ombro, ou se ele é apenas um holograma do além, para testar-lhe a temperatura. Dizem que todo morto é frio, mas quem mora tão perto de Deus há de estar mais aquecido. Olho à volta para ver se alguém testemunhará comigo o episódio, mas somos somente eu e ele. Minhas chances de contar a experiência às pessoas (vivas), sem passar por alucinada, vão para as cucuias. É quando ele encontra o pacote de waffer, confere o sabor, põe dentro do casaco e se manda. É um devaneio flexível; às vezes, mudo personagem e local. E vejo minha mãe, assistindo, em meio aos balões coloridos, a família toda cantar parabéns para um dos netos. Penso naquilo do holograma, mas desta vez para ver se dá para lhe dar um abraço. Na hora que me despeço dela, fico sem graça de perguntar quando nos veremos de novo.

Uns colecionam selos. Outros, figurinhas. Eu sou colecionadora de devaneios. São bem mais divertidos. Minha coleção, ao contrário dos álbuns, não tem figurinha difícil, muito menos fim. Cabe em qualquer lugar e é portátil. Só uma coisa me aborrece: não ter com quem trocar os repetidos.