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Verbo familiar

arte: Juliana Moraes
arte: Juliana Moraes

Agendar consulta das crianças na pediatra. Inspecionar orelhas do mais velho. Desembaraçar os cabelos da mais nova. Tirar dente mole dos dois.

Comprar os remédios do meu pai. Certificar-me que suas meias e cuecas estão em ordem. Levá-lo para cortar os cabelos e, na volta, passar no mercado para ele comprar bolachas.

Da matrioska, sou a boneca do meio. Cuido da boneca de fora, a que veio antes, e de onde vim. Cuido das que vieram depois, saídas de mim.

De mim, quem cuida?

Eu mesma agendo minhas consultas e nos dias marcados pego meu carro e vou. Lavo minhas orelhas, decido meus cabelos e, sem ninguém mandar, escovo os dentes – surgidos, tanto tempo atrás, em substituição aos meus moles. Não preciso de remédios; precisasse, os tomaria na hora certa. Determino o que entra e o que sai de meu guarda-roupa. Administro minhas próprias bolachas.

Encravado entre a infância e a velhice, o adulto é a peça autocuidante. No meio do jogo, é o presente, cuidador de si, do futuro e do pretérito.

O futuro, da vida, pensa que sabe tudo.

O pretérito sabe, efetivamente, tudo. No entanto, em triste gerúndio, vai se esquecendo.

O presente arde no desejo imperativo de tudo saber. Efetivamente, nada sabe.

São todos imperfeitos.

E isso é infinitivamente mais-que-bonito.

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A vidente

Ilustração: Shelly

Quisera ser etérea, capaz de passear para trás no tempo e observar gênios da humanidade, prêmios Nobel, líderes de nações, inspiradores de gerações inteiras, antes de serem o que foram ou são. Lá, quando brotaram no planeta. Quando usavam fraldas, aprenderam o abecê e nem sonhavam o que viriam a ser. Eu seria uma vidente. Só que especializada em passado.

Poderia, também, não ser etérea coisa nenhuma, e sim, testemunha anônima de carne e osso, vivedora das épocas em questão. Uma cozinheira aflita, uma médica mal-humorada, uma professora gentil – figurantes que permeassem, por acaso e sem intervenção, a vida de tais gentes. Com a qualidade de, vivendo no passado, ser sabedora do futuro. Que, no caso, é hoje.

Só para espreitar, por exemplo, Millôr Fernandes pirralho. Ainda Milton, nos seus dez anos de idade, órfão, morando com o tio e vendo, como o próprio contou, “o bife só no prato dos primos”. E ponderar se a falta do bife o ajudou – ou não – a fazer melhor o que ele trataria de fazer dali uns anos.

Flagrar Madonna tomando banho de chuveirinho, onde o mais longe que seu pensamento alcançava era do quê iria brincar logo em seguida.

Espiar, feito vizinha enxerida qualquer, Caetano Veloso em seus primeiros passos, desengonçado como todo bebê, sob o olhar atento de Dona Canô.

Fazer coro, disfarçada de parente, no “parabéns a você” de Luís Inácio Lula da Silva em seu aniversário de quatro anos. (E ficar com pena; não teve bolo.)

Ver Fernanda Montenegro fazendo lição de casa e penando na matemática. Fernando Pessoa em frente ao espelho e a primeira barba na vida. Martin Luther King brincando com um caminhãozinho de madeira no quintal. Steve Jobs na cantina da escola, contando os cents que faltavam para o cheeseburguer. Da Vinci ardendo em febre, no colo do pai. Sidarta Gautama reclamando das minivestes reais, pinicavam muito. John Lennon banguelo e cheio de vergonha. Pelé balbuciando “bo-la”.

O propósito do desejo é ingênuo: provar que todos nascem iguais. E assim permanecem, até o dia em que seguem pelo caminho que lhes foi soprado e deixam de ser iguais aos outros. Preciso, porém, ser ciente de que, estando no passado, não posso, nem devo, interferir no que quer que veja ou ouça. Nem contar nada a ninguém. Para não atrapalhar o mundo.

É desejo sem serventia, então. Só vaidade. Orgulho de ser detentora de visões privilegiadas e, no entanto, incompartilháveis. Mais proveitoso seria desejar o fim da fome no mundo, a salvação das tartarugas-marinhas, os números sorteados na Mega Sena. Mas não. Invento de querer ser vigilante do que foi. Fotógrafa do anterior. Fiscal de pretérito.

Tolice pura. Videntes, de passado ou futuro, nunca são muito levados a sério.

O (falso) poder da tranqueira, do cacareco e da bugiganga

Ilustração: Matti Mattila/Flickr.com

Desfiz-me de todos meus terninhos. Mentira, guardei um. Considerando a hipótese, cada vez mais remota, de eu vir a precisar ou ter vontade de usá-lo. O pretinho para lá de básico é o único remanescente da dúzia que jazia aposentada no armário, representantes de uma época em que o traje era meu uniforme diário. Tão sérios. Tão caretas. Eu não era (tão) séria. Eu não era (tão) careta. Vesti-los, porém, era meu dever. E não se falava mais nisso.

Os tais fazem parte de uma nova onda minha: botar reparo no que está arquivado em casa – no armário, gaveta, caixa, vão, fresta –, sem que alguma explicação consistente justifique sua permanência. Como os supracitados terninhos e o livro sobre como cuidar de um bebê, recentemente flagrado na estante (sendo que não há mais nenhum na família). Ou a nota fiscal do chuveiro elétrico que já pifou e foi substituído. Um ticket de embarque, tão antigo quanto a história da aviação. O aparelho de DVD quebrado, cujo conserto não compensa. Faturas de cartão de crédito de quando eu era solteira. Um exame de sangue de 2008 e antibióticos vencidos. Uma dezena de hashis que vieram junto aos últimos pedidos do fast-food, sem contar os sachês de mostarda e catchup envelhecendo na despensa. Uma Barbie em versão Saci-Pererê, quatro bolas furadas. A lista, longuíssima, é fruto não só de uma certa desorganização doméstica, mas da ancestral necessidade de registrar e comprovar tudo (que parimos, que compramos, que pagamos, que fomos, que voltamos, que temos, que somos), respaldada pela síndrome do acúmulo, cujo lema é “Um dia eu posso precisar”. Depois, reclamamos que a casa ficou pequena.

Quisera ganhar no Dia das Mães um aspirador especial, que sugasse não apenas o pó da velharia inútil, mas a própria velharia e suas teias invisíveis – sobretudo as que se instalam nas ideias. Uma vassoura mágica, para varrer do meu lar o apego, que é meio-primo do medo. Procura-se faxineira de alma, para dormir no emprego. Paga-se bem.

Dia desses, vi na TV uma norte-americana, casada e mãe de sete. A moça mantinha no guarda-roupa, ao lado das peças do dia-a-dia, seu uniforme de animadora de torcida. Ela ainda cabia nele, não se tratava da clássica questão de desejar a antiga forma. O que ela queria de volta, e não sabia, era o passado. Que, claro, ficara lá atrás. Seus gritos de guerra agora eram outros. Não mais tão animados.

E meus terninhos? Personagens de um passado bom que, em irresistível trocadilho, não me serve mais. Foram-se, portanto, todos. Foram tarde. Menos o pretinho. Se bem que. Ele que se cuide.

Pelo caminho

Ilustração: David Chilstrom/Flickr.com

Sei muito bem onde eu estava com a cabeça ontem, quando quase perdi a saída na rodovia. Eu tentava lembrar alguns trajetos que não faço mais. Os que foram minha rotina certa, familiar e previsível, por anos a fio. Os feitos a pé, ônibus, metrô, carro, quando eu tinha cinco, dez, quinze, vinte, trinta anos. E foi assim, brincando nos caminhos do passado, que quase me esqueci da trilha do presente.

Registro fundamental: o percurso de casa, meu marco zero particular, para a escola, que ficava na esquina. Aqueles duzentos metros deviam ser uma lonjura, posto que nunca me deixavam ir só. Alguém sempre me acompanhava. Cresci e fui autorizada à independência. Ia e voltava sozinha para a aula. O caminho de breves cinco minutos durou nove anos.

Nos finais de semana, de casa para a casa da bisavó. Esse, sim, longe. Cruzávamos os bairros a pé, minha mãe, minha irmã, minha avó e eu. Às vezes, minha irmã escapava. Mas eu era criança e ainda não tinha tanto poder de argumentação. Só me restava acompanhar os mais velhos em seus passeios e obrigações sociais. Lá havia chá-mate pelando de quente e com muito açúcar, servido nas xícaras de porcelana coloridas, tão finas que eu tinha medo de trincá-las com meus goles. E tinha sempre tios, tias e primos por perto. Os parentes gostavam daquele modelo onde várias famílias moram no mesmo quarteirão, e vão abrindo caminhos e instalando seus portõezinhos para conectar as casas. A visita era, portanto, quase sempre coletiva. Hoje eu me perderia por aquelas quebradas e não reconheceria a rua, nem a casa da minha bisavó. Nem ela, nem os parentes, moram mais lá. Os velhos portõezinhos fecharam-se para sempre.

Colegial. O mesmo ônibus, apanhado no mesmo ponto na rua de cima, com pequenas variações nas linhas, ao longo de três anos. O mesmo metrô. E do metrô à porta do colégio, seiscentos metros a pé em uma rua eternamente decorada com cocô de cavalo, visto que havia um quartel ali. Cavalos e soldados levavam-se para passear e, sabe-se, cavalo é bicho que não tem frescura. Faz onde dá vontade. Quinze para as sete da manhã e minhas narinas eram tragicamente acordadas. Saberia refazer esse percurso. Mas os cavalos continuam por lá. Melhor não.

Faculdade. O primeiro emprego. O segundo. Foram anos de trólebus, os varões sempre escapavam dos fios. Lá ia o trocador: pausava a aferição do dinheiro, pulava a catraca, descia do ônibus, encaixava os danados no lugar, subia no ônibus, pulava a catraca, retomava seu posto e a conferência. Eu tinha pena dele. E, hoje, não saberia mais fazer os trajetos dos ônibus. Ou saberia? Tem memória que funciona no tranco. Se embarcasse num trólebus, a primeira coisa que eu faria seria tranquilizar o trocador: “Se escaparem, deixa comigo”. Mais tarde, passei a navegar pela cidade sobre minhas próprias rodas. Pude escolher os caminhos, variá-los e errá-los. Por vezes, parei atrás de um trólebus e acompanhei, não sem impaciência, a velha missão do trocador. A gente se esquece das coisas muito rápido.

As ruas todas onde passei e repassei a vida, salvo algumas mudanças das mãos, permanecem em seus lugares, têm ainda o mesmo nome. Quando se faz o mesmo caminho todo dia, exerce-se sobre ele uma espécie de propriedade. “Meu caminho”. É para que a (necessária) mesmice cotidiana ateste o passo – e a posse – sobre a vida. Quando um trajeto é abandonado, deixa de ser próprio. Muda de dono. Como um objeto pessoal que foi doado. Separar-se de um caminho é exercício de desapego. E refazê-lo, seria de quê?

Meus trajetos, hoje, também correm o risco da deslembrança futura. Quanto a isso, parece não haver saída. Nem a que eu quase perdi ontem, na rodovia.

De volta para o futuro

Foto: Gilberto Filho/Flickr.com

Outro dia minha neta fez um passeio com a escola. Foram ao museu. Ela voltou encantada com as coisas que viu. E particularmente impressionada com um objeto, muito popular antigamente: a chapinha. Quem diria. Uma engenhoca com traços de duas eras tão distintas – a Moderna e a Medieval – ser capaz de tanto sucesso no passado.

Minha neta não sabe da missa a metade. Quem se recorda do Curvex, do contraditório Invisible Bra (absolutamente perceptível), da ombreira e do Botox? Dos velhos desfiles de moda com moças de olhares sombrios e roupas que precisavam de legendas? E das meias-calças que não duravam uma temporada? O que me fez lembrar de outro nonsense de outrora: a depilação com cera.

E fazer supermercado? Nada mais insólito: os produtos iam das prateleiras para o carrinho, do carrinho para a esteira, da esteira para as sacolas, retornavam ao carrinho, passavam para o porta-malas, e somente depois de todas as etapas é que chegavam à despensa. Nem dá para explicar como é que esse processo perdurou por tanto tempo.

Quem se lembra de quando não se reciclava lixo, o esgoto ia para o mar e a gente quase cozinhou o planeta?

Lembro-me de existir dono que não recolhia a caca do cachorro na rua, de gente que abandonava cachorro, comia cachorro, atropelava cachorro e ia embora, como se nada tivesse acontecido. Tempos bicudos, aqueles.

E como era triste a época em que as mulheres ganhavam menos que os homens, tinham que se vestir como eles no trabalho e, dependendo da profissão, nem tatuagem podia aparecer. Parece que as coisas já melhoraram: o trabalho voltou a ter sua função original e praticamente não se vê mais por aí quem endoideça – ou morra – por causa dele. E pensar que naqueles tempos também se morria de tanta coisa sem sentido: bala perdida, fome, gripe, raiva.

Minha neta quis saber se eu já usei chapinha. Sem graça, como quem confessa já ter usado algum tipo de droga, revelei que sim. Mas só uma vez, quando conheci seu avô – tratei de explicar.

[Nota: não tenho neta, viu? Digamos que eu tenha inventado essa história mais ou menos em 2045.]