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Crônica de minuto # 18

Na água fervente, o espaguete vai cozinhando. Na hora de experimentar-lhe o ponto, já quase al dente, nada de pinçar um fio só. Apanho logo uma boa meada, encho o garfo. Não economizo na degustação, meu jantar começa ali. Renego a antiga lição de que se deve provar apenas um tiquinho das coisas que cozinham. Farto-me de uma vez, direto da panela.

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Auto-decreto

Ilustração: Helen Aoki/Flickr.com

Vivo criando decretos para mim mesma. Sou a maior criadora de auto-decretos da paróquia. Todos os dias descubro um, de minha própria lavra, regendo minha vida com o poder de uma lei. Como se gravado em pedra estivesse.

Decretei, por exemplo, que não posso ter um emprego em período integral, caso contrário meus filhos, ainda pequenos, serão infelizes, ficarão traumatizados ou precisarão de terapia mais tarde. Decretei também que eles estudarão em escola particular pelo menos até os dezoito anos, sem sequer me dar ao trabalho de conhecer as públicas (e boas) da minha cidade.

De tanto topar com a frase, pronta e fácil, decretei que não se vive de escrever. No máximo, que isso é muito, mas muito difícil. Afinal, não passa de hobby. E, como tal, deve ser condenado às horas vagas que, por sinal, andam cada vez menos vagas. Aproveitei o embalo e decretei que nunca tive, não tenho e jamais terei talento para ganhar dinheiro.

Decretei que só se pode ser feliz vivendo numa cidade grande, com cafés abertos vinte e quatro horas e que eu frequento apenas em horário comercial.

Daí por diante. A essência de um auto-decreto têm raiz, um local de nascimento. Ou a gente viu alguém fazendo, ou ouviu alguém dizendo. E foram tantas vezes, por tanto tempo, que essa essência se cristalizou. Virou, naturalmente, um paradigma.

Mais ou menos como a fábula do peixe. A menina perguntou para a mãe por que ela sempre corta a cabeça do peixe antes de colocá-lo na frigideira. A mãe não sabia o motivo, disse que foi assim que aprendeu com a mãe, avó da garota, então é assim que ela faz. A menina não se deu por satisfeita, pegou a mãe pelo braço e lá foram as duas, questionar a avó. Que também não tinha a resposta, mas repetiu a ladainha: aprendeu com a mãe, bisavó da menina. Elas procuraram a bisavó e… surpresa: a bisavó não tinha ideia. Só sabia que esse era o jeito que a mãe, trisavó da menina, fazia. As quatro foram atrás da anciã. Que respondeu, com a maior naturalidade: naquele tempo, a única frigideira que ela tinha era muito pequena. O peixe não cabia inteiro nela. Bisavó, avó e mãe se entreolharam: a frigideira delas era grande. Os peixes foram, por gerações, decapitados à toa.

Não estou só, porém, no vício do auto-decreto e na armadilha do paradigma. Há os que, a exemplo da escrita, decretaram que trabalhar em artes plásticas, moda, teatro e artesanato não paga as contas de ninguém. Aqueles que decretaram que profissão, a palavrinha em destaque no diploma da faculdade, é tatuagem e, portanto, não sai mais. Por falar em tatuagem, existem os que decretaram que ela não é coisa que se deixe à mostra no ambiente de trabalho. Dress code é um decreto coletivo ao qual todo mundo diz amém, individualmente. Continuando, tem os que decretaram que aposentadoria significa não trabalhar mais. Pior: que aposentado é profissão, e preenche assim no cadastro do crediário, na ficha do clube.

Há auto-decretos de todos os tipos, para todos os gostos, para dar e vender: mulher depois dos quarenta não pode ter franja. Nem usar minissaia, mesmo estando tudo em ordem. Mulher tem que ter cabelo comprido para ser feminina. Ou então: o único corte de cabelo que lhe fica bem é esse, há dezessete anos em cartaz nas suas fotos. Roupa social precisa de meia-calça, principalmente as que se fingem de pele. O destino quer que você more de aluguel a vida inteira. Você não tem sorte nos relacionamentos. Ser feliz não é para o seu bico.

São os peixes, sem cabeça nem pé, que a gente vai fritando pela vida. Bom mesmo é descobrir que a maioria absoluta dos auto-decretos, principalmente os que não servem para nada, é revogável.

Não sei o que estamos esperando.

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PS: não corto mais as pontas do pepino, nem as esfrego nele para tirar o suposto amargor. E olha que eu não tenho trisavó.

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Para Januária, que tem se dedicado às revogações.

Segredo

Ilustração: Xavier/Flickr.com

A cor do casaco não caiu bem em mim. “Cor não cai”, lembrou o autor do presente. “Cor levanta”, filosofou. Ri. Mesmo assim, fui à loja trocá-lo. A vendedora grudou em mim. E não se tratava da síndrome de adesivo que a categoria tem. Ela realmente estava preocupada. Tensa. Escolhida a nova cor do casaco, ela se apressou em tirá-lo das minhas mãos. Fez uma semipirueta com ele e correu para o balcão. O motivo da preocupação: ela não queria que eu visse o preço da peça. Afinal, era um presente. Extirpada a etiqueta, a moça sorriu, aliviada.

Parece que tudo que se relaciona ao dinheiro tem sempre que estar envolvido em mistério, segredo, num tipo de confidencialidade, às vezes, sem muito sentido. Justo o dinheiro, troço dos mais antigos, conhecidos, comuns, populares.

A vizinha veio com esta, dia desses: “Desculpe-me perguntar, mas quanto você paga para a sua empregada?”. Outra, em época de matrícula escolar: “Sem querer ser inconveniente, quanto é a mensalidade do colégio dos seus filhos?”. Respondi com a naturalidade de quem informa o próprio signo, sem compreender o pedido de desculpas, nem a suposta inconveniência.

Fato: ninguém gosta que os outros saibam quanto se paga, nem quanto se ganha. Holerites vêm lacrados e só o pessoal de Recursos Humanos é onisciente. Bobagem. Como se nosso modo de vida, tão fundamentado e traduzido por coisas visíveis, não desse conta de fornecer, a quem interessar possa, uma ideia bastante aproximada sobre os nossos proventos. Mas ninguém pode saber. É segredo. A partir do qual parece – embora não devesse – nascer todo o resto.

Nós e o dinheiro, essa relação tão delicada. Ninguém sabe ao certo, além do óbvio, a quê realmente ele se destina, como ele vem parar em nossas mãos e o que faz o danado nos escapar. Que é tudo coisa do nosso inconsciente, já sabemos (ou nem tanto). Depende do que a gente viu, ouviu, aprendeu e fez na vida, desde pequenininho. São os famosos “padrões mentais”, impressos na gente que nem tatuagem. Uma tatuagem cor de pele, porém. Não dá para ver, mas ela está lá. Dinheiro é uma entidade. Masculina, forte, poderosa. Representa, ao mesmo tempo, bem e mal. Problema e solução. Amor e ódio. Segurança e insegurança. Felicidade e infelicidade. Tranquilidade e martírio. Vida e morte. Não tem nada mais doido que isso.

O que teria de mais em saber quanto o casaco havia custado? O quanto isso realmente importaria? Fosse uma bagatela ou uma fortuna, o que a informação, de fato, diria a respeito de presente e presenteador? Presente é, em essência e tese, amor. Se é caro, não significa amor maior. E vice-versa. Já vi gente ficar roxa de vergonha ao entregar um mimo e, por descuido, a bendita etiqueta com preço ter ficado nele. Cresci ouvindo que isso era feio. Acostumei-me. Acatei. Não questionei. Passei para frente, perpetuando o paradigma.

Será bom, no entanto, a gente começar a revisar o que sempre funcionou no automático. A nova ordem de pensamento em curso no planeta vai nos levar a um lugar diferente. É para lá que eu quero ir. E de casaco novo.