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Te ligou

Arte: Misch Valente

Deu no jornal: Papa Francisco gosta de telefonar para os fiéis que lhe escrevem cartinhas. Só para alguns, é claro. Ele tem muita coisa para fazer na sua rotina papal, muita missa a rezar. Diz que ele faz isso de gosto, espontaneamente. Seus assessores ficam malucos com a mania. E seus fãs, em estado de graça. Sorte de quem atende a ligação. Ou não.

– Alô?

– Bom dia! Aqui é o Papa Francisco. O Miguel está?

– É ele.

– Como vai, Miguel? Recebi sua carta. As coisas não estão bem, não é? Estou ligando para confortar seu coração.

– Mas quem está falando?

– Francisco. Papa Francisco. Você me escreveu…

– Isso é pegadinha?

Miguel olha por entre a cortina da janela que dá para a rua. Olha para os lados e para o teto, procurando alguma câmera indiscreta e desconfiando daquele sobrinho levado da breca.

Lá vai o Francisco mencionar o teor da carta, para convencer o Miguel. Que por pouco não desliga, achando que é trote. Ficaria sabendo depois, pelos jornais: “Fiel bate telefone na cara do papa”.

Eu nem sabia que os fiéis escreviam para o papa. Parece coisa de criança que manda cartinha para o Papai Noel. Eu cheguei a escrever algumas. Fazia minha listas de pedidos, argumentando o porquê de eu merecê-los. Geralmente, ganhava apenas o item que encabeçava a lista. Não é clara a lembrança sobre a minha crença no Papai Noel (se era do tipo total, parcial ou conveniente), muito menos a data, ou motivo, que inaugurou a minha descrença. Nunca recebi ligação alguma do bom velhinho. Deve ser porque a gente não tinha telefone.

Papa Francisco poderia enviar e-mails. Usar o Messenger, o WhatsApp. Ficaria doidinho, teclando em seu papa-phone enquanto almoça, vai ao banheiro. Até nisso ele seria gente como a gente.

Jamais me ocorreu escrever ao papa, embora nunca tenha duvidado de sua existência. O que eu lhe diria? Qualquer lamúria careceria de explicações, de detalhes para que eu me fizesse entendida. Papas são representantes de Deus, mas não contam com a onisciência. Poderia, simplesmente, escrever para lhe contar que está tudo bem por aqui, que estou pensando em ter aulas de piano, que os gatos estão ótimos mas que a Bia, a branquinha, morreu no mês retrasado. E, um dia, caso eu recebesse sua santa ligação, e ele perguntasse se tenho ido à igreja, diria que não. Meu coração é meu altar.

Miguel vai enrolando o papa, ainda à procura da câmera escondida, encafifado. “Quem será que pegou a minha carta?”. Cobre o telefone com a palma da mão e faz sinal para o filho ir correndo chamar a mãe no quintal. A mãe vem, enxugando as mãos no avental, estava estendendo roupas.

Papa Francisco, lá do Vaticano, coça a cabeça. Ele, melhor que ninguém, sabe: ajoelhou, tem que rezar.

[Nota: daqui, ó.]

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Os amigos do papa

David Yerga, acrílico s/tela, Flickr.com

Hoje vi uma fotografia do Bento XVI. Não tenho intimidade com o papa. Mas olhei seus cabelos brancos tão penteados e notei seu olhar, estranhamente não-angelical. Matutei, enquanto apanhava uma maçã na fruteira da cozinha. Maçã gorda, suculenta.

Como é a vida do papa, além da eterna rezação? Será que ele gostaria de sair do Vaticano sozinho, ir a uma padaria e tomar um café, sem ter que abençoar meio mundo pelo caminho? O papa torce para algum time? E se o time dele vai para a final, no grande dia ele põe a camiseta por baixo da túnica, troca a mitra pelo boné e grita gol? Será que o papa xinga quando bate o dedinho do pé na quina da parede? Porque isso acontece com todo mundo, não vá dizer que com pontífices é diferente.

Será que o papa morre de vontade de sentar em frente ao mar, só de calção? Papas parecem ser feitos apenas de cabeça e mãos – as mãos que acenam para todos e para ninguém –, com longas e amplas vestes a encobrir o nada que as une. Como serão seus pés?

O que tenta o papa no pecado da gula? Um bom espaguete, eu arriscaria. Daqueles com bastante molho, com direito a passar o pãozinho no que sobrou depois. Iguais aos que minha mãe fazia. Papas lambem os dedos?

Saberá o papa todos os segredos que a igreja católica guarda a sete chaves? Os mistérios de Fátima, as verdades sobre outros planetas, as revelações sobre o final dos tempos. Se sabe, será que se assombra?

E amigos, o papa tem? Desses que a gente telefona quando a tristeza vem. Dos de conversar por horas e, em pouco tempo, já se sentir melhor. Quem é que dá colo ao papa, se ele precisar? E ele deve, vez por outra, como qualquer um. Para quem o papa liga quando quer prosear? Quem ele chama para um chá, não por protocolo, mas por saudade?

Para quem o papa dá seu primeiro bom dia, todo dia? Para o amigo mudo na cruz, que não pode lhe dar um abraço?

Será que o papa já teve um grande amor? Terá sonhado com casa avarandada, filhos, cachorro, férias de verão nas montanhas?

Será que o papa deseja, de vez em quando, ser apenas um anônimo na multidão, para ir ao cinema sossegado?

Quais músicas será que o papa gosta, além da Ave-Maria? Será que ouve, secretamente, Rolling Stones? Terá ouvido Tom Jobim? Que, cá entre nós, tem o efeito de uma oração.

Última mordida na maçã. Seu bagaço, amarelado, é a prova da missão cumprida do fruto. Sou apanhada pela dúvida entre pensar se a figura mítica do nosso imaginário é aquela que enxergo na fotografia, ou se é tão-somente um personagem construído, assim como o Homem-Aranha, a Branca de Neve. E estes, noves fora as fábulas que os envolvem, ao que tudo indica, tiveram seus amigos.