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As árvores da praia

Foto: Elan Popp

uma: Diga.

outra: Você já viu Deus?

uma: Hoje não.

outra: É sério. Você já viu Deus?

uma: Também é sério. Hoje não.

outra: E quando foi que o viu?

uma: Semana passada. Lembra da tartaruga-marinha que encalhou aqui?

outra: Lembro. Ela se debateu, debateu… Até que uma onda enorme virou a pobrezinha e ela voltou para o mar.

uma: Então.

As árvores da praia, irmãs universais, vivem de prosear sobre coisas e não-coisas. É nelas que o mar, dono líquido das verdades sólidas (ou vice-versa), escreve seu diário. Para saber do antes, do agora, quiçá do depois, basta lê-las.

***

uma: De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar?

outra: Roberto Carlos?

uma: Aham.

outra: Por que precisa haver serventia nas coisas? As finalidades estragam tudo.

uma: Deve ser para dar sentido às coisas.

outra: Bobagem. Não faz o menor sentido.

Uma é esfomeada, a outra é saciada. Idênticas na espécie, semelhantes na forma e díspares na ideologia, habitam solitariamente o mesmo lar. Como filhos, nunca são iguais – quaisquer que sejam os pais. As sementes sempre surpreendem.

***

outra: O barco veio e já foi. Venderam todos os peixes. Uns tão graúdos, o caiçara vibrava. Eu que não queria ser barco. Não gosto de peixe.

uma: Eu também não gosto de peixe. Mas queria saber nadar feito barco.

outra: O caiçara deve gostar de peixe e deve saber nadar.

uma: Então eu gosto do caiçara.

***

Qualquer que seja a estação, lá estão elas. Casadas à sua moda, co-dependentes em afetiva simbiose. Compartilham o solo, o nascer e o por do dia, dia após dia. As árvores da praia estão nas fotos dos turistas de veraneio, no caminho do cão sem dono, na batida do samba desafinado. E, quando não tem ninguém olhando, uma delas imita as crianças que comem salgadinhos e tomam refrigerante sob sua copa.

outra: O que vai fazer, enlouqueceu?

uma: A última a chegar na água é mulher do sapo!

E, com raiz e tudo, dispara para o mar.