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Sobre cafés, grafites e cachorros

Ela vai sempre à mesma cafeteria. Faz o pedido e o atendente pergunta seu nome, para anotá-lo no copo onde o café será preparado. Deve ser para facilitar as coisas na linha de produção. Ou só para fazer charme. No começo, ela respondia direitinho: Fu-la-na. Depois, passou a achar careta dizer sempre a mesma coisa, numa eterna confirmação de sua certidão de nascimento. Deu de inventar nomes para si, justificando a máxima “várias mulheres em mim”. Desde então, tem dia que ela é Dagmar. Noutro, Jéssica. Suellen. A lista é longa. Quando o café fica pronto, anunciam do balcão e lá vai ela, feliz com a própria peraltice.

Brincar de outra é sua romântica subversão. Uma doce intervenção urbana a desafiar o, por vezes, amargo ritmo da cidade. Solitariamente (o atendente, creio, não percebe a jogada), ela adultera, em pequenos goles, o RG e a ordem do dia. Quebra o padrão e dá vida ao que era para ser um simples cafezinho. Seu copo é o grafite irreverente estampado no muro. Arte modernista pelando de quente. Com contracultura e um pouco de cafeína se mantém acordada uma metrópole.

(Como ela, já brinquei disso, também. Ligava para minha irmã no seu trabalho e a secretária, também cumprindo um script parecido com o do moço da cafeteria, apesar de conhecer minha voz, queria saber “quem gostaria de falar”. Um dia, cansei de responder “É a Silmara”. E minha irmã passou a receber telefonemas da Madonna, da Madre Tereza de Calcutá, da Mulher-Maravilha. A secretária dava uma risadinha, “Só um minuto”, e transferia a ligação. À noite, em casa, minha irmã provocava: “Sabe com quem falei hoje?”. Dizia ela que, às vezes, a secretária não sacava. “Dona Silvana, a Madame Min já ligou duas vezes. Posso retornar?”.)

Esta semana, na sua cafeteria de estimação, ela tornou a brincar. O nome, desta vez, fora especialmente escolhido. Na hora H, lascou: Belinha. Não foi um nome pinçado arbitrariamente de seu imaginário, como talvez seja Dagmar ou Jéssica. Belinha é o nome da cachorra que sua irmã recolheu da rua, semana passada. Sarnenta e decrépita, ela teve a sorte de surgir, em hora providencial, na frente de gente que se importa. Abrigada, medicada e alimentada, logo estará curada e pronta para ganhar um lar. Duvido que Deus não mexerá os pauzinhos depois dessa, para que Belinha arrume um dono. Deus gosta de cachorro. E de café.

Enquanto a boa-nova canina não vem, ela segue divertindo a vida, rebatizando-se conforme o humor do dia. Com açúcar, com afeto.

Nota: quem quiser se apaixonar pela história da Belinha, é só visitar sua página no Facebook. Deus, lá do jeito dele, já curtiu e compartilhou.

Nota 2: não deu outra. Belinha foi adotada. Seu lar temporário virou definitivo. Seus tutores agora são a sua família. Eu não disse? Deus gosta de um espresso bem tirado. (atualizado em 26/03/13)

Nota 3: e a família inteira foi morar em outro país. Para seus donos, não faria sentido mudar e não levar a Belinha e o Johnny, seu irmão canino. Então, lá foram os peludos, cruzar o Atlântico. Se vão querer voltar, só Deus sabe.(atualizado em 27/03/2016)

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Falou e disse

Arte: GM Nikolaidis

Levei um bocado de tempo para descobrir que a tia Tervina, aquela senhora doce, rechonchuda, que morava em Casa Branca e tinha um quadro de Jesus Cristo na sala, se chamava, na verdade, Etelvina. Talvez não haja registro de que ela tenha sido chamada, algum dia, pelo seu nome original.

O mesmo se deu com minha prima Duvirge. Passamos a vida, eu e a família toda, chamando-a assim. Já moça, descobri, não sem algum espanto, que seu nome de batismo era Edwiges, em homenagem à santa protetora dos pobres e endividados. E foi bobagem eu tentar corrigir a pronúncia, depois. Ninguém sabia de quem eu estava falando. Nem ela.

Para algumas famílias – caso da minha – , a tradição oral é muitíssimo mais forte que a escrita. Mais que meros apelidos, ela inventa novos nomes, perpetuados pelas gerações. Pudera, quase nenhum dos meus antepassados sabia ler ou escrever. Imigrantes, a maioria foi para a roça cuidar do café e tinha mais o que fazer em vez de se dedicar ao beabá. Juntou-se à condição de analfabetos (ou quase isso) um sotaque interiorano, e deu no que deu. Valia o que era dito. E não se falava mais nisso.

As duas – tia e prima – pareciam não se importar em ter seus nomes corrompidos. Nunca as vi corrigindo seus interlocutores. Quando eu era bem pequena, havia no programa do Sílvio Santos uma jurada (as pessoas que decidiam se o calouro era bom ou não) bem popular, chamada Gilmara Sanches. Era eu dizer meu nome e as pessoas o confundiam com o dela. Eu olhava feio, sempre.

Um dos causos dessa oralidade particular, porém, não teve relação com os nomes da parentada, e sim de um logradouro. Eu e minha irmã, bem novinhas (ou nem tanto), queríamos enviar uma carta para outra prima que morava longe. Era um tempo inimaginável, sem e-mail, celular ou rede social. Só para dar um alô, saber notícias de todos. Pedimos ajuda ao vô Paschoal, o único que sabia o endereço. Ele ditou, com seu sotaque ítalo-caipira, e nós escrevemos direitinho no envelope.

A avenida Melvin Jones, que fica na cidade paulista de Mogi-Guaçu, era, no seu entendimento, “Mervin Júnior”, em “Mogin-Guaçu”. E foi com essa grafia que a carta seguiu caminho. O fundador do Lions ou revirou-se no túmulo, ou sacudiu o esqueleto de tanto rir. E, por milagre, sorte ou dedicação do carteiro, a missiva chegou ao seu destino. Ao que a prima logo escreveu de volta, dizendo que estavam todos bem.

A tia Tervina e o vô Paschoal, que eram irmãos, já se foram. Não vi mais a Duvirge, nem a prima de Mogi. E a Gilmara Sanches caiu no esquecimento. Melhor assim; ninguém mais erra meu nome.