Arquivo da tag: morte

E eu não morri

Arte: Steve Bridger

Eu viajaria no dia seguinte, pela manhã, e retornaria à noite. Na véspera, me vi redigindo longo e detalhado email ao marido, com um inventário de informações e eventuais providências sobre a rotina da casa, das crianças, do meu trabalho em andamento. Por quê? Para o caso do avião cair e eu morrer, oras.

Tive medo de partir desta para melhor e não quis lhe dar trabalho para descobrir o modus operandi de algumas coisas que somente eu cuido ou sei. Não que ele seja alheio a elas, mas as minúcias, como a senha do meu computador, não é exatamente assunto que se lembre de conversar no jantar. Precaução extra de minha parte? Maluquice? Talvez apenas um devaneio de insubstitubilidade. Como se a Terra fosse interromper sua rotação, caso eu esticasse as canelas. Ou, como bem pontuou a amiga psicanalista assim que soube da missiva candidata a póstuma: meu caso é grave.

Se eu batesse as botas durante o voo, como é que o marido daria conta de saber, com relativa facilidade, quando as crianças têm consulta no pediatra? Que remédios meu pai toma? Onde está o bilhete da Mega Sena do concurso de amanhã? (Vai que.) Como ele daria a notícia aos leitores deste blog e aos meus amigos do Facebook, se não soubesse logins e senhas?

Contatos, pendências, compromissos marcados, as ONG’s de proteção animal que eu ajudo, a reiteração de que sou doadora de órgãos. Tudo se perderia entre as missas de sétimo dia e de um ano. Eu bem que tentaria falar com ele, mas não é certeza de que o wi-fi do lado de lá seja bom.

Nem em meus mais esquisitos sonhos pensei numa ação preventiva como essa. É algo que não passa pela cabeça. Como se morrer fosse uma possibilidade remota. Como se isso só acometesse quem viaja de avião. Ah, o nosso ingênuo imaginário. A morte pode estar em um tropeção na sala, num atropelamento besta, num  assalto, num infarto sem aviso prévio. Nunca cogitamos a impermanência no cotidiano.

Fui caprichando no email. Quando cheguei ao item 9, ri. Nisso que dá ter trabalhado em planejamento. Imaginei o marido lendo o email no outro dia, e eu em casa, vivinha da silva, dando comida aos gatos, levando as crianças para a escola. Como de costume.

Mesmo rindo e duvidando da sua utilidade, enviei o email. Ele não respondeu. Deve estar aguardando o melhor momento para fazer piada.

É bom estar viva.

Anúncios

Casal

Apanho o xampu, cabelos curtos precisam d’um pouco só. A primeira ensaboada é “pra tirar o grosso” – quem falava assim? Modo de dizer, em cabelo lavado todo santo dia sujeira nenhuma tasca. Repito a operação para melhores resultados. O rótulo que diz.

Volto o frasco ao seu lugar de costume, no canto, mais à mão. Reparo que o do condicionador, ao lado, com capacidade para os mesmos duzentos e cinquenta mililitros, está quase cheio. O do xampu, quase vazio. Não, não é papo sobre otimismo e pessimismo. É papo de amor, bicho.

Xampu e condicionador são, essencialmente, um casal. Apesar de vendidos separadamente, formam uma unidade, têm ingredientes ativos semelhantes. São complementares. Foram feitos – assim espera o fabricante – para habitar o mesmo lar, box, banheira, pia, frasqueira.

Eu gosto de comprar o casal. Eles não brigam, deixam o mesmo perfume nos meus cabelos. E eu sigo acreditando nos melhores resultados. Por conta da crença, eles nunca findam juntos. O xampu morre antes. O condicionador sempre fica viúvo.

***

Minha mãe se foi antes do meu pai. E ela não estava nem pela metade. Será que eu a usei demais, mais que a meu pai? Soubesse, eu a teria a usado menos, para que durasse mais. Meu pai continua lá. Quase vazio, mas lá.

Pai e mãe, apesar de nascidos e crescidos separadamente, aos olhos dos filhos, formam uma unidade, têm ingredientes ativos semelhantes. São complementares. Foram feitos – assim esperam os filhos – para habitar o mesmo lar, para sempre. O que quase nunca acontece, por separação ou morte. Separação é quando o amor não faz mais espuma. Viuvez é quando, de uma hora pra outra, o banho acaba.

Meu pai nunca quis se casar de novo. Permanecer viúvo, mais que de amor, é um ato de coragem. A saudade, às vezes, arde nos olhos.

***

Coloquei um xampu novo ao lado do velho condicionador; salvei-lhe da solidão. Porém, tal uma filha mimada, estranhei o casal logo de cara. Não são nada parecidos – apesar dos benditos ingredientes ativos semelhantes. Vamos ver como é que os dois, juntos, se saem. Porque não tem nada pior que rebeldia. Nem de filho, nem de cabelo.

Error

Arte: Id-Iom
Arte: Id-Iom

A mãe de um amigo do marido morreu. “Quantos anos?”, perguntei. A gente quer sempre saber a idade de quem morreu, assim como o peso de quem nasceu. Para, em seguida, inquirir de quê que foi e com quantos centímetros, respectivamente. São as perguntas-padrão, ponteando a curiosidade matemática nos extremos da vida.

“Era bem velhinha”, ele respondeu. Soltei um “Ah” vestido de ligeira tristeza, porém conformado. E segui com meus afazeres, sem choque, sem pena, sem filosofias. Tudo bem morrer velhinho, então.

Há algum tempo, a filha do amigo de uma amiga morreu. Perguntas feitas, respostas dadas, fiz coro na unânime inconformação: uma criança! Ninguém acreditou.

A velhice autoriza a morte. A juventude, não. O velho que morre está em conformidade com a vida. O jovem que o faz comete infração grave contra a (inventada) legislação da natureza. E quanto mais novo, parece, maior o agravante.

É como se disséssemos ao velho: “Já viveu o bastante; pode ir”. E, da mesma forma, ao jovem: “Ainda não viveu o que tinha para viver; tem de ficar!”.

Por um instante, incomodei-me com a possibilidade de ninguém ligar quando eu morrer, quem sabe, com oitenta e quatro anos. Não que eu vá querer choro e vela (nem fita amarela), mas não gostaria que considerassem justa a minha morte apenas por conta da idade que terei no derradeiro dia. E se eu ainda não tiver vivido tudo a que tenho direito? Se ainda tiver planos? Se ainda estiver aprendendo a tocar piano? Quem decide os fins, afinal de contas?

Culpa do planejamento. Assim como se programam tarefas ao longo dos dias da semana, viver está distribuído em anos. Nascer, engatinhar, andar, brincar, estudar, trabalhar, comprar uma casa na cidade, casar, ter filhos, continuar trabalhando, fazer um cruzeiro, ter netos, se aposentar, comprar uma casa na praia, ter bisnetos, morrer. Tirante as pontas, poucas variações dessa ordem são aceitas. Se se morre fora do script, é como se a brincadeira não houvesse valido. Falha na programação. Error.

Não quero mais saber a idade dos mortos. Nem o peso, tampouco altura, dos recém-nascidos. Vou querer saber, sobre eles, outras coisas, mais relevantes para uma lembrança ou votos de vida.

O que explica o mundo, desconfio, não são as respostas. São as perguntas.

Crônica de viagem #3 ou O cortejo

Arte: Craig Walkowicz

Deve ser, ao menos, romântico morrer nos alpes franceses. Passar desta para melhor só há de valer a pena se na outra vida existir uma cadeia de montanhas tão estonteante quanto a que sou condenada a ver por dez dias seguidos; meus olhos quase recusam o piscar.

Elas são três e é preciso decorar seus nomes, dizem que faz parte da iniciação local: Chartreuse, Vercors, Belledonne. Quem vive em Grenoble, cidade abraçada por elas, compulsoriamente vê, ao final de cada rua ou canto, uma delas. É como morar na folhinha. Aquelas, penduradas na porta da cozinha ou no paneleiro de antigamente, a marcar os dias e os meses com paisagens tão paradisíacas quanto impossíveis. Tínhamos em casa. Era brinde da quitanda, do mercadinho, da loja de material de construção. Eu, criança, era desesperançosamente fascinada pelas paisagens. Não as supunha reais; era tudo ficção. As fotografias nem legendas tinham; pertenciam a alguma longínqua terra de faz-de-conta. Há alguns anos, minha irmã , cunhado e sobrinhos atravessaram alguma porta ou paneleiro perdido e foram parar no mundo da folhinha. Agora eles têm um pays des merveilles só deles. Ao visitá-los, mergulho também num calendário onde o passo do tempo é mais breve que o da infância. Não se usa mais pendurar folhinha. O mimo do mercadinho é uma empobrecida versão magnetizada da folhinha, de tamanho e encanto reduzidos, onde ninguém quer morar.

Do outro lado da rua, vejo um cortejo. É a morte pedindo passagem. A cidade, nessa época, é fria como as mãos do morto, falsamente entrelaçadas sobre o peito mudo. Lilás-sujo como sua retorcida boca que, em vida, talvez não tivesse palavras para puxar uma procissão assim. A cidade está vestida de inverno para acompanhá-lo no derradeiro passeio. O que separa vida e morte é apenas um punhado de neve – derretível neve. E, no caminho entre uma coisa e outra, as montanhas, danadas de bonitas.

Quem seria ele, ela? Não importa, é belo morrer no inverno. A não-vida orna com o coração gelado de quem arde em tristeza e saudade.

Tento contar os carros que vão atrás. A morte também tem seus seguidores. É a grande e pesada rede social da ausência, se expressando em cento e quarenta carros, lutuosos e sombrios.

Ninguém desconfia: é no inverno que a vida, secreta e organizadamente, pulsa e se prepara.

Há flores, muitas e coloridas flores a fecundar o féretro.

Ninguém desconfia: é primavera.

Voar é com os pássaros. Ou não

Arte: Mariana Fossatti

O mais perto que estive de um suicida foi, de fato, longe. Próximo o bastante, porém, para que a quase-imagem do fato consumado se eternizasse nas minhas memórias. Cristalizadas com os anos – o episódio tem quase duas décadas  –, nem sei mais se vi o que vi, se sonhei que vi, se aumentei ou diminuí algum ponto no conto.

Era meu horário de almoço, eu trabalhava no centro de São Paulo. Saí e, na ida, um cenário na avenida. Na volta, outro. “Há um segundo, tudo estava em paz”, não tem aquela canção? Ou não havia paz desde muito. Nunca, nunca mesmo, se sabe.

O homem saltara da janela do prédio e se espatifara no parabrisa do carro que passava na avenida naquele exato instante. Pronto: contei a história inteira em duas linhas. É relativamente simples narrar a vida e o fim dela.

Mas sempre é possível – e necessário – enfeitar os acontecimentos.

Enquanto, no trajeto da ida, eu matutava no que almoçaria aquele dia, cogitando entre meia dúzia de lugares que prestavam na região, o suicida preparava seu último ato. Talvez, enquanto eu passava pela calçada, sob sua derradeira janela, ele estivesse revendo seus dramas, infortúnios, tristezas e desesperos sem fim, como dizem fazer os suicidas antes de dar cabo de suas vidas. Eu ainda teria que decidir o que jantaria naquela noite. Ele, não.

Digestão em andamento, eu rumava de volta ao trabalho pela mesma avenida da ida, quando avistei o tumulto. O trânsito de carros e pessoas parou. O motorista do veículo atingido nada sofreu – exceto a inenarrável surpresa. Alguns arranhões, os estilhaços do vidro. Como explicaria aos amigos o atropelamento ao contrário? Policiais presentes, fazendo anotações em seus caderninhos. Calculavam a altura, tratavam de identificar a janela original. Motoristas e pedestres no entorno, estupefatos. O suicida pausara a tarde naquele quarteirão. Quem apertaria o play novamente? Só lembrando: a vida não tem replay.

O voo do homem-pássaro não contou com trilha sonora de anjos vocalizando uma tristonha melodia celestial, nem com a câmera lenta, igual nos filmes. (Eu sei porque o cinema gosta tanto da câmera lenta: nossos olhos pensam devagar.) Foi zás-trás, pá-pum. Sem tiro, somente queda. A plateia, desprevenida, não pôde assisti-lo em detalhes. Quem viu, viu.

O Ícaro urbano quis testar, naquele dia, suas invisíveis e frágeis asas de cera. Fugir da Creta paulistana era preciso. E, embora a tarde se anunciasse rara de sol, elas se derreteram. O tombo não só era inevitável, como desejado. A gente que nunca entende isso.

O termo “queda livre” ganhou novo sentido na pele do suicida; era o caminho para a liberdade. Engano ou certeza?

Poucas pessoas despertam tantas reações e sentimentos quanto o suicida. Da incompreensão à compaixão, do desprezo à indiferença. Todos têm uma opinião, poucos ficam reticentes. É assunto polêmico. Popular e, ao mesmo tempo, secreto. Está presente nos versos, nas canções, nos noticiários, nas famílias dos outros. Só dos outros.

Suicídio é a vida como ela é, e como ela deixa de ser. Suicida é a pessoa que, no meio da brincadeira, pede para sair. Porém, o suicida não o faz porque precisa beber água, fazer xixi, a mãe chamou. Ele sai porque cansou. Porque a brincadeira estava sem graça. Ou insuportável. O suicida quer sair da brincadeira e ir para casa. E a casa dele, ele crê, não é aqui.

Da costura e do corte (ou Crônica de minuto #2, revista e ampliada)

Arte: In Pastel

Juntou que fiz aniversário e, no mesmo dia, comecei um curso de corte e costura. Era parte dos desejos antigos e explicáveis: minha mãe costurava. Cresci em meio às linhas, agulhas, tesouras, fitas métricas.

Quando eu era pequena, sempre ganhava cortes de tecido de presente, geralmente das tias. Que viravam, pelas mãos da minha mãe, vestidos e blusas.

Inventei de perpetuar a tradição e, aos dezesseis, confeccionei para mim um macacão de popeline lilás, sob suas pacientes instruções. Foi a única peça que costuramos juntas – insuficiente para que eu absorvesse seu saber, o bastante para despertar a fome de pano.

Já sem ela, na faculdade, arriscava e abastecia meu guarda-roupa através do maquinário herdado. O corte e a costura tomaram ares de adivinhação, tentativa, erro, sorte. Funcionava. Faltava-me, porém, a técnica materna.

Ninguém mais me dá cortes de tecido. Acho que é porque nem tenho mais tantas tias. Ou então, porque minha mãe não pode mais fazer minhas roupas. As coisas todas têm suas razões.

Vasculhei os armários em busca de retalhos para a primeira aula. Encontrei uma panaiada tão antiga quanto o desejo de costurar direito. Cortes e retalhos do passado, gentilmente poupados pelas traças.

Foram todos comigo para a aula. Dentre eles, um, velhíssimo, intacto em sua abstrata estampa de cores, ainda tão cheias de vida. Presente de quem, afinal? Para mim ou para minha irmã, que também costumava ganhar os seus? Como surgira no acervo têxtil da família, e como resistira a tantas mudanças de endereço? Eu bem que já tentara, várias vezes, fazer algo dele. Sua personalidade, no entanto, sempre trouxera dúvidas sobre o que poderia vir a ser – blusa? Saia? Écharpe? Talvez nem ele soubesse direito o que queria ser. Cogitei, há algum tempo, usá-lo para outro fim – pensando na hipótese dele, de fato, não ter nascido para vestir ninguém. Era tecido arrogante, eu duvidava que fosse se dar bem com outros panos num mesmo traje. Como um animal de estimação ciumento, que não autoriza seu dono a ter mais ninguém. Deu nisso: ele sempre retornou ao fundo do armário, que é para onde vão as coisas da categoria “depois-se-vê”.

Professora bateu os olhos nele e vi ali certa surpresa. “É seda javanesa, não se faz mais dessas!”. Explicado estava, ele não era um tecido qualquer e sabia disso. E não era ele, era “ela”. Naquela hora, no turbilhão sereno das lembranças, vi as tias falando “javanesa”. Jamais havia associado: javanesa é gentílico de Java. Java fica na Indonésia. A gente vive falando coisas sem prestar atenção às origens, aos significados. Por que a camiseta é regata? E a gola, olímpica? A calça, capri? Só sei que a ancestral seda, num processo tardio, em breve sairá de seu casulo reverso. (Antes mesmo de eu tentar ler “O homem que sabia javanês”, aquele, do Lima Barreto.)

Corte é rompimento, morte. Costura, união. Corte e costura, de tão antagônicos, são complementares. Um não vive sem o outro, eles se precisam para que o feitio da vida se dê.

Por isso vou estudá-los. Para, além de ser autora da minha própria moda, aprender a viver com os dois. E também para mostrar que não perdi o fio da trama, tampouco abri mão dos sonhos já alinhavados. Será meu presente de Dia das Mães a longo prazo. Entregue à Dona Angelina com beijo e abraço apertado, embrulhado em papel-saudade.

Crônica de minuto para ficar triste num instante

Arte: João Grando

A mãe do João Hélio disse que, naquele dia, gostaria de ter tido superpoderes para salvá-lo.

O pai do Mitchill disse que gostaria de voltar no tempo para mudar o desfecho da história, ou avançar nele, até um dia em que tudo houvesse, enfim, passado.

Outras mães e outros pais, vivedores da experiência de sepultar um filho, também já desejaram ter superpoderes, mas não disseram nada. Superquerer não é superpoder.

Super-heróis, pense nisso, são inspirados em pai e mãe. A coisa da proteção, do cuidado. Uma vez que a estes foi concedido o superpoder de trazer uma pessoa ao mundo, igualmente deveria lhes ser concedido mais um, para mantê-la por aqui. Imitar Ícaro, domar Cronos – não importa qual. Desde que pudessem, através dele, garantir a existência daquele que lhes é confiado.

Aos pais e mães tristes, calados ou manifestos, se não recebem o poder providencial, cabe apenas a capacidade de superação. Que, de certa forma, é um jeito de ser super.