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Crônica de minuto #35

Luca:

– Mãe, me ensina a tricotar?

– Ensino, filho. [Surpresa] Mas para quê?

– Para eu fazer um cachecol para você.

A gente posa de mãe moderninha, que cria filho e filha igual, diz que menino pode fazer balé e menina pode fazer judô, ensina que não tem ‘cor de menino’ e ‘cor de menina’.

Aí eles vêm com uma dessa e pronto.

Nada como um filho para escancarar: ainda somos e vivemos como nossos pais.

O mundo é uma bola

Arte: Marc Palm/Flickr.com

Fui comprar uma bola, o filho da amiga fazia aniversário. Entrei na loja de brinquedos, dessas grandes, e procurei. Nada. Pedi ajuda ao vendedor de uniforme cor de laranja. Laranjas, como as bolas, também são redondas.

– Por favor, onde ficam as bolas?

Embora não tenha sido intencional, peguei o vendedor no pulo. Bolas também pulam. Melhor dizendo: quicam. Ele disfarçou, olhou para o teto. Olhei também, será que estavam ali? O moço falou baixinho, revelando o insuspeitável:

– Não tem.

– Está em falta?

– Não. É que a gente ‘não trabalha’ com bolas. Temos só algumas, ali na seção para bebês…

Ele se referia às bolas de silicone, macias e coloridas. Que todo mundo dá de presente aos pequeninos, ainda sem dentes, para se esbaldarem na fase oral. Bebês também gostam de chupar e morder laranjas. Mas mães não as dão sempre para suas crias brincarem. Apesar de pobres em vitamina C, as bolas de plástico têm vantagens: não fazem sujeira.

– Não, essas não… Bola de jogar, sabe?

Peguei-me explicando o que é uma bola. A minha cabeça, parecida com uma e que, por conta dos sete buracos, às vezes murcha, tinha é ficado zonza com a resposta do vendedor. Que não deu bola ao assunto e tratou de encerrar o papo:

– Sei. Mas não temos – disse. O ocupado vendedor, então, foi atender outros clientes. Que não procuravam por bolas.

Pensei ser brincadeira, mas não era. A loja não tinha bola – o mais básico dos brinquedos, a diversão inicial – para vender. Era como se eu fosse à feira e não encontrasse laranja em banca alguma. “Não trabalhamos com laranjas”, o feirante explicaria. Ou então, à loja de lingerie, e não houvesse um sutiãzinho sequer nas prateleiras. Quem quisesse, e esse foi o recado do vendedor-laranja, bem treinado para a função, que escolhesse outro brinquedo. Opções não faltavam. Todas, no entanto, embaladas de certa mesmice. Ou seria sem-gracice? Nada disso, e eu estava redondamente enganada. A loja fervia. Mas ninguém estava atrás da bola. Quem fez gol?

Por fim, encontrei, numa loja que não era de brinquedos, a bola que viraria um nas mãos e pés do aniversariante-mirim. Mais tarde, na festa, teve conversa de mesa (redonda?) entre meia-dúzia de pais. O assunto? O caso da bola. Todos percebem como os brinquedos e a relação das crianças com eles mudaram, e o quanto de nós mesmos há nisso. Poucos, porém, topam virar o jogo. Cartão vermelho para quem?

Nosso planeta, sabe-se de longa data, não é chato. É redondo. Chata é a loja, que não tinha bola.