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Onde está o quarenta e três?

Em pronto-socorro, urgências e emergências são numeradas. Noventa e oito, trezentos e dezesseis, cento e vinte e dois. Fratura passa na frente de febre, virose vem depois de intoxicação.

É como praça de alimentação do shopping, onde fomes também são numeradas. A senha avisa quando a comida está pronta. No hospital, a senha avisa quando o socorro está pronto.

A senha do meu pai é um-sete-um. Ele gosta de prestar atenção aos números chamados no painel, pii, pii. Esbraveja quando o um-sete-dois é convocado. Acha que passou na sua frente. Explico: não está em sequência, depende da prioridade, da especialidade. Ele entende, depois esquece. Aparece o cinquenta e ele desanima, “Ih, tem mais de cem antes de mim”.

Onde é que retira a senha da paciência?

Meia hora de espera num pronto-socorro é suficiente para decorarmos o local, as placas de sinalização, nos familiarizarmos com os funcionários que vão e vêm. Nos habituamos até com os pacientes. Dependendo, viram amigos por um dia. Pena que o assunto é sempre doença.

O painel apita: senha quarenta e três.

Ninguém se levanta. Quem está em pé, não se mexe. Os grudados na TV muda permanecem atentos às cenas, brincando de descobrir as falas. Há diversão num PS.

O painel segue em frente e chama oitenta e nove, trinta e três, cento e dois. Pii, pii, pii. O oitenta e nove é gordinho, enxuga a testa com um lenço xadrez e sai em disparada rumo à sala de atendimento. Que será que tem, além de pressa? A trinta e três está com febre há três dias, faltou no trabalho, o marido também não anda bem, quer só ver se os dois ficarem de cama, quem vai levar o mais novo pra escola? Não vi o cento e dois, eu estava no café. Lá não precisa de senha.

O painel dá uma chance ao quarenta e três, pii. Ninguém aparece.

O segurança, com ares de investigador, olha em direção à plateia adoentada. Quer identificar o paciente distraído. Pergunta em voz alta, a senha verbal é uma exceção justificada.

O painel nervoso apita três vezes seguidas, quarenta e três, quarenta e três, quarenta e três! Onde terá se enfiado? É o que toda gente quer saber.

Começa o burburinho. Foi fazer xixi. Dormiu. Deu problema com o convênio.

A despeito do mistério, nova leva é chamada, pii, pii, pii, pii. O segurança empunha o rádio, vai até a porta, diz qualquer coisa em código para alguém do outro lado da linha.

O quarenta e três é, oficialmente, um foragido hospitalar.

O painel chora a ausência do doente ímpar, que também é primo e tem o número atômico do tecnécio.

Enquanto isso, a ruiva de saia longa e cólica renal caminha amparada pelo marido. Os gêmeos idênticos também na dor de barriga não querem ficar no colo da mãe, choramingam, ganham o chão, tentam lamber o pé da cadeira. A mãe puxa um, arrasta outro, realoca-os nas cadeiras. Eles descem de novo. Ela desiste. Ser mãe é padecer no PS.

Esperançoso, o painel não desiste, pii, pii, piiii! Arde na urgência e na emergência de encontrar o desaparecido, tal fosse caso de vida ou morte.

(Emergência e urgência, nunca compreendi a diferença. Uma saudade pode ser urgente? E amor emergente que vive a urgência de amar? Filho apertado para ir ao banheiro, no meio da rua, é qual das duas?)

Ninguém mais fala em dengue, chuva ou copa. O paradeiro do quarenta e três é a pauta do plantão. Desistiu e foi embora? Não está na lanchonete? Será que morreu? Risinhos proibidos vêm da recepção.

Um colega do segurança junta-se a ele na missão. Checam cantos, inspecionam banheiros, rondam o estacionamento em frente. Estão em busca do paciente perdido. O painel dá seu último suspiro. Quarenta e três, adeus.

Meu pai continua firme na paranoia de que estão passando gente na frente. O quarenta e três, aos poucos, vai sendo esquecido do público enumerado e enfermo. Seus quinze minutos de fama se esgotaram. Nem o painel quer mais saber dele, a fila andou.

Um-sete-um. Vamos, pai.

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Crônica de minuto para quem está com pressa

Quando eu era pequena, sempre que passava, à noite, pelas estradas em obras, deslumbrava-me com a iluminação. Tão bela. Pontos de luz cor de âmbar enfileirados ao longo da via, parecia Natal. No dia em que passei mais devagar por eles, descobri: não passavam de baldes de plástico cor de laranja com uma lâmpada comum dentro. Decepção instantânea.

Toda ilusão que se revela corre riscos. Coelho de mágico sabe o que estou falando.

Sempre achei bonitos aqueles desenhos que os baristas fazem na espuma de leite dos espressos. Um singelo coração, pulsando na batida do grão de café. Uma doce palavra boiando, o recado está dado. Um efeito caleidoscópico, a alucinar a xícara. Por um instante, deixo a mágica intacta; sei que não resistirá ao bombardeio do açúcar. Deve ser fácil fazê-los, mas não quero aprender (e ver que são como os baldes). Prefiro o mistério que os envolve, assim o encanto se perpetua.

No seu próximo cafezinho – que será daqui a pouco, eu sei que você está com pressa –, pense nisso.

Mistério na esquina

Foto: Silmara (que não sabe quem é o Marcelo)

A tal esquina, eu dobro todo santo dia. A paisagem é automática, decorada, não faz surpresa. Um tio vende suas bugigangas de um lado e uma moça – gravidíssima – serve água de côco do outro. Num santo dia desses, estranhei: a paisagem fora adulterada. Alguém mexera no meu quadro urbano. Um recado público, de bom tamanho, gravado à tinta no muro da escola, jazia ali. A mensagem, “Marcelo, vire aqui” (a vírgula é por minha conta), era ilustrada, com seta indicando a direção. Quem precisa de Google Maps?

Aos mistérios da cidade, naquele dia, somou-se um: quem é o Marcelo? Aonde ele vai, ou foi?

Apesar de eu não ser o destinatário da mensagem, virei na mesma rua. Pareci obedecer à instrução alheia, mas era o meu caminho também. Certa de encontrar mais sinais pela frente, diminuí a marcha, caçando pistas. A curiosidade matou o gato, então redobrei a atenção. Mas, que pena, aquela era a primeira e última coordenada. O furo da minha reportagem pessoal havia ido para o espaço. Perdi a festa.

E se fosse uma mensagem em código? Forjando, no caso, informações sobre uma reunião de uma seita secreta? Marcelo, nome comum, seria apenas um codinome. Para despistar. Nunca se sabe.

E se o Marcelo seguisse a ordem e caísse num buraco mágico no meio da rua, indo parar num túnel, infinito e psicodélico, que o levaria a um mundo estranho? Marcelo no país das Maravilhas. Em pleno subsolo campineiro.

Intervenção de um anjo, talvez? Obedecesse e, no final daquela rua, Marcelo haveria de encontrar a resposta para todas as suas perguntas. Daria de cara com o grande sentido da sua existência. Quem sabe, se livraria de um acidente, já que era pela outra que ele costumava seguir, e não aquela que a seta ordenava. Ou, enfim, seria a chance de conhecer o amor da sua vida, quando parasse naquele sinal lá embaixo, que é meio demorado. Não há um anjo sequer que não tenha um lado cupido.

Há semanas o recado permanece ali, como os scraps esquecidos no Orkut. Virou um outdoor permanente. Vai durar, pelo menos, até a próxima pintura da escola.

Ê, Marcelo.