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Alto-falante

Ilustração: Scott Maxwell/Flickr.com

Um inventor jamais tem paz se descobre que seu invento é usado para fins que ele próprio desaprovaria. Assim foi com Santos Dumont, que deu cabo da vida depois que viu seu avião lançando bombas. Se pesquisarmos, talvez fiquemos sabendo de outro inventor com destino semelhante: o do alto-falante.

Praga essencialmente urbana, quando não está a serviço da música e no local certo, o alto-falante se presta a infernizar o cidadão, atordoando-o de vários jeitos. Em todos, contará sempre com seu fiel companheiro, outra invenção que também deixaria seu dono desgostoso: o microfone. Agindo em dupla, eles são imbatíveis na missão de despachar a tranquilidade para longe. Algo falante já é chato. Alto, então, é o fim.

Quem já foi a – ou passou próximo de – um feirão de automóveis, sabe do que estou falando. Tropas de vendedores invadem estacionamentos de shoppings centers ou qualquer outra área livre, como vikings, e já vão instalando alto-falantes aqui e ali. Bólidos tinindo, outros nem tanto, são os personagens mudos de um espetáculo do barulho. A diferença é que o antigo povo bárbaro saqueava as cidades em busca de mercadorias, os feirões saqueiam a sua paciência. Muita falação amplificada para animar o candidato a comprador e desanimar quem não tem nada a ver com o pato. A ordem é por o silêncio para correr. Quem quer silêncio, que vá para o campo.

Boa ideia, aliás, para as férias: um hotel-fazenda longe da metrópole, cheio de bichinhos para entreter a molecada, ar puro, comida caseira. Ou então um daqueles imensos resorts, para se esquecer até do próprio nome. Certo? Errado. Em nenhum deles se escapará da maldição dos alto-falantes. Você apanha seu livro, caminha até a piscina, ajeita-se numa espreguiçadeira e cumprimenta o sol. O mundo pode acabar ali. Antes, porém, um recreacionista munido da temível dupla avisa que a próxima aula de hidroginástica é dali quinze minutos. E começa a discorrer, entre uma piadinha e outra, os benefícios da atividade. É o tempo de você reunir suas coisas e se pirulitar dali.

De volta das férias, você lembra que antes de partir deu para a empregada tudo o que havia na geladeira, para não estragar. Hora de ir ao supermercado. Assim que você põe a primeira caixa de leite no carrinho anuncia-se no alto-falante uma promoção relâmpago no setor de eletrônicos, onde TVs moderníssimas de infinitas polegadas podem ser adquiridas em dez vezes sem juros no cartão. Você está feliz com a sua TV, as pessoas ao seu lado também não alteram as pestanas. Mas todos são obrigados a ouvir, de trinta em trinta segundos, uma voz animada avisando que não dá para perder essa.

O único lugar onde se conseguia a proeza de usá-los sem (muito) dano aos ouvidos – e estômago – era o aeroporto. Mas lá os alto-falantes estão aposentados. Há tempos, a voz de veludo anunciando o próximo embarque se foi. Salve-se quem puder.

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