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Meditação

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Sentei-me para meditar, o gato veio. Aninhou-se feito esfinge no tapete ao meu lado, olhinhos semicerrados, fixados num ponto aleatório da persiana. Se queria meditar comigo? Não. Queria ensinar-me. Gato é o melhor professor de meditação que há. Gato é o pai do mindfullness.

Mestre em lidar com as distrações, ele mostrou-me a técnica. Detectara um ruído na rua; ajustou a orelha direita a fim de identificar a origem e, se necessário, agir. Não era nada. Orelha e atenção, por segundos dedicados ao que parecia ser apenas um freio de bicicleta desregulado, retornaram ao estágio anterior. Seguimos na meditação – mais ele que eu.

Gato, pensa que não sei?, é capaz de meditar direitinho porque não tem to do list para dar conta. Não tem que pensar no almoço, tampouco na janta. O rango está garantido, é só miar ao lado da vasilha. Também não tem que se preocupar em agendar a fatura do cartão no bankline, aonde foi parar o token? Nem com o passeio da escola das crianças amanhã, é para levar filtro solar e repelente?

E, mesmo se tivesse lista de afazeres, o gato continuaria craque na arte da meditação. Porque é bicho que se dedica a cada um dos itens com atenção plena. Se está comendo, está comendo. Enquanto come, não fica pensando em tomar o solzinho da manhã na varanda. Se está tomando o solzinho da manhã na varanda, não lhe ocorre brincar com o barbante. Se está brincando com o barbante, não lhe passa pela cabeça caçar passarinho. Se não está fazendo nada, é nada mesmo.

A humanidade que se cuide, os gatos já encontraram a paz mental. O nirvana é deles.

Ou nada disso, e eles são só hábeis dorminhocos.

Modo avião

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Se as crianças se estapeiam porque um chamou o outro de “burro” e o outro revidou com um eloquente “idiota” batendo a porta do quarto e quem levou a pior foi o gato que viu seu rabo por um fio, lanço mão da providência divina: entro em modo avião. E encarno os Três Macacos Sábios, em livre adaptação: não ouço, não falo, não vejo.

Se flagro, involuntariamente, o discurso gentefóbico da mocinha atrás de mim na fila do supermercado sobre o penteado diferentão do rapaz do caixa, permaneço serena com minha linhaça e minhas bananas, e entro em modo avião.

Em modo avião, estou presente, pero no mucho. Não recebo chamadas de pai, filho, espírito santo ou espírito danadinho. Não apitam notificações do espertalhão no trânsito, crente que ninguém o vê trafegando pelo acostamento. Não sou acessada por nada e ninguém, não quero saber quem pintou a mula preta e, ao contrário dos versos de Torquato Neto na voz dos Titãs, não quero saber nem do que pode dar certo.

Em modo avião, posiciono-me alheia aos dissabores, mantenho-me à parte de pepinos, abacaxis e enrascadas em geral. Em sincero offline, declaro que não estou. Deixe sua mensagem. Eu respondo depois. Ou não.

É preciso cuidado, porém, para não ativar, por engano, o modo avião de guerra. Aquele que solta bombas, lança torpedos, dá rasantes e toca o terror.

Criado para as máquinas, se bem aplicado à humanidade, o modo avião mental é tão poderoso quanto a meditação. É atalho para o nirvana, um “nem tchum” planejado e consciente. Uma bênção para tempos tão bicudos.

Ative o seu. E boa viagem.

Esquadrão da Mente

arte: Rodvaz

No Esquadrão da Moda, programa que passa na TV, mulheres que se vestem mal são chamadas na chincha para reverem seu jeito de vestir. A vítima se vê numa espécie de Roda Viva – outro programa – tendo que explicar e defender por que usa isto ou aquilo. Peças pavorosas de seu guarda-roupa vão para uma simbólica lata de lixo. E, na base do susto, porrada ou risada, o desafio sempre tem final feliz. A mulher sai repaginada, com maquiagem de atriz, cabelo de revista e armário turbinado. (Se se trata de mais uma tentativa de padronizar tudo e todos, são outros quinhentos.)

Eu queria que existisse um programa para chamar na chincha pessoas que pensam mal, convidando-as a rever seu jeito de ser. O nome: Esquadrão da Mente. Quem inauguraria o programa? Eu.

Porque tem dias que saio de casa vestida de mau humor da cabeça aos pés, crente que ninguém vai reparar. Santa ingenuidade, Batman. A roupa do nosso pensamento nunca passa batida.

De utilidade pública, no Esquadrão da Mente os participantes teriam chance de, diante do Grande Espelho (que não mente jamais) e com uma mãozinha de quem entende do riscado, avaliar as próprias ideias, algumas de coleções passadas (amarrotadas?) que, de tão usadas, já esgarçaram.

Um programa assim faria bem, por exemplo, à pessoa que estaciona em fila dupla só um segundinho para deixar o filho na escola e, quando chega ao trabalho, antes da reunião, compartilha na rede social um post cobrando o fim da corrupção e outras nobrezas, sempre do próximo. Não combina, meu bem.

Seria de grande valia também para a mulher que a vida inteira romantizou a maternidade, eternizando seus mitos e autodecretando a perfeição compulsória. E hoje chora, reclamando que sua culpa agora é tamanho 54.

E para aquela outra que, sendo manequim 40, insiste na estreiteza do relacionamento 36. Claro que vai ficar apertado. Não serve. Nunca serviu, aliás.

Uma boa consultoria mental faria tremenda revolução na cabeça de quem desfila diariamente a ideia cafona de que os outros, só os outros, são responsáveis pela sua infelicidade e empacamento na vida. Um delito tão ou mais grave que sutiã com alça de silicone, meia cor da pele, legging de oncinha.

No Esquadrão da Mente as pessoas aprenderiam, inclusive, a escolher melhor suas amizades. As da baciada, em liquidação, geralmente não têm qualidade, não duram muito. Rasgam-se com facilidade, desbotam na primeira conversa mais séria.

E quem participasse do programa também teria final (ou recomeço) feliz, se assim desejasse. Porque quando o assunto é mente, assim como na moda, autoconhecimento é fundamental. É o pretinho básico da personalidade, peça curinga na vida. Vai bem com tudo.

Empinando pensamento

Litogravura e aquarela: Caroline Pires

Banheiro é o maior celeiro de ideias que existe. Não há páreo para ele. Soluções, descobertas, conclusões, rimas, eurekas – é no cômodo mais íntimo da casa (ou do escritório) que as melhores são paridas. É ali que as ideias saem para passear, felizes da vida, sem ter que dar satisfação a ninguém. Não há censura, crítica, vaidade ou pretensão. Se a liberdade é azul, em um banheiro ela é azulejada.

Deus há de ter rascunhado muito enquanto fazia a barba. Jesus Cristo deve ter tido seus primeiros insights enquanto usava o trono. E não estranharei se contarem que “Stairway to heaven” e “Águas de março” surgiram entre uma chuveirada e outra.

A distração criativa  já criou e salvou mundos inteiros.

Mais que zelar pelo saneamento básico de um povo, lutar por bons banheiros é lutar por um mundo melhor.

Não admira que, no lar, mães reivindiquem seus direitos ao xixi em paz, sem interferências dos filhos pequenos. Mais que esvaziar a bexiga, é nesses breves minutos no um-por-dois que elas se recompõem e adquirem energia extra para seguir o dia em meio a lições de casa, roupas no varal e cardápios para o jantar. Não fosse assim, que vantagem Maria levaria? De nada adiantaria fazer perguntas ao espelho, espelho meu, se não houvesse tempo (e sossego) para ouvir as respostas.

Banheiro é o único lugar do mundo onde é você, você e mais ninguém. Nele, há sempre algo nu. Um pedaço de corpo, um engano, uma moral, uma mania, um erro. É a nudez – total ou parcial, metafórica ou não – que absolve, cura e entrega quem se é. (A eventual presença de um gato não só não interfere no processo, como o aprimora.)

Não inventaram lugar melhor para empinar pensamento do que banheiro. Feito pipa. E quanto mais corda você der, mais alto ele vai.

Não repara na bagunça

Ilustração: Nadia/Flickr.com

Assim como se implora à visita que adentra em casa para não reparar na bagunça, faz-se mister pedir a quem entra em nossa vida – namorado novo, por exemplo – para fazer o mesmo, mas em relação a outro tipo de bagunça: a da nossa cachola. Principalmente, se essa visita for voltar mais vezes.

Almofada no chão, pia cheia, roupa aqui e acolá, sapato perdido, pacote de biscoito aberto na cama, livro, correspondência e brinquedo, tudo junto na mesa de jantar… para tudo dá-se jeito. É questão de braço e disposição. Já para ideia fora do lugar, palavra que vem antes de pensamento, complexo e mania misturados na mesma gaveta, rotina analógica em descompasso com a digital, ah. Nem com as melhores caixas organizadoras do mundo. É quando a pessoa avisa que vai, mas talvez fique, e se ficar, talvez queira ir. Mais ou menos isso, ou nem tanto, muito pelo contrário. É nessa bagunça, de fato, que as visitas reparam.

Bagunça que vem lá dos tempos de projeto, quando a pessoa ainda estava na planta, está fadada a bater ponto, transformando a vida num eterno canteiro de obras. Nada toma forma, tudo é ainda, tudo é quase, tudo é gerúndio. E não adianta trocar o mestre de obras, o problema está na fundação.

Bagunça gera bagunça, num fenômeno que não é restrito à violência ou gentileza. Um relacionamento bagunçado desperta mal-estar na profissão e vice-versa. A culpa não é do chefe. Nem do terapeuta, essa espécie de personal organizer.

Ouvi dizer que quando a vida, no geral, está caótica, a baderna se refletirá no guarda-roupa. Fui correndo ver o meu e, dia seguinte, arregacei as mangas e parti para a arrumação. Minha esperança era enganar o universo, fazendo o caminho inverso. Ou seja, mudar de fora para dentro. Não deu muito certo, mas o armário ficou um brinco. Ninguém reparou.

Crônica de minuto para quem pensa muito

Ilustração: Michael Young/Flickr.com

Repartir um prêmio em dinheiro que você nem punha fé? Não pense duas vezes. Apostar tudo naquele namoro que ninguém põe fé: pense duas vezes.

Ultrapassar aquele caminhão só porque a pressa está maior que de costume? Pense duas vezes. Agradecer ao anjo da guarda por ter escapado de ir para o beleléu, por causa do dito cujo: não pense duas vezes.

Socorrer o cãozinho atropelado que as pessoas fingiram não ver? Não pense duas vezes. Comprar um animalzinho, em vez de adotar: pense duas vezes.

Derrubar o fícus em frente à sua casa porque suas raízes levantaram um bocadinho a calçada, e agora você precisa desviar, de leve, para entrar na garagem? Pense duas vezes. Parar dois minutinhos para fotografar o ipê rosa que amanheceu florido na rua de cima: não pense duas vezes.

Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano? Não pense duas vezes. Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano: pense duas vezes.

Topar uma proposta para trabalhar mais feliz e ganhar um tiquinho menos? Não pense duas vezes. O contrário: pense duas vezes.

Cortar os cabelos porque deu uma vontade súbita, assim, do nada, sem explicação? Não pense duas vezes. Mantê-los longos apenas porque seu namorado gosta, e vive pedindo, com aquele olhar que você conhece bem, para você deixá-los assim? Pense duas vezes.

Adicionar, multiplicar e dividir os bons amigos nas redes sociais? Não pense duas vezes. Subtrai-los da sua vida porque, de vez em quando, eles não concordam com você: pense duas vezes.

Aproveitar o triz de inspiração para guinar a vida praquele lado que ela, há tempos, precisa? Não pense duas vezes. Se pensar uma vez e meia, o triz já era.

Pensar uma, duas ou três vezes. Não pensar. Ter cérebro à vela, com vento comandando o pensamento. Ideia motorizada, para ir o mais longe possível em menos tempo. Mente a jato, para perder de vista o que ficou para trás.

Dou-lhe uma. Dou-lhe duas. Dou-lhe todas.