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Você recebeu uma nova mensagem

arte: Pierpaolo Limongelli
arte: Pierpaolo Limongelli

Dei para enviar mensagens para mim mesma. Pelo e-mail, Messenger, Voxer ou o aplicativo que estiver à mão. Pequenos lembretes, escritos ou orais, para quando a agenda (de papel; sim, eu uso agenda de papel) não está por perto, ideias para textos, links de coisas interessantes para ver depois, não esquecer de fazer isto, aquilo e mais aquilo outro. Entupo minha própria caixa postal. Tenho mais mensagens de mim para mim que dos amigos. Qualquer hora, endoideço de vez e me respondo.

“Olá! Tudo bom? Recebi a mensagem. OK, buscar o resultado da mamografia na sexta”.

“Gostei do tema da próxima crônica, sobre o hábito inconfesso e incontrolável de espiar o que os outros passageiros estão lendo ou assistindo no avião”.

“E aí, o marceneiro foi?”.

Tem gente que fala sozinha com um interlocutor imaginário. Tem gente que fala consigo sozinha. E tem gente que registra o diálogo. Ou seria monólogo?

No mundo caetano – “Quem lê tanta notícia?” – eu me pego doente, padecendo de um não-dar-conta de absorver tanto conteúdo e lembrar do que precisa ser lembrado, ainda que sejam tarefas básicas do dia-a-dia. A escrita, desta vez não por motivos literários, vem para me salvar. Recorro à tecnologia que, nesse caso, assim como a fé, não costuma falhar.

Dou enter na automensagem e logo vejo a notificação: “visualizada”. Posso dormir sossegada. No dia seguinte, checo as mensagens-missões. Se as cumpro, são outros quinhentos.

Por outro lado, mando tantas mensagens para mim, que vou acabar me ignorando, me apagando sem me ler, me bloqueando, tal faço com os spams. “Ih, lá venho eu de novo”.

Triste fim!

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Fwd:

Arte: Amédée Forestier

Amigo ou parente assim, todo mundo tem. Você recebe a notificação, chegou e-mail do Fulano. Pensa: desta vez ele, ou ela, vai contar novidade. Casou, mudou de emprego, vai ter bebê, descasou, fez matrícula na pós, está pensando em largar a engenharia e sair por aí fotografando passarinho. Ou, quem sabe, dirá apenas que está com saudades. Ingenuidade sua. Ao bater o olho no Fwd: do assunto, já sabe: mais um forward. O décimo da pessoa – esta semana.

Você pausa o olhar na tela, avaliando se convém bloquear o amigo de uma vez por todas. Afinal, nem sempre foi assim, mas de uns tempos para cá ele nunca escreve para saber como vão as coisas, se você passou no concurso, como foi a sua cirurgia, se você ainda tem o telefone daquele homeopata. Não, ele não quer saber de nada. Seu prazer é encaminhar, ao infinito e além, tudo que recebeu por e-mail. É fissurado no repasse, viciado em retransmissão. Sem se dar conta que, assim, a amizade entre vocês ruma a uma espécie de backward. O amigo virou spam.

Então, você lembra: passou seu aniversário e ele não se manifestou (embora conhecedor da data, a mãe e você são do mesmo dia). No rátimbum dele, porém, você sempre dá um jeito e manda o alô por e-mail, que a vida é mesmo corrida. (Mas não precisa ser maratona.) Ele ignora e, dia seguinte, nova missiva coletiva na sua caixa postal. Alertando sobre novo golpe na praça. Golpeada, na verdade, fica a relação de vocês. Polícia!

Responder para um mandador de forward é monologar, falar com paredes sem windows. Ele não responderá, ocupado demais em seu espetáculo-solo. Fwd: é bom; Fwd:Fwd: é sensacional; Fwd:Fwd:Fwd: é a catarse. Para ele, compartilhar é preciso; viver não é preciso. Sem assunto, ele conta com os assuntos dos outros. Tem um milhão de amigos e nenhum. Quer ser lido, mas não acessado.

A solução para o caso não é empurrar a situação com a barriga – nem backward, nem forward. É na base do stop mesmo.

Mistério na esquina

Foto: Silmara (que não sabe quem é o Marcelo)

A tal esquina, eu dobro todo santo dia. A paisagem é automática, decorada, não faz surpresa. Um tio vende suas bugigangas de um lado e uma moça – gravidíssima – serve água de côco do outro. Num santo dia desses, estranhei: a paisagem fora adulterada. Alguém mexera no meu quadro urbano. Um recado público, de bom tamanho, gravado à tinta no muro da escola, jazia ali. A mensagem, “Marcelo, vire aqui” (a vírgula é por minha conta), era ilustrada, com seta indicando a direção. Quem precisa de Google Maps?

Aos mistérios da cidade, naquele dia, somou-se um: quem é o Marcelo? Aonde ele vai, ou foi?

Apesar de eu não ser o destinatário da mensagem, virei na mesma rua. Pareci obedecer à instrução alheia, mas era o meu caminho também. Certa de encontrar mais sinais pela frente, diminuí a marcha, caçando pistas. A curiosidade matou o gato, então redobrei a atenção. Mas, que pena, aquela era a primeira e última coordenada. O furo da minha reportagem pessoal havia ido para o espaço. Perdi a festa.

E se fosse uma mensagem em código? Forjando, no caso, informações sobre uma reunião de uma seita secreta? Marcelo, nome comum, seria apenas um codinome. Para despistar. Nunca se sabe.

E se o Marcelo seguisse a ordem e caísse num buraco mágico no meio da rua, indo parar num túnel, infinito e psicodélico, que o levaria a um mundo estranho? Marcelo no país das Maravilhas. Em pleno subsolo campineiro.

Intervenção de um anjo, talvez? Obedecesse e, no final daquela rua, Marcelo haveria de encontrar a resposta para todas as suas perguntas. Daria de cara com o grande sentido da sua existência. Quem sabe, se livraria de um acidente, já que era pela outra que ele costumava seguir, e não aquela que a seta ordenava. Ou, enfim, seria a chance de conhecer o amor da sua vida, quando parasse naquele sinal lá embaixo, que é meio demorado. Não há um anjo sequer que não tenha um lado cupido.

Há semanas o recado permanece ali, como os scraps esquecidos no Orkut. Virou um outdoor permanente. Vai durar, pelo menos, até a próxima pintura da escola.

Ê, Marcelo.

Ops

Ilustração: Michael Whitehead/Flickr.com

Você termina de digitar a mensagem e, um décimo de segundo depois de clicar em “enviar”, percebe que o email do destinatário está errado. Ingenuidade pensar que seu pedido – aquele que você fez em seguida, ao mesmo destinatário, para que desconsiderasse o que recebeu por engano – vá ser atendido.

Ele vai considerar, sim. E muito. Vai ler a mensagem inteirinha, tim-tim por tim-tim. Exercitará os neurônios, a criatividade e a clarividência para compreender o contexto do que leu, caso isso não esteja assim tão claro. Guardará a mensagem, para futura referência. A partir de agora, seu apelido íntimo, seus segredos – graves, médios e agudos –, suas mazelas profissionais ou afetivas, desde quanto você vai faturar naquele negócio até o que você pretende fazer com seu namorado no sábado à noite, em detalhes impronunciáveis, tudo se tornará público. O que você escreveu passará ao domínio não só de um terceiro, mas de um quarto, quinto elemento ou muito além disso, dependendo do grau de interesse que seu texto possa despertar na comunidade virtual, e do tamanho do mailing list do espírito-de-porco em questão. Fato: você ficará vendida e alguém terá o prazer de fazer a entrega.

Nem pense em tentar explicar como a mensagem foi parar lá, muito menos do que ela trata. Não haverá emenda capaz de consertar um soneto irrecuperavelmente perdido. O melhor é fingir-se de morta, ainda que você desejasse, de fato, estar.

De acordo com o velho ditado, há três coisas na vida que não voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. Novos tempos trataram de incluir a quarta à milenar sabedoria: o email enviado.

Copie e cole na sua cabeça: a vida não tem Ctrl-Z.