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A maldição da meia branca

Foto: Elena Pleskevich/Flickr.com

Se fosse eleita presidente do país, minha primeira medida não visaria a geração de empregos. Tampouco a proteção ao meio ambiente. Combate ao tráfico, muito menos. Disso tudo, há quem cuide. A primeira ação do meu governo seria um decreto-lei que, se por um lado soasse tirano, por outro beneficiaria milhões de mães e domésticas desesperadas: a proibição da fabricação e comercialização de meias brancas em todo território nacional.

O leitor perguntar-se-á sobre os motivos de tão dura determinação. A resposta pode não parecer óbvia a todos, exceto ao grupo dos ‘beneficiados’: torná-las alvas novamente, durante a lavagem, é tarefa medieval e desumana. Impossível, para ser honesta. Sobretudo, quando seus donos são crianças e adolescentes – a verdadeira razão do decreto-lei. É meia lustrando o assoalho da sala, meia correndo atrás do cachorro no jardim, meia na terra. Festinha em buffet só dá criança de meia (aliás, os pais poderiam inovar na lembrancinha do final, colocando no pacotinho, além de balas e doces, um par de meias novas).

Com meia branca é assim: você abre a embalagem, admira sua indefectível brancura e lhe dá adeus. Será a primeira e última vez que você a verá assim. Depois de um dia dentro – ou fora – dos tênis, ela seguirá para o tanque e jamais será a mesma. Quando retornar à gaveta, ela não passará de um trapo encardido e imprestável. Amarelado, na melhor das hipóteses. Porque não há, no universo, lavadora automática, alvejante, sabão em pó ou muque capaz de remover toda sorte de resíduos que se instalarão, cruel e definitivamente, em suas tramas.

Desconfio que, nos últimos anos, o salário das empregadas domésticas conquistou um reajuste acima da inflação por conta delas, as meias brancas. A patroa entrevista uma candidata, apresenta-lhe a casa de oitocentos metros quadrados, as quatro suítes, os três filhos entre seis e doze anos, os dois cães, o quintal, as varandas, o mezanino, a edícula, a garagem. Nada a assusta. Já trabalhou em casas maiores, até. Avisa que são dois ônibus para ir, dois para voltar. A candidata a patroa oferece um bom salário, carteira assinada, férias, FGTS e coisa e tal. A negociação prossegue bem, até que é lançada a pergunta fatal:

– Que cor de meia seus meninos usam?

A futura patroa engasga, desvia o olhar e diz que eles gostam de meias brancas, sabe como é. Numa tentativa de tranquilizá-la, ressalta que algumas têm estampas, não é toooda branca. Mas, diante da expressão da candidata, resigna-se e oferece-lhe trinta por cento a mais. Uma cesta básica. E diz que na sexta ela pode fazer meio período. “Aceita um cafezinho?”

Se a medida vingasse, talvez fosse o caso de estender a proibição também a todas as meias de cores claras. Acabaria essa história de meia azul-bebê, cor de gelo, bege – todas elas com efemeridade semelhante às brancas. Nas prateleiras, apenas tons escuros como azul marinho, cinza chumbo, verde musgo. A fabricação de meias pretas, inclusive, contaria com um atraente incentivo fiscal. Repare quantos benefícios numa tacada só.

Até posso ver: a medida seria tão bem aceita pela população, que se poderia pensar na sua aplicação em outras áreas. Uniformes escolares, por exemplo. Alguém sabe o que é desencardir uma camiseta branca depois de uma tarde no parquinho ou na quadra da escola? Francamente.