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Diário de uma aparelhada, 3º mês

vaca frango
A Vaca e o Frango no episódio “Policial Ortodontista, Cartoon Network

3/11

Sigo me esquivando de palavras com S. Virou uma espécie de jogo. Ganho quando consigo dizer uma frase inteira sem a letra. Perco quando não tem jeito e sai tudo assim, meio sibilante. A sorte é que só eu sei do jogo, e que não tem dinheiro na parada.

 

10/11

Tenho alucinações e vejo “Dabi Atlante” escrito em tudo quanto é lugar. Nas placas de trânsito, nos luminosos do shopping, na capa do gibi da Turma da Mônica e até nas embalagens de biscoito. Ninguém escapa incólume depois de fitar, na luz, uma logomarca durante quarenta e cinco minutos e de boca aberta. Publicitários (e dentistas) não são de Deus.

 

16/11

Para não assumir a covardia e confessar a minha incapacidade de lidar com dores, aftas, privações e passa-fios, vivo bolando estratégias para me livrar do aparelho. “Dr. Claudio, apostei mil pratas com um amigo que eu aguentaria três meses. Ganhei. Pode tirar, por favor?”. “Dr. Claudio, sou repórter e estou fazendo uma matéria sobre aparelhos ortodônticos. Para dar realismo à coisa, me propus a viver o cotidiano de quem usa. Deu tudo certo, a matéria sai amanhã. Pode tirar, por favor?”. Vai que cola.

 

19/11

Na hora do beijo quero saber do marido, de dez em dez segundos, se o aparelho incomoda, como é, como fica, enfim, suas impressões no geral. Levo bronca, o beijo vai para o beleléu. Também flagrei-me buscando no Google “como beijar de aparelho”. Descobri que não estou só.

GOOGLE APARELHO

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Diário de uma aparelhada, 7ª semana

Segunda-feira

Fiz salada de frutas no fim de semana. A manga estava tão, mas tão suculenta, que resolvi abocanhá-la ali mesmo. Até agora tem fiapos nos braquetes. Deveriam colocar um aviso nas feiras. E, ninguém fala, mas todo cão flagrado chupando manga usa aparelho fixo.

Terça-feira

Fui a um casamento e detectei quatro pessoas usando aparelho. Aparelhados, quando se descobrem, trocam um sorrisinho amarelo-cerâmica (ou metálico). Mais ou menos como deve ser quando os ETs se esbarram aqui na Terra. Basta um olhar, e eles já se reconhecem. Na festa, recusei um pedaço de bolo de chocolate. Anfitriões deveriam oferecer um local isolado, tipo uma salinha individual, equipada com artigos de higiene, para os convidados aparelhados poderem se alimentar.

Quarta-feira

Falando em festa, desenvolvi técnicas avançadas para comer brigadeiro nos aniversários. A primeira é meio selvagem: enfia-se o doce inteiro na boca, formando, com a língua, uma barreira para que ele não escorregue para frente durante a mastigação. Só não funciona muito bem com os grandões, e pode ser que ocorram algumas caretas. Segunda: pegar, com os dedos, pedacinho por pedacinho. Repetir o esquema da barreira lingual. Não há risco de caretas, mas demora mais e o brigadeiro pode acabar. O ideal são os menos molengos, não lambuza tanto as mãos. E eu, achando que brigadeiro era tudo igual.

Quinta-feira

Estive reparando nos dentes do Morgan Freeman. Da Amy Winehouse também. E da Kate Moss. Eles serão meu alento e inspiração, caso eu desista dessa asneira sandice empreitada.

Sexta-feira

Para não manchar o aparelho, que é de cerâmica, o dentista disse que eu deveria evitar café. Rimos bastante. Um fanfarrão, esse cara.

Diário de uma aparelhada, 4ª semana

Sábado

A compaixão é mesmo um sentimento maravilhoso. Todos que sabem da minha penúria com o aparelho ortodôntico vêm logo dizer: “No começo é assim. Logo melhora”. Tempo, já diziam os pensadores e a faxineira que trabalhava aqui em casa, é relativo. Qual a duração de um começo? Começo de filme leva dez minutos. De namoro, um mês. O começo do mundo talvez tenha levado séculos (e no início era o caos, lembram?). Não dá pra levar os compassivos a sério.

Domingo

Encarei o primeiro sanduíche do Subway depois do aparelho. Como de costume, pedi para colocar todas as folhas, todos os legumes, todos os temperos. Depois de quarenta minutos ruminando, saí de lá com a certeza de que havia uma horta inteira em minha boca. Achei que não era o caso de escovar os dentes, e sim fazer colheita.

Segunda-feira

Passei a fazer minhas refeições como uma lady. Por conta dos estragos que os braquetes fizeram, ponho um tiquinho de comida no garfo de cada vez, abro de leve a boca. Mastigo beeem devagar, como mandam a macrobiótica e o dentista. Se Lulu Santos me visse, diria que é o novo começo de era, de gente fina e elegante. Se ele perguntasse se estava tudo bem, eu seria também sincera: não.

Terça-feira

Comer beterraba em público, nem pensar. Na frente dos outros, só alimentos que fazem mimetismo com meus dentes. Purê de batata, pão, nhoque, arroz. O que os olhos (dos outros) não veem, o coração não sente nojo.

Quarta-feira

Não sei mais como devo sorrir para as fotos. Se cerro os lábios ou se assumo, escancarando o equipamento. Flagrei-me optando por um duvidoso meio termo, o resultado foi patético. Mas tive um fabuloso insight: Mona Lisa usava aparelho.

Quinta-feira

Notei que passei a fazer ruído quando bebo café, igual gente sem modos quando toma sopa. Se tem alguém íntimo ao meu lado, peço que fale qualquer coisa bem alto enquanto dou os goles.

Sexta-feira

Para garantir o sucesso da minha ideia de jerico do meu tratamento ortodôntico, ontem extraí um ciso. Nada como uma nova catástrofe para fazer a gente esquecer a tragédia que estava em curso.

Diário de uma aparelhada, 1ª semana

Segunda-feira

Enfim, botei aparelho nos dentes! Não sei por que não fiz isso antes. Há tempos que isso deixou de ser tão caro. E não tem mais aquele preconceito de que é coisa para adolescente. Um sorriso bonito está ao alcance de todos. Assim que cheguei do dentista, tive um bom presságio para inaugurar minha nova fase de vida: um passarinho veio cantar na varanda. O doutor Claudio falou que talvez eu tenha que usá-lo por uns três anos. Não há pressa. Três anos passam tão rápido.

Terça-feira

Hoje o aparelho está incomodando. Nada demais, mas dói na hora de mastigar. A boa notícia é que ando menos gulosa. O aparelho vai me ajudar a entrar num 38, escreve aí. Também não dá para roer o esmalte, como eu fazia. Tudo tem um lado bom. Gastei uma fortuna, adquirindo o arsenal ortodôntico: escova especial, refil para escova especial, escovinha para limpar entre os dentes, refil para escovinha, passador de fio dental, cera para os braquetes não machucarem a boca por dentro. Nunca tinha reparado nessa seção nas farmácias. Só despesa. E dor.

Quarta-feira

Descobri que não posso mais comer maçã como sempre fiz, às bocadas. Preciso cortá-la em pedacinhos, senão arrebento o aparelho. Parece que tem sempre uma maçã protagonizando a história da humanidade. Se Eva usasse aparelho, pode crer, não estaríamos aqui. O passarinho voltou. Fez um monte de cocô na minha varanda, o infeliz.

Quinta-feira

Os braquetes já fizeram um bom estrago. Vou mudar meu nome para Silmarafta Franco. Ou Silmara das Dores. Meu status agora é: em um relacionamento complicado com o fio dental. Se tenho compromisso depois do almoço, já ligo avisando que vou atrasar. Quando assumi os cabelos brancos, as pessoas falavam comigo olhando para a minha testa. Agora, de aparelho, as pessoas falam comigo olhando para a minha boca. Estou pensando em vender espaço publicitário na minha cabeça.

Sexta-feira

Passo os dias na base de sopa e mingau, tenho calafrios só de pensar em morder pão Pullman. Aquele passarinho idiota voltou a cantar na varanda. Ele canta, claro, porque não tem dentes. Da próxima vez, solto os gatos. Semana que vem tem consulta. Preciso ver com o doutor Claudio quando é que tiro esta porcaria.

Irritante

Ilustração: Daniel Duende/Flickr.com

Não tem aquele programa Irritando Fernanda Young? Pois então. Eu não tenho programa de TV, mas listo aqui 24 coisas que me irritam neste mundo de meu Deus. É para combinar com o dia de hoje, 24.

1. Quando digo que não como carne vermelha nem frango e as pessoas perguntam com aquela cara de espanto: Mas o quê você come, então? Às vezes, só para variar, respondo: arroz, feijão, abobrinha, brócolis, tomate, batata, aveia, pão, requeijão, peixe, biscoito salgado, biscoito doce, ovo, brigadeiro… e só paro quando a pessoa diz: OK, já entendi.

2. O termo “sanduíche natural”. Esse eu nunca consegui compreender a definição. Tem frango, maionese com ovos.

3. Quando há alguma campanha em prol dos animais e as pessoas dizem: Com tanta gente passando fome… Então está bem. A gente pára tudo no mundo e não faz mais nada para ninguém. Porque tem gente passando fome, não é?

4. Porta-toalhas de papel que diz: Bastam duas folhas para secar as mãos. Você usa duas e termina de secar as mãos na roupa.

5. Anúncios de Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal. Poderiam usar os mesmos todos os anos, porque os motes, surradíssimos e pra lá de caricatos, são sempre os mesmos. Sem falar nos que circulam na época do Carnaval, cheios de confete e serpentina. Ou em junho, onde tudo vira arraiá, num idioma que nem caipira de verdade sabe o que é. É de lascar.

6. Anúncios de telefonia celular. Dos institucionais eu até gosto, mas os promocionais… Um tem pacote de duzentos minutos, outro de quinhentos (como se o ligador controlasse isso, ou tivesse noção desse tempo), no outro fala-se por um ano de graça com não sei quem. Finjo que não vejo.

7. Lojas de sapatos. Você pede aquele modelo, naquele número. Não tem, e o vendedor traz um modelo absolutamente diferente, dois números maior e diz: Trouxe esse para você ver.

8. Março, 36 graus, sol de rachar côco. As lojas colocam suas coleções de inverno nas vitrines, e você vai encontrar uma camisetinha de manga curta lá no fundo, na última arara. Sem contar o ar-condicionado, que desce para 15 graus. É para sugestionar, como disse uma vez uma vendedora.

9. Aquelas etiquetas enormes e pinicantes nas roupas, com instruções de lavagem, composição dos tecidos. Algumas vêm até com o a indicação do lugar para você recortá-las. E depois ninguém se lembra se a peça pode ir à secadora ou não.

10. Troco menor que R$ 0,05. Ninguém dá. Deve haver, portanto, algum critério misterioso ou supersticioso que faça existir preços terminados em 96, 97, 98 ou 99 centavos.

11. Quando você vai comprar um carro o vendedor afirma: Vermelho é um charme. Você fica na dúvida e ele garante: Não tem mais essa de cor mais ou menos valorizada. Quando você vai vender: Xi, vermelho não tem muita saída.

12. Na praia. Por que 99% dos donos das barracas acham que as pessoas que vão à praia só querem comer tranqueira? Gordura não combina com praia. Nem com biquíni.

13. Na praia II. Por que 99% dos donos das barracas acham que as pessoas que vão à praia só querem ouvir pagode?

14. Na praia III. Você resolve sair com uma calça comprida e alguém se espanta: Você não vai por um shortinho?

15. Combustível. De onde vem o hábito de colocar o preço com três casas decimais? E a terceira é beeem pequenininha. Aquela vendedora da loja de roupas diria que “é para sugestionar”.

16. Quando eu digo que minha filha se chama Nina e a pessoa pergunta: Mas é o nome ou apelido?

17. Quando eu digo que meu filho se chama Luca e a pessoa vem conversar com ele: Então, Lucas…

(Quem mandou colocar esses nomes.)

18. Estrangeirismos. Em geral, são todos ruins e fora de contexto. Mas os que batizam prédios e condomínios são os piores. Você pede uma pizza pelo telefone, e na hora de dizer onde mora é aquele martírio.

19. Embalagens. Lenço umedecido: quem é consegue abrir o pacote e tirar o primeiro, sem antes estragar uns dez?

20. Embalagens II. Caixa de leite longa vida: primeiro você precisa de uma faca ou tesoura para abri-la. E depois, de uma habilidade ímpar para servir o primeiro copo sem espalhar leite pela pia.

21. Embalagens III. Iogurte de potinho: impossível tirar o papel de uma vez só. Vai rasgando, rasgando.

22. Aquelas caixinhas de morango, com os maiores e mais bonitos por cima, e os menores e nem tão bonitos por baixo. Enganação descarada. Aquela vendedora da loja de roupas diria que “é para sugestionar”.

23. Aqueles papeizinhos pequenininhos, os comprovantes das compras com cartão. Vão se amontoando na carteira. Quem é que confere aquilo tudo depois, ó Senhor?

24. Esse não irrita mais, mas já irritou muito quando eu era criança. Sempre que fazia um desenho alguém dizia: Que bonito… o que é? Se fosse uma pessoa: Que bonito… Quem é?

Diz se não é para sair do sério.