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Crônica de minuto #57

Quero sair de casa todos os dias pela manhã e pendurar na maçaneta, do lado de fora, uma plaquinha escrito “Favor arrumar”, dessas de hotel.

Assim, quando eu retornar, por obra da mesma espécie das fadas-camareiras dos hotéis, as camas estarão impecavelmente feitas, as roupas dobradas e alinhadas sobre o pufe, o chão varrido e os banheiros tão limpos como se nunca houvesse passado gente por ali. Da mesma forma, todas as ideias, projetos e vontades que ficaram largadas pelo meio irão para seus devidos lugares.

Eu virarei, então, a plaquinha para “Não perturbe”. E não só ninguém baterá à porta, como nada de ruim, triste ou chato entrará.

No dia seguinte e a vida inteira, a mesma coisa.

O problema – ou solução – é que, na vida, não sou hóspede. Sou dona.

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Crônica de minuto para quem está com pressa

Quando eu era pequena, sempre que passava, à noite, pelas estradas em obras, deslumbrava-me com a iluminação. Tão bela. Pontos de luz cor de âmbar enfileirados ao longo da via, parecia Natal. No dia em que passei mais devagar por eles, descobri: não passavam de baldes de plástico cor de laranja com uma lâmpada comum dentro. Decepção instantânea.

Toda ilusão que se revela corre riscos. Coelho de mágico sabe o que estou falando.

Sempre achei bonitos aqueles desenhos que os baristas fazem na espuma de leite dos espressos. Um singelo coração, pulsando na batida do grão de café. Uma doce palavra boiando, o recado está dado. Um efeito caleidoscópico, a alucinar a xícara. Por um instante, deixo a mágica intacta; sei que não resistirá ao bombardeio do açúcar. Deve ser fácil fazê-los, mas não quero aprender (e ver que são como os baldes). Prefiro o mistério que os envolve, assim o encanto se perpetua.

No seu próximo cafezinho – que será daqui a pouco, eu sei que você está com pressa –, pense nisso.

O pombo do mágico

Ilustração: Babbletrish/Flickr.com

É dura, a vida de pombo de mágico.

O bichinho precisa estar impecável, imaculado e bem treinado, sempre pronto para o show. Finge que desaparece de um lado, enquanto o colega, idêntico, faz de conta que reaparece do outro. Companheiro de trabalho do coelho, pombo de mágico deve obediência cega ao seu dono. Uma espécie de cão alado. Por conta do ilusionismo, é transformado em lenço. Quer maior anulação de uma existência? Verdade seja dita: bem que eu queria poder desaparecer e reaparecer na hora que desse na telha. Por conta própria, porém. Eu dispensaria o mágico.

Pombos são associados à paz, culpa da Bíblia. Então não foi num pombo que o Espírito Santo se transformou, por ocasião do batizado de Jesus? Mágico, portanto, é profissão das mais antigas. Branquinhos e em bando, em espetaculares revoadas, arrepiam qualquer um, cristão ou não. Foi também essa ave uma das protagonistas do episódio de Noé e sua arca. Conta-se que, passado o dilúvio, causado por Deus a fim de lavar do mundo toda a maldade, Noé pediu a um pombo que saísse da arca e fosse conferir a situação. Pouco tempo depois, ele retornou com um ramo de oliveira no bico. As águas haviam baixado, então. Assim, o pombo foi promovido a mensageiro da paz. Quanto à extinção da maldade, Deus deve ter desistido. Isso, nem com mágica.

Apesar das histórias, duvido que os pombos saibam do nobre significado atribuído a eles. Pombo quer é arrulhar, ciscar e manter a barriguinha cheia. Quando lhes dou pipoca na praça, os mais fortes disputam a comida obstinadamente, sem dó dos mais fracos. Já cuidei de um por algumas semanas. Ferido em sua pequena asa – o que, sem mágica nenhuma, faria dele uma presa fácil –, dei-lhe abrigo, alimento, água e carinho. Quando se curou, soltei-o e ele chispou o mais rápido que pôde. Nunca mais voltou. O que um pombo pode ter a ver com paz? Titicas indesejadas são suas principais características. Bichos, inclusive, não teorizam sobre a paz. Isso é coisa de gente. Bicho vive, ou não, em paz. E pronto. O pombo do mágico, por exemplo, não tem paz. Apesar de lhe pertencer, não tem os poderes de seu tutor. Tivesse, certamente se converteria num passarinho de realejo. Tirando a semelhança das condições de trabalho, ele viveria ouvindo música e escolhendo a sorte das pessoas. Muito mais divertido.