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O presente de LFT (ou: sobre as gentilezas)

Andei chorando as pitangas por não conseguir lembrar direito dos meus aniversários. Mas daqui para frente, tudo vai ser diferente.

Desde que tornei públicos os meus (des)encontros com Lygia Fagundes Telles, vira e mexe alguém me revela que também viveu – ou sabe de – um causo com essa senhora. LFT é uma comum mulher incomum. Afetuosa, simples, direta – como contam os amigos em histórias daqui e dali. Um encontro por acaso, um esbarrão na livraria. Um chá em sua companhia. Uma entrevista que vira conversa. Uma fotografia tirada para uma revista. E foi justamente através dessa última categoria que eu acabei ganhando um presente de aniversário diferente e muito bom. O menos esperado, o mais emblemático. Para garantir que meu 42º aniversário navegue incólume no mar da minha própria deslembrança que, por vezes, engole esse assunto.

Conto como foi. Os tais (des)encontros foram lidos por dois amigos, um casal de fotógrafos. Ele, Penna Prearo. Ela, Adriana Vichi. Ele, com um olhar genial para as coisas. Ela, que conheci através dele e com quem até hoje só falei por e-mail e telefone sobre bichos abandonados e, claro, LFT. Dela, que eu imagino loura, com cabelos anelados presos num rabo-de-cavalo, ele já contou: é dada a fazer surpresas. Como ambos já haviam fotografado LFT, bolaram um plano: Adriana enviaria meu texto para LFT, quem sabe ela não gostaria de lê-lo? E assim fez ela, exata e propositadamente no dia de meu aniversário, tratando também de lhe contar esse detalhe. O resto é história.

Dia seguinte, manhãzinha, checo meus e-mails. Eu, que não tenho o hábito de olhar aquela pastinha do spam, aonde geralmente vai parar o lado tosco da humanidade, tive a curiosidade de ver o que havia ali. Sopro de anjo, só pode ter sido. Pois o que havia nela jamais poderia estar lá: uma mensagem de LFT. E não era spam.

Eu sei, ela caiu ali porque aquele endereço não estava na minha lista de contatos (quem dera), fui eu mesma quem configurei assim. Mas será o Benedito que o provedor não sabia de quem se tratava? Soubesse, teria concluído: Ops, esta aqui não pode ser spam. E a moveria para a caixa de entrada, com toda pompa e circunstância:

From: Lygia Fagundes Telles

To: Silmara Franco

Subject: feliz aniversário

Date: Thu, 7 May 2009 19:22:12 -0300

Cara Silmara,

segue o abraço de aniversário dessa escritora às voltas com conferências e lançamentos. Me diga seu endereço que mando um dos livros novos com dedicatória.

Obrigada pelo texto entregue pela Adriana.

Abraço afetuoso,

Lygia Fagundes Telles

Confesso que, a princípio, hesitei em acreditar, tamanha improbabilidade disso acontecer. Caí da cadeira. Mas juntei o que dizia a mensagem com as histórias contadas pelos amigos, e respirei aliviada. Um pouco envergonhada, é verdade, pela dúvida que tivera.

Contrassensos modernos: quanto mais simples e gentil a coisa, maior a desconfiança. Apontando o modo enviesado com que nos relacionamos com os outros, quase sempre baseados na descrença e no medo das intenções. LFT mandara-me a delicada mensagem por gentileza, já que ela certamente tinha outros afazeres naquele dia (e não importa se eventualmente não tenha sido ela própria quem a digitara; se assim foi, a instrução partira dela).

Também confesso: o “plano” dos dois amigos havia me surpreendido. O empenho de uma pessoa (Adriana, que eu nunca vira de verdade), movida pela simples vontade de fazer alguém feliz, sem interesse algum, é raro e comovente. Um gesto que, de tão amável, também chega a soar improvável.

É. Somos, definitivamente, uma raça repleta de esquisitices.

Voltando à mensagem. Engraçado como algo virtual pode trazer tanta felicidade real. Passei o dia inteiro meio abobalhada, contemplando-a na tela como quem admira um quadro. Ser fã é quase dolorido.

Exatamente uma semana depois, vou apanhar minhas correspondências na portaria. Uma conta de água, um folheto da pizzaria nova que abriu no bairro e um envelope grande, pesado. É da Academia Brasileira de Letras – tem coisa mais chique? Sorrio, pois já sei o que é. Outra gentileza de LFT. Para me deixar abobalhada o mês inteiro.

Para os próximos dias, tenho um encontro com Ana Clara, Lia e Lorena. Há tempos não via essas meninas, será bom revê-las.

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(Des)Encontros com LFT

Faz tempo, foi nos anos noventa. Eu trabalhava no jornal, e há muito já gostava de escrever. Vivia escrevendo coisas e juntando tudo numa pasta velha, Um dia passo tudo a limpo – hoje expressão démodé. Apesar da vontade, eu não tinha muita determinação em ser escritora. Mas um desejo eu tinha: escrever contos como a Lygia Fagundes Telles. Com aquela densidade. Aquela pontuação única e deliciosa, descrevendo os cenários, as pessoas e as almas das pessoas. Eu era, e sou, apaixonada por ela. Percebi melhor essa paixão quando amigos me ligavam para avisar que ela estaria em tal programa na tevê, ou traziam uma revista com ela, ou então quando me davam de presente algum livro dela, Você já tem esse? E eu tinha. Cheguei a anotar seu endereço. E ele ficou lá na agenda, sozinho, calado, platônico. Porque jamais intencionei uma carta, uma visita. Mas tê-lo significava certa intimidade, ainda que apenas para mim. Imaginava-a em seu apartamento, escrevendo e reescrevendo seus contos e romances. E linda.

Pois foi no jornal meu primeiro encontro e meu primeiro desencontro com LFT. Seis e pouco da tarde. Na portaria, eu aguardava minha irmã me buscar, como todos os dias. Enquanto ela não chegava, distraía-me com a Alameda Barão de Limeira e suas feiúras, a estética desconcertante da Boca do Lixo. A portaria de um jornal não dorme nunca, gente entrando e saindo, numa espécie de formigueiro. Mas com formigas especiais, as chamadas formadoras de opinião, o que era bastante diferente. Gente famosa, gente anônima. Importante e desimportante. Os esquisitos e os normais. Mais esquisitos do que normais. Notei um carro que estacionara bem à frente da entrada. Apesar dos vidros fechados e escurecidos pelo entardecer, era possível ver um casal. Conversavam uma conversa final, o passageiro desceria logo. Despediram-se com um beijo no rosto. A porta se abre, e quem? Ela.

Ainda que eu falasse das incômodas sensações que vivi naqueles instantes, nada descreveria meu quase sofrimento. LFT entraria no prédio em poucos segundos, e eu não sabia se me dirigia a ela ou não, afinal, falaria o quê? Oi, Lygia. Ela retribuiria com um sorriso, educada que só ela, os olhos ligeiramente apertados na tentativa da lembrança, Nós nos conhecemos? Mas como não haveria lembrança, e nada mais vindo de minha parte, ela seguiria seu caminho. Eu teria de ser rápida e engatar alguma conversa, teria de ser algo inteligente, algo que a fizesse parar e ter vontade de conversar.

Mas LFT já estava a dois metros, o quê exatamente eu desejaria dizer? Tanta coisa e coisa nenhuma, essa era a verdade. Diria que era sua fã? Coisa mais boba. Perguntar o que ela estava fazendo ali? Um atrevimento. Dizer que já havia lido todos seus livros? Ela, elegantemente, agradeceria. E seguiria. E continuaria com seus pensamentos. Pensei em estender a mão, mas ela poderia se assustar. Falaria de Virgínia, então. Lygia, Virgínia é você? Mas falar assim, no meio de nada, sem introdução, não faria sentido algum, mesmo se a resposta fosse sim (e eu sabia que era). Contaria da pena que senti de Kobold, o anão de jardim, a ponto de ficar com os olhos cheios d’água? Mas se ela estivesse atrasada… Ou se simplesmente não estivesse a fim de ser abordada naquele dia, me olhasse feio e apertasse o passo? Tudo acabaria ali.

E LFT a menos de um metro. Não me recordo se cruzamos os olhares em algum momento daquela sua caminhada, para mim interminável, e ao mesmo tempo de uma brevidade cruel. Respirei – acredito que pela primeira vez desde que a vira descer do carro –, e ensaiei dizer isto: Eu também gosto de gatos. Mas era tarde. LFT já estava lá dentro, aguardando o elevador, e eu jamais fiquei sabendo o motivo daquela sua visita.

Bienal do Livro no Ibirapuera, que ano mesmo? Peguei minha Ciranda de Pedra da velha estante e lá fomos, meu melhor amigo e eu. LFT estaria lá. Eu não queria ver nada além dela. Estava ali por um único motivo. A cegueira da paixão. Avistei-a em uma mesa, ela conversava com seu editor. Ambos de cachecol, ah como eu desejei ter ido de cachecol também. Só para fazer mimetismo.

Desta vez, ao contrário do primeiro (des)encontro, era eu quem me aproximava. Eu dominava a situação. Deixei o assunto dos gatos para lá, também não era hora para Virgínia, nem Kobold. Aguardei uma pausa na conversa dos dois, aproximei-me. Eu teria algo a dizer, enfim. Lygia, você pode autografar para mim? Ou: Lygia, este é o seu romance mais lindo. Mas veio dela o olá primeiro, arruinando tudo, e agora? LFT resolvera tudo por mim e sem que eu dissesse nada, perguntou meu nome e num gesto melífluo – e eu sei que ela gosta dessa palavra, melífluo – pegou o livro e o abriu sobre a mesa. Eu disse meu nome. Ela não entendeu. Repeti, já sentindo minha pele mudar a temperatura, a voz querendo embargar, o coração esquisito, minhas velhas e conhecidas sensações. Talvez por conta disso, ela novamente não entendeu. Foi como se todos aqueles livros ao redor desabassem sobre mim, todas as pessoas daquele imenso pavilhão assistindo à constrangedora cena, quase pude ouvir um Oohh coletivo e consternado. Não é um nome tão popular como Maria, mas também não é dos mais incomuns. Dona Angelina e Seu Antonio, naquele outono de 1967, pensavam no nome para a caçula, e escolheram um que combinava com os dos outros dois rebentos. Capricharam tanto que a primeira sílaba ficou igual para os três. Conheci poucas com meu nome, e até hoje soa estranho ouvi-lo chamando outra pessoa.

Foi quando me inclinei sobre seu ombro e repeti meu nome em seu ouvido, como quem conta um segredo. Ela murmurou, Ah… E pôs-se a escrever. Justamente na página onde ainda havia o preço do livro, escrito a lápis, que eu nunca apagara. As livrarias faziam assim antigamente.

Ela devolveu-me o livro com um beijo, que não pude sequer sentir, o rosto em brasa, o pensamento congelado. Não me recordo de mais nada daquela bienal, apenas tratei de seguir meu amigo. Apertei a Ciranda com força contra o peito, o medo que o autógrafo escapasse, as letras fugissem para o chão e desaparecessem no labirinto de livros. Até hoje não sei se por sinceridade ou compaixão, ela deixou-me o seguinte recado:

Para a Silmara, lindo nome!

Lembrança,

Lygia Fagundes Telles