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Mais louco é quem me diz

Arte: Gustavo Peres
Arte: Gustavo Peres

Ela toca a campainha do asilo, é dia de visita. Caminha com seu visitado até o jardim, param ao lado do pé de acerola. Um aparelho de som instalado sobre uma cadeira garante a trilha sonora de chiados; a ausência da antena não incomoda ninguém ali, exceto ela. Bancos de cimento carcomidos formam um semicírculo, estabelecendo a geografia do encontro. Eles sentam-se lado a lado. Na pauta, passado e presente. O futuro chegou faz tempo, trazendo seus velhos. É sábado.

Uma senhora que mora ali passa pelos dois, resolve entrar na conversa. É a visita dentro da visita. Escolhe seu lugar na quase roda, se apresenta. Beira os setenta anos, está cheia dos colares, dos anéis. A velha interfere no encontro, como os chiados do rádio interferem na tarde de sábado. Ela modifica a pauta estabelecida, mas não se acanha; segue contando sua fabulosa e não menos carcomida vida. Eles vão lhe dando corda.

Diz que participou da última edição do Big Brother Brasil, mas saiu antes do final. “Muita fofoca”. Pergunta três vezes o que ela é dele. Avisa que precisa descansar, tem gravação logo mais. Gravação? A novela das sete, ela é uma das atrizes. “Não assiste?”. Levanta-se, ajeita um dos colares e se despede dos dois, que permanecem nos bancos de cimento. Antes, ela faz questão de anunciar: está grávida. O bebê nasce por esses dias, é um menino. O pai? Roberto Carlos. É, o rei.

A bailarina

Ilustração: Joel Ormsby/Flickr.com

Desde que não viva comigo, nem me deva nada, eu gosto de quem inventa a própria realidade e vive de acordo com ela, nenhuma outra. De quem gira noutra órbita, vibra noutro padrão e não quer nem saber quem pintou a mula preta. De quem está à margem, alheio às estações, sem saber que dia é hoje ou o que vai comer amanhã. De quem não se rende ao esquadro, mesmo que não saiba o que é isso e, de uma forma ou de outra, aguenta as consequências. Como a bailarina da rua.

Não pergunte por que lembrei. Tenho tantas coisas arquivadas na cabeça, procuro uma e vem outra. Centro velho de São Paulo. Avenida Ipiranga, Praça da República, Avenida São Luiz, algo de Edifício Itália, não lembro com exatidão. Só sei que foi por ali. Minhas lembranças visuais, vez por outra, não têm legendas.

Sendo assim, uma parte desta história foi pras cucuias, já que não lembro o que eu fazia, se estava calor ou frio, aonde fui depois. Estimo que tenha sido na década de oitenta, quando eu perambulava pela região praticamente todo santo dia. Não importa, porém. Um fragmento desse arquivo mental está intacto. O fundamental, o que resistiu ao tempo.

Em frente a uma dessas joalherias classudas – quando elas ainda se instalavam com razoável tranquilidade nas ruas – eu vi uma mulher. Jovem, maltrapilha, jeito de mendiga e ares de doidona. Diante da vitrine milionária, ela protagonizava um delicado balé. Ora atenta aos quilates em exposição, ora obcecada pela própria imagem refletida no vidro transparente, blindado à prova de pobreza. Nos braços, um amontoado de trapos, gentilmente embalado em carinhosa coreografia, como se houvesse ali um bebê. O bebê que, talvez, tivera. Ou que sonhava um dia ter. Ou nada disso, eram apenas seus farrapos mesmo. Às vezes, a gente põe poesia onde só cabe prosa.

Quem sabe a bailarina da rua já não usara um diamante? Assim como tem pobre que endoidece se fica rico, também tem rico que amaluca se empobrece. Que será que ela via na vitrine, além do evidente? Sobretudo, o que ouvia? De quais notas era feita sua sinfonia?

No balé-solo da Dona Doida, monólogo de loucura e diversão, a calçada era seu palco. As jóias, o luxuoso cenário. A cidade, o imenso teatro, plateia e camarotes. Quem mais comprou ingresso, além de mim?

Numa joalheria nada custa pouco. Dançar em frente a ela, no entanto, é de graça.