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7 – 11 – 12 – 23 – 29 – 45

Ilustração: Kenny Cole/Flickr.com

Sete. Onze. Doze. Vinte e três. Vinte e nove. Quarenta e cinco. Foram os números que, com uma caneta amarrada a um fio de nylon, e este preso ao balcão, marquei nos quadradinhos do volante. Preenchi-os com determinação, enquanto procurava, com a força do pensamento, torná-los especiais. Os lotéricos fazem assim com as canetas para que ninguém as leve embora. Por desatenção ou má fé. O que, no segundo caso, é o cúmulo da ironia: milionários em potencial furtando uma caneta.

Olhei para a sequência escolhida. Tem gente que escolhe os números pela figura que os quadradinhos formarão. Cruz, quadrado, inicial do nome. O que só vale se é letra simples, como um L. Os meus não formavam nada. Não tinham significado algum. Não foram revelados em nenhum sonho profético. Não representavam uma data, nem a idade dos filhos, nada. E o acaso lá sabe dessas receitas? Entreguei-os à moça do caixa. Não, eu não queria participar do bolão. Dali para frente, era com Deus.

Ganhar ou não ganhar, eis a questão. Todo mundo tem uma listinha mental do que fazer com um saldo tão comprido, difícil de dizer. Encabeçada, quase sempre, por desejos pouco criativos, como quitar as dívidas, passar um ano viajando. Ninguém pensa em chamar os Rolling Stones para tocar em casa (na casa nova, claro). Ou colocar um envelope-surpresa sob a porta de cada uma das casas da rua.

Lembrei de uma vez, conversando sobre o assunto com o sapateiro lá do bairro onde eu morava. Ele disse, enquanto procurava numa caixa um salto igual ao da minha bota, que havia quebrado: “Dinheiro não traz felicidade. Quem faz isso é o Visa”. Ri mais uma vez e voltei para casa. Dobrei o bilhete e guardei-o no vaso de pedra-sabão.

À noite, quando me deitei, vi o arcanjo Gabriel encarapitado sobre a TV. Veio dar a boa nova: achava que eu ia ficar rica. Ouvimos uma risadinha na varanda. Afastei a cortina, era o arcanjo Miguel. Que sentenciou, enquanto recolhia as florzinhas secas do manacá: só acertará as dezenas quem compreender que é no andar da carruagem que as abóboras se ajeitam. Disse que, esta semana, foi esse o acordo no céu. O Gabriel ficou bravo, dizendo que não era nada daquilo, e que o Miguel nem estava lá quando eles decidiram. O Miguel soprou as florzinhas murchas, que viraram pequenas estrelas, cruzou os braços e encarou o colega, dizendo que ele não precisava estar presente para saber das coisas. E continuaram o bla-bla-bla. Sobrou até para o arcanjo Rafael que, coitado, nem estava lá.

Então é assim que funciona. Está explicado porque é uma chance em cinquenta milhões. Pedi para os dois ficarem quietinhos e desliguei o abajur. Até anjo fica sem ter o que fazer, de vez em quando.

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