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Aurélio e eu

Arte: Tony Alter
Arte: Tony Alter

Gosto dos dicionários de papel. Aquele livrão de folhas fininhas e letras miúdas, a bíblia de uma língua. Abarco a tecnologia disponível a meu favor, mas no mundo dos significados não dispenso o tatear. Com as ideias na ponta da língua e as palavras nas pontas dos dedos, ou vice-versa, as sinapses ficam mais divertidas. Porque quando procuro uma palavra, na verdade, estou em busca de várias ao mesmo tempo. E nem me dou conta disso.

O meu dicionário de língua portuguesa é antigo. Tem a capa meio solta, quase posso ver-lhe as entranhas. Serve-me bem, ainda. Para tirar dúvidas da reforma ortográfica, no entanto, lanço mão de um arquivo eletrônico. Escrevo uma palavra no passado e outra no presente. O futuro é verbete em construção.

Quero saber o que é grosa. Abro o volume aleatoriamente, para saber se devo ir avante ou não. De tanta consulta, adquiri uma habilidade; invariavelmente, caio na letra desejada. Sei que o L é mais ou menos na metade. Um pouco antes, o G. Um pouco depois, o P. Passeio pelas páginas; vou muito para frente, avisto alguma palavra nova e desconhecida, paro para ver. Atraso a tarefa. Também, quem manda querer saber que diabos significa grugutuba. Volto. Gê-érre, gê-érre-ó, gro, grosa.

A relação com o dicionário de papel é uma espécie de namoro e, como tal, há que se investir nele tempo e paciência. Flerto com as palavras e elas comigo; se perguntarem, “estamos nos conhecendo melhor”. Diferente do dicionário eletrônico, que é pá-pum, não tem preliminar. Vai-se direto aos finalmentes. É a rapidinha linguística, que também tem seus adeptos. Eu prefiro um demorado caso de amor com a língua-pátria, revisto e ampliado diariamente.

Em tempo: grugutuba é um tipo de feijão.

A grosa? Bem. A grosa vem depois de gronho e antes de groseira.

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Falou e disse

Arte: GM Nikolaidis

Levei um bocado de tempo para descobrir que a tia Tervina, aquela senhora doce, rechonchuda, que morava em Casa Branca e tinha um quadro de Jesus Cristo na sala, se chamava, na verdade, Etelvina. Talvez não haja registro de que ela tenha sido chamada, algum dia, pelo seu nome original.

O mesmo se deu com minha prima Duvirge. Passamos a vida, eu e a família toda, chamando-a assim. Já moça, descobri, não sem algum espanto, que seu nome de batismo era Edwiges, em homenagem à santa protetora dos pobres e endividados. E foi bobagem eu tentar corrigir a pronúncia, depois. Ninguém sabia de quem eu estava falando. Nem ela.

Para algumas famílias – caso da minha – , a tradição oral é muitíssimo mais forte que a escrita. Mais que meros apelidos, ela inventa novos nomes, perpetuados pelas gerações. Pudera, quase nenhum dos meus antepassados sabia ler ou escrever. Imigrantes, a maioria foi para a roça cuidar do café e tinha mais o que fazer em vez de se dedicar ao beabá. Juntou-se à condição de analfabetos (ou quase isso) um sotaque interiorano, e deu no que deu. Valia o que era dito. E não se falava mais nisso.

As duas – tia e prima – pareciam não se importar em ter seus nomes corrompidos. Nunca as vi corrigindo seus interlocutores. Quando eu era bem pequena, havia no programa do Sílvio Santos uma jurada (as pessoas que decidiam se o calouro era bom ou não) bem popular, chamada Gilmara Sanches. Era eu dizer meu nome e as pessoas o confundiam com o dela. Eu olhava feio, sempre.

Um dos causos dessa oralidade particular, porém, não teve relação com os nomes da parentada, e sim de um logradouro. Eu e minha irmã, bem novinhas (ou nem tanto), queríamos enviar uma carta para outra prima que morava longe. Era um tempo inimaginável, sem e-mail, celular ou rede social. Só para dar um alô, saber notícias de todos. Pedimos ajuda ao vô Paschoal, o único que sabia o endereço. Ele ditou, com seu sotaque ítalo-caipira, e nós escrevemos direitinho no envelope.

A avenida Melvin Jones, que fica na cidade paulista de Mogi-Guaçu, era, no seu entendimento, “Mervin Júnior”, em “Mogin-Guaçu”. E foi com essa grafia que a carta seguiu caminho. O fundador do Lions ou revirou-se no túmulo, ou sacudiu o esqueleto de tanto rir. E, por milagre, sorte ou dedicação do carteiro, a missiva chegou ao seu destino. Ao que a prima logo escreveu de volta, dizendo que estavam todos bem.

A tia Tervina e o vô Paschoal, que eram irmãos, já se foram. Não vi mais a Duvirge, nem a prima de Mogi. E a Gilmara Sanches caiu no esquecimento. Melhor assim; ninguém mais erra meu nome.

Escreveu, não leu…

Ilustração: Gustav Söderström/Flickr.com

Desde o momento que ganhei um smartphone, desses que fazem interface com Deus e o Diabo (às vezes, mais um que outro), tenho convivido com um professor de português pró-ativo mas, não raro, equivocado. É o corretor ortográfico, mestre em linguística embutido na engenhoca e que tem me dado um trabalhão. Tenho a opção de ativá-lo ou não. Porém, de razoável utilidade em casos de pressa aguda, ainda não me senti forte e determinada o bastante para dispensá-lo.

As aulas iniciam assim: entabulo a prosa com a comadre pelo SMS, sem notar que algumas palavras digitadas vão sendo substituídas por outras, que ele julga, de acordo com sua experiência e sabedoria, mais convenientes. Oh oh. Nem sempre ele está certo. Às vezes, é tarde demais. Há que se enviar nova mensagem: “Estou lesada”, explico, e não “Estou ‘mesada’”. Esclareço que preciso traçar um açaí duplo, e não um ‘Havaí’.

Ainda pelo smartphone visito, na rede social, a página da amiga na intenção de saber como foi a cirurgia do seu ciso. Ela responde que, felizmente, não precisou operar seu ‘riso’. (Só rindo.)

Comento a postagem bem-humorada de um fulano e risada vira ‘rodada’.

Compartilho que o cantor foi mal no show e ninguém entende, porque vaia virou ‘caia’. Um tombo, então? Eu, no passado, já vangloriei minha capacidade de datilografar rápido e certo.

Acesso o email para informar, em tempo real, que o amigo passou mal e foi levado de maca para o hospital. Concluo a mensagem e clico em “enviar”. A notícia espanta os destinatários, que devolvem: levado de ‘maçã’?

É a era das retificações ortográficas virtuais.

Donos da verdade, os corretores desses aparelhos pensam saber o que é melhor para nossas conversas e manifestações no ciberespaço. Sugerem vasto dicionário de possibilidades, mas sempre batem o pé que a primeira grafia é a melhor. E, num instante de descuido, zás!, assumem decifrar nosso pensamento. Nessa toada, não está longe o dia em que os smartphones terão ideias por nós. Pior: num belo dia eles resolverão ligar, por conta própria, para todos os contatos da nossa agenda. Sabe-se lá o que dirão a eles.

Smartphones levam a sério seu nome, estão ficando demasiado inteligentes. Alto lá: quem manda na minha vida sou eu e o lema é extensivo à minha escrita. O corretor ortográfico pode estar cheio de boas intenções. Porém, vide a antológica frase a respeito delas e o inferno. Seu slogan deveria ser o velho “Escreveu, não leu…” – e eu nem quero ver como é que ele completaria a frase.

Crônica de minuto #24

Falei palavrão – dos cabeludos – na frente da cria. Saiu, escapou, fazer o quê. Eles me enlouquecem quando fingem não me escutar. Pedi oito vezes para colocarem o uniforme, hora de ir para a escola. E eu tinha reunião em seguida. Gente grande é escrava do relógio. Gente pequena, da brincadeira. Tempo e diversão são coisas que não combinam. O palavrão foi o jeito que meu cérebro encontrou para resolver a parada, aplacar a fúria, impedir uma implosão. E, claro, evitar o atraso.

Os dois me lançaram um olhar de incompreensão. Então pode?

Incoerência materna é bicho de muito mais que sete cabeças. Faça o que eu digo, mas não fale o que eu falo. Um bom palavrão na hora certa é bálsamo para o coração em ebulição. Por que esconder isso da criança? O que há, afinal, por trás do bom-mocismo linguístico?

Lancei mão do silêncio para lidar com o desconcerto dos pequenos. Não fiz a emenda; o soneto já estava destruído. Porém, se é que alguém quer saber, funcionou: os dois se vestiram em segundos. Assentar o episódio aqui dentro levou mais tempo.

O dersubu das amensons

arte: Károly Kiripolszky
arte: Károly Kiripolszky

Tente concluir alguma operação na internet – qualquer uma: deixar comentário no blog da comadre, comprar um livro ou enviar um simples email – e lá estarão elas. Implacáveis, desafiadoras da sua acuidade visual, insensíveis à sua pressa e, sobretudo, descrentes de que você é você. São as palavras de verificação, remédio amargo inventado para combater a doença do spam. Prescrito a todos, sem exceção. Até para quem não apresenta sintoma algum. Prevenção pura. É assim nas epidemias.

Como num jogo eletrônico, a função da palavra de verificação é impedir que você passe de fase. Um malévolo programa tentará lhe confundir: é um “i” maiúsculo ou um “L” minúsculo? A letra ó ou o número zero? Ele borrará o fundo, enfiará rabiscos no meio, distorcerá as letras. Sacaneará você, sem cerimônias. Um carrasco virtual, inexplicavelmente piedoso: serão-lhe concedidas quantas chances, ou vidas, você precisar. Ao detectar seu erro, outra palavra se apresentará e, diante do segundo equívoco, nova mistura alfanumérica, igualmente incopiável. E assim sucessivamente. O verdadeiro intuito não é auxiliá-lo, e sim testar seus brios. Checar até onde você está determinado na sua intenção. Até a hora em que seu chefe se planta ao seu lado, o telefone toca ou seu filho prende o gato no armário, e você deixa a verificação para lá. Não era nada tão importante assim. Depois você telefona para a comadre. Vai até a livraria e compra o dito cujo. Manda uma carta pelo Sedex. Mais fácil.

As palavras de verificação não são exatamente palavras. Oficialmente, são “imagens”. Para livrar dos tribunais quem as inventou, evidentemente. No entanto, se o objetivo é detectar se tem gente do lado de cá do computador, é incompreensível que não surjam de forma simples como banana, arara, cogumelo, casa. Não: tem que ser o indecifrável dersubu. As enigmáticas obvent e pargampu. A etérea amensons e a indizível muthst. Para não errar, você se concentra e, usando apenas o indicador, digita uma letra de cada vez. Confere na tela e, estando tudo correto, parte para a próxima letra. Sensação idêntica, para os mais velhos, a da primeira vez a sós com uma Olivetti.

Você fica na dúvida se a tecnologia está, de fato, a seu favor. Ou se é um movimento organizado em prol do idioma da nova era, conduzido por extraterrestres detentores de alta tecnologia, infiltrados em nosso planeta. Justo agora, que você aprendeu a se expressar em cento e quarenta caracteres e já havia se conformado com o huashuashua das mensagens instantâneas.

O futuro é incerto. Melhor se preparar.

Rapidinha

Ilustração: Christy Hydeck/Flickr.com

Você telefona e a pessoa do outro lado da linha, de imediato, informa:

– Estou numa reuniãozinha.

Duas mensagens claras: a pessoa não pode falar agora, e a reunião é com os subalternos ou com os pares. Fosse com o superior, não seria reuniãozinha. Aliás, nesse caso a pessoa nem atenderia. Ou nem uma coisa, nem outra, é mentira. A pessoa está jogando paciência no computador e não quer prosear.

Você confere as vitrines. Entra, por acaso, numa das lojas. Passa a mão num casaco, só para sentir a textura, e a vendedora aparece para oferecer ajuda. Sua resposta:

– Só estou dando uma olhadinha.

A olhadinha rende. Você acaba experimentando o casaco, mas não está tão determinada assim a efetivar a compra. Agradece a vendedora, ajeita a bolsa no ombro e avisa, já em direção à saída:

– Preciso dar uma pensadinha.

A amiga, de última hora, convida você para o aniversário dela. Não será nada especial, ela não ia comemorar, mas o namorado insistiu, então vão todos a uma pizzaria. Você finge entusiasmo:

– Vou dar uma passadinha.

O marido interrompe seu banho, e lhe mostra a página vinte e cinco da revista:

– Depois, dá uma lidinha.

É coisa importante, melhor prestar atenção. Pode ser um artigo sobre tensão pré-menstrual, uma matéria ensinando a lidar com a birra dos pequenos ou uma promoção de TV LCD, aquela que vocês ensaiam comprar desde a última restituição do imposto de renda.

Não se trata do mamanhês, o tatibitate oficial de pais e mães (tias, eventualmente) na comunicação com seus rebentos, usando e abusando do diminutivo. Tampouco é uma característica exclusiva das pessoas que adotam o “inho” e a “inha” com freqüência em seus diálogos. Não, não. Gente de todo tipo, tamanho, idade e sexo esbarra no vício da palavra diminuta, vez por outra. É preciso registrar, no entanto, que o vício não apresenta justificativa. É sem necessidade, mesmo. Poderia ser reunião. Olhada. Pensada. Lida.

O que estará por trás do insondável diminutivo casual? Se para cada uma das suas aplicações pode ser atribuído um significado diferente, a teorização a respeito dele se mostra impossível. Tentemos. Um: ele está, notadamente, associado a um verbo. Dois: geralmente, é precedido do verbo dar. Três: tem relação com tempo. A pessoa não tinha tempo para atender aquela ligação. Você precisava de tempo para decidir se comprava o casaco ou não. Se desse tempo (ou vontade), você iria à pizzaria. Sobrando tempo, seria importante você ver a página vinte e cinco. Quatro: ainda sobre tempo, sugerindo que a ação é ou será breve. Era uma reunião rápida. Uma olhada rápida nos casacos. Uma passada rápida na pizzaria. Não levaria muito tempo para ler a página vinte e cinco.

Paro por aqui. Para justificar o título da crônica. E também porque já passa da meia-noite. Bateu soninho.

Língua

Ilustração: Maria G./Flickr.com

Quando a rua tem muito buraco, não há alternativa: é preciso reduzir a marcha. O que dá outra dimensão ao trajeto, ao nosso olhar e à própria rua. A gente, que se acostumou a fazer do carro uma extensão dos pés, passa rápido demais pelas coisas. Não dá tempo de notar nada.

Naquele dia fui pela rua de baixo, para variar. Feita de terra, ela não é um convite à habitual pressa que, como dizem, não vai muito com a cara da perfeição. Muito menos depois de um chuvão como aquele da semana passada. Mas quem é que queria perfeição naquela hora? Fui devagar, como pedia a circunstância. A cachorrada zanzando tranquila. As vizinhas que nunca vi, trocando cachos de banana verde. A primavera púrpura explodindo em flor, formando um arco impressionista na entrada de uma casa. E uma menina escalando o muro com tanta agilidade que parei para assistir. Ela já estava com uma perna do lado de lá, quando me viu. Não teve dúvida: mostrou a língua. Escondeu um sorrisinho maroto e desapareceu do outro lado.

De marca registrada de cientista com cara de maluco a logotipo de banda de rock, botar a língua para fora sempre foi atitude de irreverência, deboche, provocação, brincadeira. Toda criança faz, mesmo sem saber das teorias: faz porque é gostoso. Mas engana-se quem pensa que isso é coisa de criança. Mostrar a língua é, acima de tudo, coisa de gente. Só que a gente vai parando de mostrá-la enquanto cresce. Quando foi a última vez que você mostrou a sua, sem ser para o dentista? Pensando bem, quem fala a sua língua? De que jeito você traduz suas coisas? Como é que você conta para os outros a sua felicidade? Que palavras você usa para amar? Quais são os advérbios da sua tristeza? Que tipo de gramática rege seu discurso? Como é a ortografia da sua história? Qual é, afinal de contas, a sua língua?

Tem língua que vive solta. Sem papas, comprida, vai se enfiando aqui e ali, sem medo de nada. Tem língua que, coitada, está presa. Seu delito: ter falado demais. Acabou detida na boca. Tem a língua da sogra, mas não tem a da nora. Tem a língua de gato. Tem o gato, que toma banho de língua. Tem a língua que separa os mundos. E sempre haverá alguém pagando a língua.

Será que a menina do muro estava me dando algum recado? Ah, se eu falasse a língua dos anjos.