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De outro mundo

Ilustração: Marina Cuello/Flickr.com

Eles estão entre nós. Se parecem com nós. Mas não se engane: eles não são como nós. São seres, só que não humanos. São uma raça superior. Não se sabe ao certo qual seu planeta de origem, nem o que vêm fazer aqui. A única certeza é que são dotados de extrema resistência física e emocional e apresentam sabedoria multidisciplinar acima do comum. Porém, para que levem uma típica vida humana que inclui, entre outras coisas, contas a pagar, eles têm de trabalhar como todo mundo. E, talvez numa espécie de provação, lá vão eles se empregar nos hotéis e resorts. São os recreacionistas. Aquela turma de bem com a vida, imbatível na hora de manter a criançada ocupada.

Recreacionistas são extremamente hábeis em cuidar dos filhos dos outros, mesmo quando impera a diversidade: um pode sujar a roupa, outro não; um está autorizado a tomar sorvete, o outro não, está com tosse; um vai ao banheiro sozinho, o outro só acompanhado. Em ação, eles lembram aquele coelhinho do comercial de pilha, que continuava tocando tambor todo animado enquanto seu companheiro já havia arriado.

Aliás, eles devem, de fato, ser movidos a níquel e cádmio. Onde ficam as suas baterias – e como fazem na hora da piscina – é segredo estelar. Para disfarçar, eles fingem que comem arroz e feijão na hora do almoço. Mas a fonte de energia deles é outra. Como são wireless, devem passar a madrugada grudados em tomadas nos alojamentos. Caso contrário, não há explicação para tanta disposição. O dia mal começa, eu nem termino de ler a programação no mural de avisos e já estou exausta.

Eles preparam os barcos, organizam caminhadas e botam todo mundo para fazer arborismo. Sabem velejar, patinar, andar a cavalo, de bicicleta, de jet ski. Nadam, escalam e ordenham vacas. Acendem fogueiras e fazem marshmallow. Conhecem a letra de todas as músicas. Dançam – assim, assim – qualquer ritmo. Recreacionistas não têm problema, não sentem sono, fome ou cansaço. Não sofrem com dores de cabeça ou dente. Não choram, não reclamam. Não deixam escapar um “ai meu Deus” se o bicho pega. Não bocejam. Repetem, sem nenhum sinal de enfado, as mesmas informações a cada novo e curioso hóspede – quem é o dono do hotel, quantos apartamentos existem ali, os horários do café-da-manhã, almoço e jantar. Não sofrem de corazón partío. Pudera. Vão namorar a que horas?

Recreacionistas são capazes de estimar, precisamente e apenas com um olhar, a idade das crianças. Pediatra nenhum é tão bom nisso. Com igual facilidade, encaram qualquer tarefa. Amarram cadarços de tênis. Ajeitam sunguinhas do Homem Aranha e maiozinhos da Hello Kitty. Aplicam protetor solar. Não ligam de passar horas na piscina de camiseta e bermuda. Partem o bife. Ajudam com o canudinho. Ensinam a fazer peteca, transformam balões em cachorros e espadas. Levam, de bom grado, a pirralhada trinta vezes ao banheiro no intervalo de uma hora. Inventam um cinema à tarde, e são craques em driblar as animosidades se um quer ver uma coisa, outro quer ver outra. Fazem mamadeira. Ninam os mais novos e, ao devolvê-los às mães, avisam: “Troquei a fralda”. No fim do dia, na sala das brincadeiras, recolhem toneladas de letras e bichinhos em EVA espalhados pelos cantos. Ninguém diz que um tornado passou por ali horas antes.

Talvez os recreacionistas sejam, simplesmente, missionários. Conheci um que trabalhou por anos na Disneylândia, acompanhando grupos de adolescentes viajando sem os pais. Esse é pós-graduado em tolerância. Mestre em calma. Doutor em paciência. Uma emanação de Buda.

Ao contrário dos garçons, que são da turma dos invisíveis, junto com os camareiros e jardineiros, recreacionistas são superexpostos. Disputadíssimos, são requisitados a informar seus emails para meio mundo. Têm de aceitar pedidos de amizade no Orkut e Facebook. São seguidos no Twitter, convidados para aniversários. Fazem inveja ao Roberto Carlos. Eles, sim, têm um milhão de amigos.

Morro de curiosidade para saber o que pensam e o que conversam quando o pano cai, o show termina e eles se recolhem ao alojamento. Pensando bem, melhor não saber. Recreacionistas são a salvação da lavoura, cuidando das sementinhas enquanto os pais ficam de papo pro ar. O melhor presente para eles? Difícil saber. Deve ser  o check-out.

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