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Ferro de passar pensamento

Ilustração: J.D. Welch/Flickr.com

Deixei os edredons na lavanderia, acabou o inverno. No dia de buscá-los, esperando minha vez de ser atendida – a moça à minha frente retirava uma dúzia de vestidos, conferindo um por um –, prestei atenção à funcionária que passava as roupas lá dentro. Modo de dizer; eu a assisti. Penando sem empregada, me embasbaquei com sua destreza com o tailleur, invejei sua rapidez com a calça social. Acima de tudo, me espantei com sua serenidade diante da coleção de ternos amarfanhados que a aguardavam na fila. No quesito paciência, eu quis ser ela.

Logo entendi: ao seu dispor está uma engenhoca pós-moderna maior que o lavabo da minha casa, com um ferro esquisitão acoplado a uma prancha high-tech – que em nada lembram minha humilde tábua de passar adquirida no camelô e o Arno financiado em três vezes no cartão –, inflando e desinflando a um simples comando do seu pé. Ao fazer isso, a prancha suga a roupa sobre ela, deixando-a esticadinha, pronta para receber o vapor que a deixará perfeita. Braços especiais para mangas rebeldes, cabides e araras que colaboram e mantêm passado o que acaba de ser passado. Tecnologia de planeta mais avançado, evidentemente. Suspiro.

Puxei assunto, a conferência da cri-cri ia longe. Ela contou que passa uma camisa em quatro minutos. Num dia, chega a passar cinquenta. Perguntei se ela precisa de antidepressivos. Aplaudi ao vê-la lidar com o paletó, que parecia querer tirá-la para dançar, de tão gentil em suas mãos. Quis comprar a máquina, “Pago bem”. Pedi emprestada. Cogitei entrar para o mundo do crime. Depois me lembrei que ela não caberia na minha diminuta área de serviço.

Nem liguei para a dona que resmungava a cada vestido examinado (o plissado de um não tinha ficado bom, a gola de outro estava torta). Eu ficaria horas assistindo à passadeira, com o entusiasmo de quem presencia uma apresentação do Cirque du Soleil. Passar bem uma roupa é tão difícil quanto encarar o trapézio, tão mágico quanto um show de ilusionismo. E a lavanderia nem cobra ingresso.

Vinte minutos depois, saí equilibrando meus edredons. Ao enfiá-los no porta-malas, a revelação: ora, a passadeira está bem equipada, é por isso que tudo fica fácil. Seus apetrechos foram projetados para simplificar o seu trabalho. Doze horas de treinamento na franqueadora e, dali para frente, era mamão com açúcar.

***

Nem sempre me vejo equipada para a vida. Talvez por isso, às vezes, tudo pareça mais árduo. E se eu tivesse uma lavanderia na cabeça para deixar as ideias novinhas em folha? Um ferro de passar pensamento? Que eliminasse o vinco dos velhos hábitos, alinhasse as fibras emaranhadas das vontades doidas, desse vigor à costura diária das experiências. Uma ferramenta de viver, não de passar pela vida. De preferência, não tão implacável como ferro, nem tão suave quanto algodão. Sob medida, porém, para a vida no 220.

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