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O bigode do gato

gato-bigode
ilustração: Laura Hughes

Súbito, o gato interrompeu a soneca, esticou o pescoço. Empinou o focinho, cerrou de leve os olhos e investigou o vento.

Bife fritando ou dono chegando? Chuva vindo ou cachorro passando? É pelo vento que os gatos se informam. O vento traz as notícias que ainda não foram publicadas. Equipados com bigode-antena, eles ficam sabendo antes.

Eu não sei decifrar vento. Não entendo o que diz. Perdi essa capacidade quando passei a calçar sapatos, vestir roupas e comer comida de pacotinho.

Gatos não usam sapatos, nem roupas. E, embora a maioria coma ração, que vem em pacote, ainda assim mantêm a conexão primitiva com o universo. Eu não sou conectada ao universo – exceto quando estou com meu smartphone. Está claríssimo de onde vem o gê de 4G.

Quando era criança, aprendi na aula de ciências que vento é ar em movimento. Bah! Definição mais pobre. Vento é mais que isso. É por ele que Gaia nos conta as novidades, faz súplicas, avisa dos perigos. O vento é a mensagem.

Gatos já nascem sabendo disso, sem ninguém nunca lhes ter ensinado. Certamente, são os bigodes. Ah, o que eu não faria se também tivesse bigodes superpoderosos.

Desta vez, aparentemente não era nada importante. O bichano voltou à soneca.

Mas eu me mordo de ciúme

arte: Mr. Onz

E o gato estabeleceu que eu sou só dele. Até que a morte nos separe, sou dele e ponto final. Ciumento, na falta de palavras para fazer valer seu unilateral juramento de fidelidade, ele se vira como pode: faz xixi no meu lado da cama, na porta do meu armário e, eventualmente, em mim.

Especialistas em comportamento animal limitam-se, nesses casos, à reza aprendida nas enciclopédias de medicina veterinária: é marcação de território.

Eles não conhecem o Beto.

Beto é o mais velho da casa. Embora já tivéssemos gatos quando ele veio, trazido pela vizinha que não sabia o que fazer com aquele filhote de siamês que perambulava pelo condomínio. Dá-se bem com todos, humanos ou não, é o amigão geral da nação. Não à toa, seu sobrenome ficou sendo Boa-Pessoa. Beto Boa-Pessoa. Divide a casa com outros três felinos, dois machos e uma fêmea. Todos zanzam pela casa sem restrições, tudo é deles também. Dormem em nossas camas, descansam nas cadeiras sob a mesa de jantar e outros locais menos convencionais, tiram longas sonecas no sofá, instalam-se sobre a máquina de lavar roupa independente se é dia de lavanderia, não pagam aluguel, têm aposentadoria garantida, sombra e água fresca. São amados, felizes e nos fazem felizes.

Com regalias, Beto é o único autorizado a passear comigo na rua. Diferente dos outros, ele não se escafede assim que abro a porta. Ao contrário, fica serenamente rolando na grama, cheirando as flores, observando os passarinhos; não sai do meu campo de visão e atende meu chamado para voltar. Os outros, se encontram brecha, se pirulitam e só retornam horas depois. Aqui somos adeptos da meritocracia.

Ele é meu gato-celebridade no Instagram, inspiração e personagem de crônicas. Recito-lhe poesias, tiro-o para dançar. Será que a fama lhe subiu à cabeça? Sou sua dona, sua luz, raio, estrela e luar, seu iaiá, seu ioiô. Natural que ele confundisse as coisas. Sim, eu o amo. Mas, como diriam, para evitar confusão, “como amigo”.

Que mais, ó Bastet, deusa protetora dos gatos e das mulheres, devo fazer? Se até já lhe dei florais e, que não me ouçam, ofereci passar a escritura da casa para seu nome (a fim de sensibilizá-lo no lance do território), desde que ele parasse de regar os móveis. Não adiantou.

Como a separação está fora de questão, o jeito é caprichar no desinfetante e orar para que Beto se convença que não sou dele. Porque não sou de ninguém. Nem de mim.