Arquivo da tag: independência

Rodinhas

arte: Reuben Whitehouse
arte: Reuben Whitehouse

Quando avistei, ao longe, meu filho andando de bicicleta, notei. Faltavam dois elementos na cena, tão cotidiana: as rodinhas laterais. Ele tinha cinco anos e o pai acabara de removê-las. O pequeno estava pronto para duas rodas.

Depois foi a vez da mais nova, no seu tempo, se despedir das rodinhas.

As rodinhas laterais são o apoio, físico e moral, para quem está aprendendo a pedalar. Têm seu valor. São temporárias, com dia certo para sair de cena. Uns as dispensam mais cedo, outros mais tarde, não importa. A independência e sua irmã mais velha, a confiança, virão.

Ou não.

Há quem prefira manter imaginárias rodinhas laterais a vida toda. Com medo de, sem elas, cair. Medo de não saber viver sem. Medo de levar tombo, de se machucar, do Merthiolate. De se ferrar, enfim.

Desfazer, por exemplo, uma sociedade de anos, cujos sinais de desgaste são evidentes, para inaugurar seu próprio escritório, é tirar as rodinhas e ir.

Anunciar carreira solo, depois de sair da banda que lhe acolheu um dia, mas que não funciona mais, é tirar as rodinhas.

Terminar o velho namoro ou casamento, preso por um fiapo de amor e alguns nós afetivos, é tirar as rodinhas.

Pedir demissão do trabalho entediante, dizer adeus às férias, ao 13º salário e ao tíquete-restaurante, juntar as economias, se enfiar em planilhas e abrir o negócio dos sonhos, é tirar as rodinhas.

Aposentar a escova ou a chapinha diária a lhe torturar as melenas, saber-se livre da ordem estética e andar em perfeito equilíbrio sobre as ondas dos cachos que Deus lhe deu, é tirar as rodinhas.

Para quem cresceu, a casa dos pais e tudo que há nela – segurança, proteção, facilidade – é uma espécie de rodinha lateral. Sair dela é deixá-la para trás. É acreditar que dá para ser dono ou dona do seu nariz e das suas contas. É viver o inenarrável prazer de ter seu canto e, dia sim, dia não, dar uma passadinha ali, só para tomar o café fresquinho da sua mãe. (Às vezes, a dependência não é das rodinhas invisíveis, mas das visíveis roupas lavadas e passadas, do visível almoço sempre pronto, da visível e farta geladeira.)

Dizem que quem aprende a andar de bicicleta não esquece mais.

Sabe-se que quem anda sem as rodinhas não volta mais a usá-las.

Então, experimenta dar uma voltinha sem as suas.

Anúncios

A mão que passa o esmalte

Foto: Eva the Weaver

E eu, que julgava ser uma mulher autossuficiente?

Que jurava por Deus ser capaz de me cuidar sem precisar de ninguém?

Que acreditava ter despontado no século XXI cônscia da máxima cabalista que garante estar em mim o poder para tudo?

Enganei-me bonito: não consigo pintar minhas próprias unhas. Logo, pouco ou nada disso é verdade. Caí do cavalo.

Havia decidido não mais gastar dezenove (dezenove!) reais por semana na manicure para tê-las feitas. É que fiz as contas do investimento, de hoje até o presumido fim dos meus dias, e tomei um susto. Considerando que também tenho pés com o mesmo direito (sem trocadilho) e fazê-los custa mais caro e nunca entendi o porquê, posto ser idêntica a quantidade de dedos.

Tudo pronto: ajeito, com rigor profissional, a parafernália sobre a mesa da sala de jantar. Alicate, lixa, algodão, palito de laranjeira, arsenal multicolorido de esmaltes, acetona, toalhinha, água morna. Trinta e cinco exaustivos minutos de trabalho: acho que tirei cutícula demais, pega mal ir à reunião com Band-Aid do Ben 10? Não domino o pincel, que aparenta ter vida própria. Extrapolo os limites geográficos de noventa por cento das unhas, tento corrigir. Será que acetona estraga a madeira da mesa? O palitinho escapa, derrubo o vidro de esmalte, apanho-o com a unha molhada, pronto, lá se foi mais uma. Esse algodão não presta, gruda em tudo. Alcanço o iPad no canto da mesa, vou no Google, “como remover esmalte de jeans”. Afinal, o que são dezenove reais? Apanho o telefone, Fulana tem horário para hoje?

Eis aqui, à revelia, minha declaração de dependência da manicure.

A manchete futura, no jornal: Dona Silmara Franco, 128 anos, vai ao salão fazer as unhas antes de receber a homenagem do Guiness Book como mulher mais velha do mundo. Não sei como serão os jornais em 2095, nem se ainda existirá o Guiness Book, muito menos se haverá manicures. Só sei que continuarei sendo uma mulher incapaz de esmaltar, decentemente, as próprias unhas.

Meu reino para saber se Angela Merkel consegue fazer, minimamente bem, sua manicure. Ainda que não precise; o ponto aqui é talento.

Com algum ensinamento e algum chão, sou capaz de produzir, processar e preparar meu próprio alimento. Costuro e tricoto minhas vestes, passo roupa com a mão esquerda, desenho um gato com os olhos vendados, tudo com relativa facilidade. Já pintar as unhas… É uma incapacidade definitiva, impassível de evolução. Falta em mim o gene responsável pela valiosa habilidade. Teria meu caso indicação médica para uma ressonância magnética, regressão, terapia de unhas passadas?

Que ninguém venha com coleção de frases do tipo “Querer é poder”, “Supere seus limites”, “Quem acredita sempre alcança”. Nenhuma delas se aplica à automanicure.

Que ninguém questione o hábito, também. Uma mulher de unhas (bem) feitas pode dominar o mundo. Assim que o esmalte secar, claro.

A cada tentativa de virar o jogo – na verdade, apenas três ou quatro, ao longo de quase três décadas de esmaltação – a história se repete. Diante do kit manicure sinto-me como uma criança de três anos apresentada ao mundo maravilhoso da tinta guache. Uma artista plástica pós-abstracionismo com referências no movimento punk e sob efeito de alucinógenos. Uma garotinha brincando de cabra-cega no terreno acidentado do parquinho da escola. A ideia de fazer uma poupança com os valores deixados semanalmente nos cofres dos salões vai, invariavelmente, para as cucuias.

Bem que queria, mas não estou nas mãos de Deus, como diz aquele adesivo de carro. Estou, irremediável e eternamente, na mão de quem passa o esmalte.

A pátria amada dos cães

Foto: Chaval Brasil/Flickr.com

Nas comemorações de 7 de setembro não são soldados paramentados, ou bombeiros em tecnológica fardagem antifogo, nem crianças tentando furar o cordão de isolamento, tampouco estudantes convocados para o dever cívico, os que mais se divertem. São os cachorros de rua que acompanham os desfiles.

Cachorro sem dono não vê a hora de setembro chegar. Trata logo de se enfiar no meio da festa. Quer participar, embora não tenha nem vaga noção do que está acontecendo. Lá vai ele, língua de fora como olho adicional para não perder nem uma cena, rabo agitado inventando o ar. Não faz mal se leva um pisão, se atrapalha, se é tocado dali trinta vezes. É espectador dos mais animados. Se for mais dado, quase toma parte na fanfarra. Vira representante da família real, amigo chegado de Dom Pedro I.

No interior, onde o cerimonial é mais camarada, cachorros se misturam às comitivas, lado a lado com os personagens principais. Vão saltando felizes, complementando a coreografia dos desfilantes. Ora se interessam por uma caca na sarjeta, ora farejam um cheiro diferente e deixam a marcha por um instante. Mas logo retomam seus postos. A despeito da eventual fome ou de uma persistente sarna, está sempre tudo bem com eles. Depois dizem que cachorro não dá risada.

Tem os tímidos, claro. Os que sofrem com a agitação, curvam a traseira e buscam refúgio em qualquer beco ou margem plácida, bem longe das bandeiras verde-louras. Brado retumbante não é com eles. Esses, porém, são minoria.

Cachorro é bicho que não sofre de mau humor. Ao contrário de gato, que se dá o direito de acordar, vez por outra, de bode. Gato faz cara de saco cheio quando alguém o incomoda em sua soneca, cachorro não. Cachorro quase sempre topa uma brincadeira. Já gato, nem tanto. Gato é capaz de demonstrar desprezo por seres vivos e objetos. Cachorro gosta de tudo e todo mundo. Gato se lambe. Cachorro baba. Gato é companhia para o cinema. Cachorro, para a novela. Cachorro é funcionário-padrão. Gato faz greve.

Vê lá se gato assiste desfile de 7 de setembro. Quando muito, o faz de alguma varanda ou telhado. Acima de tudo e de todos. Limita-se a observar a parada, achando aquilo uma grande patacoada.

Cachorro é o melhor amigo do Homem. Gato, se falasse, seria aquele amigo que diz o que a gente não quer, mas precisa, ouvir.

Gatos já proclamaram a sua independência. Cachorros, dependentes por natureza, quem sabe, um dia darão seu próprio grito.

[Nota: amo cães. Que não se pense o contrário.]