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Piolho

2016-09-08_23-43-49

A aula mal havia começado e a diretora entrou na sala, anunciando: a professora iria olhar a cabeça de todo mundo. Piolho. A turma se remexeu nas carteiras, o burburinho começou. Congelei, a cabeça começou a coçar. E se eu estivesse com piolho? Seria denunciada, ali, na frente de trinta crianças?

A professora chamou um por um à sua mesa. Os minutos se transformando em horas. O sofrimento da espera era maior do que qualquer véspera de prova de matemática. Em pé, ela vistoriava as cabeças com ajuda de dois lápis, separando as melenas. E o nojo de colocar as mãos naquelas cabecinhas, sabe-se lá como eram cuidadas em casa?

Chamou a Angélica. Menina estudiosa, obediente, sempre tirava notas boas. Não tinha perfil de piolhenta. Naquele dia ela estava de banho recém-tomado, os cabelos ainda úmidos, cheirando a xampu. A professora, baseada no asseio evidente, nem prosseguiu com a inspeção e a liberou.

Minha vez. O coração pulsava forte no peito e reverberava na garganta, seca por completo; eu deveria estar vermelha como um tomate. Não era estudiosa feito a Angélica. A professora cutucou-me o couro cabeludo por completo. Mandou-me sentar. “Próximo!” – chamou. Salva, enfim.

Alguns anos depois, reclamei que a cabeça estava coçando. Mostrei à minha mãe: bingo.

Com os meninos a solução era simples: raspavam o cabelo e pronto. Mas eu tinha cabelos até a cintura, e eles eram inegociáveis. Livrar-me dos piolhos foi tarefa excruciante. Passei o dia sentada em uma cadeira no quintal, toalha nos ombros, os cabelos lambrecados de veneno fedido. Foi minha avó que, armada de pente-fino e paciência, deu início à catação, só concluída ao entardecer. A piolhada, zonza, caía sobre a toalha. Problema mesmo eram as lêndeas. Resistentes até a uma hecatombe. Era preciso puxá-las uma a uma dos fios, com as pontas dos dedos. A posterior dor de cabeça era inevitável. E eu fedi a veneno por um bom tempo.

Meus filhos pegaram piolho, uma vez. Como minha avó, bisavó deles, armei-me de pente-fino, paciência, amor e uma TV, e dispus-me à faxina capilar. Nada como três décadas de avanços tecnológicos: bastou usar neles um xampu, nem tão fedido. As lêndeas, no entanto, permanecem indestrutíveis e demandaram o método artesanal. Mas em vez da cadeira-castigo no quintal, eles assistiram desenho durante a operação. Tudo evolui.

A cada lêndea aniquilada eu lembrei dos meus piolhos do passado, e me senti primitivamente humana. Então a vida é isso. Somos os mesmos, desde sempre. Podemos ficar modernos, inventar a internet e carros que dirigem sozinhos. Cuidar uns dos outros – em ordem descendente – ainda é o ato mais ancestral de todos, justamente o que nos garante no planeta. Toda espécie bem sucedida passa pelo pente-fino do bom zelo. E não importa para onde o mundo caminhe. Sempre haverá uma mãe catando piolho nos seus filhos.

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O parto da Maria-Fedida

Bem que vi, dia desses, uma porção de ovinhos grudados na parede de fora. Pareciam sagu. Sem saber de que eram, deixei-os por ali. Dei palpite: “é de aranha”. Com tanta planta no condomínio, o padrão de vida delas aqui é bom.

Memorizei o local, para dar uma espiadinha de vez em quando. Chegava bem perto, e lá estavam eles. Foram mudando de cor, numa animada paleta biológica. Primeiro, ligeiramente perolados. Depois, cinzentos. Então ficaram transparentes e pude ver os bebês, preto-alaranjados, em formação. Mamãe-inseto nem precisa de ultrassom.

Esqueci-me e descontinuei a observação. Quando lembrei, os ovinhos já haviam eclodido, estavam secos e transparentes. Ao redor, oito dos recém-nascidos. De preto-alaranjados, eles tornaram-se cinza-claro. Não levo jeito para entomóloga, então continuei chamando tudo de aranhinha.

***

Hoje cheguei do supermercado e vi uma Maria-Fedida na parede, perto da porta. Sempre tem uma no pedaço. É o terror da criançada, nunca compreendi o escarcéu. Tem o fedozinho, é verdade, mas ela não fede em tempo integral. Se a deixam quieta em seus afazeres de artrópode, ela não empesteia. Gente só fica catinguenta se transpirar demais, se não tomar banho. Maria-Fedida só cheira mal se ameaçada ou atacada. Tudo na vida tem causa e efeito.

Dizem que Maria-Fedida é praga, que arruína plantação, que isso, que aquilo. Mas praga depende do ponto de vista, e isso nenhum antropocentrista diz.

Para as focas, homens são pragas. Elas só não sabem, coitadas, como acabar com os homens. Soubessem, fariam tudo para espantar os que vão todo ano caçá-las.

O antibiótico é a praga, no referencial de uma bactéria. O veneno que aniquila sua população. Soubessem usar a internet, as bactérias fariam blogs e tutoriais com dicas sobre “como acabar com as pessoas”.

Na história contada do mundo, mais importante que o fato, é o ponto de vista.

Então vi a Maria-Fedida perto da porta. Estava quietinha; pousei as compras no chão e a encarei. Seu corpo lembra um pentágono. Se fosse mulher, a Maria-Fedida seria essas que têm o ombro mais largo que o quadril. Quase todas as minhas tias eram assim.

De repente, ela bota um ovo! Um não, dois. Dois? Não, três. Espera, quatro. Cinco. Seis.

Pacientemente, a Maria-Fedida pariu seus filhos. Então era ela (ou alguma colega) que andava fazendo minhas paredes de maternidade, esse tempo todo. Permaneci imóvel e em silêncio, guardando distância, de modo a não atrapalhá-la. Em meus dois partos, ninguém me encheu o saco, nem ficou me cutucando. Achei respeitoso fazer isso por ela.

Corri por as compras na cozinha e voltei. Pude ainda acompanhar o décimo-quarto e último ovinho. Trabalho feito, ela se mandou. Nada como o parto natural.

Fiquei olhando os quatorze embriões no vão da alvenaria, sozinhos no mundo. Eles agora só têm um ao outro e, já já, nem isso. Seguirão suas vidas de Mariazinhas-Fedidas e será cada um por si, o Deus-Inseto por todos.

E eu, que nunca assistira ao parto de uma Maria-Fedida, lembrei dos dois que vivi. E se não fôssemos a supremacia intelectual do planeta, e outra espécie superior se pusesse a me observar enquanto eu dava à luz? E se rissem de mim? E se resolvessem acabar comigo num piparote? Tive, naquela hora, compaixão por sua vulnerabilidade e certa inveja de sua biologia tão simples e sem firula.

Ela, que também é Maria. Que também é mãe.

Mundo de papel

Foto/montagem: Massimo Nota
Foto/montagem: Massimo Nota

Se seres extraterrestres resolvessem (se é que já não o fizeram) fazer uma varredura em nosso pequeno planeta, a fim de analisar este mundo e seus moradores, um item certamente não ficaria de fora dos relatórios: os papeizinhos. Os nossos papeizinhos.

“Humanos gostam de fazer anotações em pequenas superfícies produzidas a partir de fibras de celulose, cujo produto é chamado papel, que por sua vez vêm das árvores observadas na região”, registrariam. Talvez acrescentassem: “E, com frequência, eles os perdem”.

Não estariam os ETs referindo-se aos papéis em geral, os que documentam a nossa trajetória, nem aos livros, e sim, àqueles, soltos, que se lança mão na hora de registrar as coisas “para não esquecer depois”: de promessas de ano novo à listinha de compras da semana; dos projetos dos desejos ao telefone da fundamental nutricionista; dos desenhos concretos às ideias esparsas; das senhas diversas ao nome da canção que acabou de tocar no rádio; do resumo de ontem ao texto para amanhã; as prioridades para hoje. Seja na folha arrancada do bloquinho, na ponta de uma página de revista, em versões autocolantes ou no imprescindível naco de guardanapo, vale tudo para assegurar a lembrança posterior, não perder o prazo, não deixar de fazer.

A despeito da tecnologia, as coisas continuam sendo anotadas em papeizinhos. Parceiro fiel da caneta que não escreve, o papelzinho ainda é a peça mais importante na vida do executivo, da dona-de-casa, do estudante e até daquele vizinho geek. Carrega em si, em letra caprichada ou garrancho, na escrita lenta ou apressada, a estratégia decisiva, a receita testada e aprovada, uma cola providencial, o nome do aplicativo para baixar depois.

Haverá o dia em que o papel do papelzinho na história da humanidade será tão importante quanto as guerras e as revoluções. No pedacinho escrito à mão reside o amor, o ódio, a saudade, a criatividade; o medo da desmemória, a garantia, a salvação.

Quanto aos papeizinhos perdidos… Ah, esses vão parar num universo paralelo, rodeados de frondosas árvores, a celulose-mãe. Escapam pelas gavetas em misteriosos processos, são abduzidos de bolsas e agendas, levados pelos ventos urbanos e não-urbanos. Carregam seus conteúdos para outra dimensão e lá adormecem. Em sonhos, visitam seus donos que, ao acordar, não hesitam: correm anotar.

Pelo universo

Arte: Víctor BS

Catei o gato e o enlacei. Ele miou curto, concedendo-me o prazer da contradança. Saímos rodopiando pela cozinha, o feijão no fogo. Faltava a música, então cantei “Across the universe”, baixinho, na sua orelha.

Está certo que troquei uns versos de lugar e esqueci outros. Eu cantava ao vivo, não havia playback. Ele percebeu, mas não disse nada.

Felinos entendem bem do refrão: nada muda o mundo de um gato. Acordar, comer, lamber a pata, alongar-se, quentar ao sol ou abrigar-se da chuva, dormir, caçar passarinho, dormir, caçar lagartixa, dormir. Mesmo que não tenha dono, sua agenda é a mesma (talvez com alguma privação), somada à fuga perante o inimigo.

Eu, que vivo cantando “Nothing’s gonna change my world”, sei que minto. O meu, na verdade, já mudou um bocado. A ponto de eu não reconhecê-lo. Não conto com tanta invencibilidade. É que tudo fica mais bonito numa canção.

John Lennon adorava gatos.

A história da humanidade é feita de guerras, revoluções e modas. A dos gatos, não. Eles permanecem praticamente os mesmos em suas gatices desde que foram domesticados, coisa de dez mil anos atrás. Os gatos não mudam de ideia. Sua revolução está na ponta da língua áspera. A moda deles segue a única tendência possível: liberdade. E um barbante será sempre um bom entretenimento.

Encontrá-los pelo mundo é uma espécie de déjà vu. Sejam os bichanos franceses, norte-americanos, libaneses, japoneses, angolanos ou apenas os que zanzam pelos telhados da rua de cima, é o mesmo teatro, o mesmo balé, o mesmo filme. Se querem carinho, vêm, vão, fingem não estar nem aí com você. Cavilosos, se escondem e voltam; hasteiam o rabo-antena, tombam no chão, esfregam-se em tudo. É a senha: “Vem”. Em dois minutos estão trançando em suas pernas. Se não querem papo, também nisso são todos iguais: ignoram. Entocam-se n’algum buraco, adentram alguma cerca, escalam o muro mais próximo, seguem pelo universo. Gato é um ser manifesto.

Todo mundo deveria saber imitar gato.

Repeti para ele, à exaustão, o mantra “Jai guru deva”, caprichando no “om”. Conectado com seu deus, o Grande Gato, ele o compreende melhor que eu. Fizemos mais uns passos, o feijão ficou pronto. Então ele, com o rabo, me disse: “Agora chega”. E pulou do meu colo.

Para Benta.