Arquivo da tag: homem

O exército de bolinhas de sabão

Arte: Alanna Risse

Dorme o homem no jardim da praça da catedral. Fez ali sua cama, não se sabe a que horas. Já são onze da manhã e ele ainda não se levantou. Ao seu lado, trapos e tralhas não-identificadas a lhe fazer a guarda. O que houve com o homem? E o que ouve o homem, em seu sonho de terra, pedra e flor? O violino de Jean Luc Ponty ou a sanfona do Gonzagão? Os conselhos de seu pai ou os mandamentos de Deus?

É sábado. No dormitório do homem instalou-se, logo cedo, a feirinha de artesanato. Com música, barraca de pastel, anúncio de tudo. Tem criança pedindo coisa à madrinha. Tem velho de vida comprida, sentado no banco assistindo o vento. Tem moça de saia curta namorando em pé. E tem o homem, que ainda dorme e sonha no jardim. Sua madrugada é outra.

O vendedor de balões, para atrair a clientela, lança no ar bolinhas de sabão. Um exército delas, cuja missão – engana-se quem pensa que é proteger a alegria das crianças – é o ataque ao homem que dorme.

As soldadas, feitas de água rara e sabão barato, devem, a qualquer custo, subtrair-lhe o sossego. Fazê-lo ouvir a música, comprar na feirinha, comer o pastel, desejar o tudo que se anuncia. Beijam-lhe os pés pelados e encardidos (adormeceu sem meia, nem sapato), tocam-lhe o cenho intranquilo, quedam sobre seu peito oco e explodem, como serenas kamikazes. Outras erram a mira e acertam as flores do jardim, tal abelhas líquidas. De tão leves e delicadas, nenhuma acorda o Cinderelo bêbado. Trazem em sua fórmula o sopro divino do dono dos balões, criador do teatro mágico da praça da catedral. Mas falham: não servem para despertador.

O pão que o Diabo não amassou

Gonc.A/Flickr.com

Vivia mandando que o Diabo o carregasse. Um dia, o Diabo resolveu obedecer. Vou contar direitinho como foi. Porque o Diabo também precisa que alguém alivie as coisas para o seu lado.

A mulher, embora bonita, não era flor que se cheirasse. Mas fazia o melhor pão de queijo de todo o triângulo mineiro. E pão de queijo bom, mas bom mesmo, é difícil de fazer. Não pode ter queijo demais, nem de menos. O polvilho tem que ser aquele. E por aí vai. A fama garantia à mulher um bom punhado de amigos, que esticavam o caminho só para dar uma passadinha em sua casa. Entre os amigos, havia os admiradores. Públicos e secretos. Dos secretos ela gostava mais. Caprichava na massa do pão quando sabia que um deles iria vê-la.

Até o dia em que um da turma dos secretos, durante a visita, resolveu fincar o pé. E não quis mais sair. Prometeu aumentar a casa, fazer um bom puxado para a cozinha. Dizia que com o que ganhava na loja de material para construção os dois poderiam viver, assim ela não precisaria mais ficar consertando roupa dos outros. A proposta foi ficando interessante, e ela deu sua mão ao homem. Agora apenas os que eram só amigos poderiam passar lá.

Como eu ia dizendo, a mulher não era flor que se cheirasse. Era do tipo de flor que se planta por engano, e depois que se descobre o perfume ruim é preciso arrancar tudo. Até a raiz. E, dia depois de dia, a mulher tratou de infernizar a vida do homem com toda sorte de insulto e implicação. De manhã à noite. Encerrava o palavreado sempre com a mesma ordem ao Diabo. Que, no começo, não dava muita bola.

Mas o Diabo, sempre muito educado, foi se aborrecendo. Não gostava que lhe dessem ordens. Se tem uma coisa que o Diabo preza é a sua independência. Deus sabe disso, e é por isso que fica cada um na sua.

Passaram-se alguns anos e a mulher, não se dando conta do mundinho esquisito que criava à sua volta com sua maledicência, adoeceu. Ficou magra de dar dó. O pão foi mudando o sabor, os amigos foram rareando. Apenas o fiel e paciente marido continuou ao seu lado, comendo o pão que ela amassava todos os dias.

Certa tarde, ele foi ajudá-la a por a mesa para o café. Sem querer, esbarrou no cesto de pães recém-assados e foi tudo ao chão. Desta vez, a mulher não só repetiu a ordem ao Diabo com mais fúria, como também mandou que o Raio, irmão gêmeo do Relâmpago, partisse o homem em dois.

Aí o Diabo se enfezou. Disposto a resolver a história, vestiu seu terno, ajeitou o nó da gravata no espelho, conferiu os sapatos e foi até a casa da mulher. Tocou a campainha, o homem veio atender. Quando abriu a porta, pôde ouvir a mulher esbravejando lá dentro. Viu o ódio que lhe tomara conta. Pôde sentir, também, o aroma morto do pão espalhado pelo tapete da sala de jantar. Da porta mesmo, chamou o homem de canto e sussurrou-lhe algo no ouvido. Ele arregalou os olhos, virou-se para a mulher e sorriu. Despediu-se com um mudo aceno e pulou nos ombros do Diabo. Lá se foram os dois rua acima e, na praça, desapareceram na sombra de um jequitibá.

Percebendo que tinha alguma coisa a ver com aquilo, a mulher tratou de recolher os pães enquanto matutava que diabos havia acontecido. Tomou seu café, não sem uma pulga atrás da orelha. No finalzinho do dia, foi para a porta esperar o marido. Que nunca mais voltou.

Por via das dúvidas, passou a tomar mais cuidado com o que dizia.

.

[Nota: este miniconto recebeu menção honrosa no 4º Concurso Literário de Minicontos e Haicais da Editora Guemanisse (RJ) e foi publicado pela editora, com os demais premiados, em agosto de 2010.]