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Do que não muda

Ilustração: Adam Koford/Flickr.com

As coisas todas do mundo podem ter mudado pelo caminho do tempo. Em muitas, se mexeu um bocado. Algumas se extinguiram, no mesmo compasso em que outras brotaram. Há as integralmente transformadas. Porém, ou muito me engano, ou o jeito de embrulhar presentes segue do mesmo jeito.

Tirante as pirotecnias da moda (que essas sempre vão existir), como embalagens que piscam, caixas em formatos inéditos, sacolinhas pós-modernas, papéis com padronagens inesperadas, a maioria absoluta das pessoas e lojas ainda prepara seus mimos como antigamente. Os regalos podem ter mudado; o que os veste, não.

“É para presente?”, quer saber a moça que faz pacotes na livraria. E não é a livraria do Seu Joaquim, aquela, remanescente no bairro, que envelheceu com o dono. É livraria grande, dessas com filiais no país inteiro. Aonde aporta todo tipo de novidade da cultura e dos saberes.

Ela desenrola o papel estampado de uma grande bobina, instalada no antiquado suporte de ferro – trambolho igual ao das lojas de onde vinham meus presentes de aniversário e Natal (os únicos do ano). Mede o objeto, calcula a quantidade de papel, corta. Posiciona o dito cujo que, no caso, nem livro é; trata-se de uma caixa de discos blu-ray de uma dessas séries que passa na TV a cabo. E prossegue seu trabalho, com os mesmos ingredientes e modo de fazer do passado. Ajeita aqui, alisa ali. Muitas dobras e durex depois, a moça providencia o acabamento: faz uma espécie de leque, no próprio papel, bota laço de fita, etiqueta de/para e pronto. Exatamente igual aos meus presentes de criança. É só aguardar o sorriso de quem vai ganhá-lo.

Não foi nessa livraria, mas numa loja de roupas, que flagrei a empacotadeira, bastante jovem, passando a ponta da tesoura num teco de fitilho colorido e ele, zás, se enrolou inteiro. Virou o antológico “rabinho de porco”, velho conhecido da criançada que hoje tem filho marmanjo (não digo “fio de telefone”, que esse mudou muito, nem fio tem mais). E lá foi o traje, confeccionado com tecido tecnológico e zíper de última geração, fazer bonito em seu pacote vintage-sem-querer.

Igual preparar receita de bolo de chocolate e chamar gato fazendo psh psh psh, a arte de embrulhar presentes é parte do folclore, está no DNA de um povo. É assim que se faz e não se fala mais nisso. Entra era, sai era, permanecerá como sempre foi.

Que bom.

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Hello, Win!

Ilustração: Luísa Cortesão/Flickr.com

A rendição: chegar com o porta-malas cheio de gostosuras, enfeitar a frente da casa com teias e fantasminhas, maquiar uma bruxinha loura e paramentar um vampirinho banguelo.

A confissão: não nutrir simpatia pelo Halloween.

Não é falta de apreço pelas bruxas. São minhas velhas conhecidas, desde o berço. Já esperei (em vão) a Cuca me pegar, torci pela Branca de Neve e brinquei de fazer poção no caldeirão onde minha mãe cozinhava feijão. Aprendi a ler com a Madame Min, Maga Patalójika, Meméia e Alcéia. Cresci e, ao estudar a inquisição, passei a ver as bruxas de outra forma – mais compassiva que temerosa. Quis (e ainda quero) os poderes da Samantha. Não me desagrada a ideia de uma festa em homenagem a elas. Apenas me falta memória afetiva.

As abóboras da minha infância faziam parte de outra história, a da Cinderela. As bruxas habitavam outras paragens. Meus fantasmas, nem sempre camaradas, se enfiavam sob minha cama e só não me pegavam porque eu era mais rápida. E nenhum deles batia à minha porta em busca de guloseimas. Isso era lá com Cosme e Damião. Mesmo sem saber uma vírgula sobre a história dos santos, eu ficava feliz em ganhar doces no dia deles. Folclore é assim: a gente vive o mito porque sempre foi assim, depois é que vai descobrindo do que se trata. No Halloween, que tem suas origens mas não nasceu aqui, o caminho é outro: primeiro a gente copia e mais para frente internaliza, num folclore às avessas.

Carnaval, Festa Junina, Bumba-meu-boi e Saci-Pererê estão inscritos no meu DNA. Nem preciso explicá-los demais às crianças, elas entendem, sabem desde sempre. A gente dá o input e a memória ancestral faz o resto. Meu filho veio perguntar como se escrevia Halloween. Estava com dúvida se era com dois éles, estranhou os dois ês, quis saber porque o h tinha som de r. Folclore legítimo de um povo não carece de tanta explicação.

A vizinha, uma bruxinha de setenta centímetros de altura, tocou a campainha. Atendi. Ela disparou a traduzida “Doces ou travessuras!”. Não lhe dei nada e desafiei: “Travessura!” Achei que ela fosse aprontar, fazer traquinagem, enfim, cumprir a ameaça. Que nada. Deu uma risadinha e levantou voo em sua vassourinha, levando seu baldinho de caveira já repleto de pirulitos. Ela não estava preparada para a alternativa b.

São vários os esforços para nos enfiar a tradição goela abaixo. Inventaram até Halloween Sertanejo. É compreensível. Quase tudo que é importado precisa de certa tropicalização para emplacar. Rede de cafeteria norteamericana, aqui, tem que ter pão de queijo. A diferença: pão de queijo é uma delícia.

Se o “Trick or treat” sobreviverá, a próxima geração é quem vai dizer. Que não se duvide das bruxas, porém. Elas não estão à prova.