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O apagão

Ilustração: Paul Ryan/Flickr.com

Num dos últimos apagões, esquentei o jantar como antigamente: no fogão. Arroz, feijão, peixe, todos retornaram às panelas onde foram feitos. Trilharam o caminho de volta, pois já estavam devidamente acondicionados naqueles potes plásticos, próprios para freezer e micro-ondas – três coisas que minha mãe não tinha quando casou com meu pai, e não sentia a menor falta. Eu, que fiz do forno de micro-ondas o aquecedor oficial dos alimentos, desaprendera a aquecer minha comida usando uma das descobertas mais antigas: o fogo. Como é que se faz, mesmo?

Depois de decidir pelo banho-maria, no caso do peixe, o fogão com acendimento automático não obedeceu ao meu comando – “Fiat lux!”. Ficou lá, omisso à minha urgência. O processo geladeira/micro-ondas é mais breve que a fome. Tratou de me lembrar: “Sou um fogão elétrico. E-lé-tri-co”. Fósforos! Onde estão os fósforos para acordar o gás? Nem precisei; usei uma das velas que me amparavam na tarefa medieval. E, no lugar de medir o tempo digital do forno, calculei o tiquinho d’água para o fundo da panela. Em menos de um minuto, o arroz frigia de contentamento. O feijão borbulhava de alegria. Comida requentada no fogão é mais feliz.

Em tempos de micro-ondas e macroagendas, cada um aquece seu próprio prato. Assim como cada um comanda sua vida num tempo diferente. Toda coletividade será castigada. E toda individualidade, venerada. Assim é, se lhe parece. O fogão está para o micro-ondas, assim como o sol está para as camas de bronzeamento artificial.

O apagão causou foi um clarão: fiquei com medo de já ter desaprendido mais coisas, como mandar carta pelos Correios. Medo de não saber do endereço dos amigos nada além do símbolo @. De nunca mais conseguir decorar um número de telefone (as agendas dos celulares fazem isso de graça). Da letra de mão ser apenas uma expressão. E, na linha dos medos futuros, de que meus filhos não gostem de livros que só têm palavras, e não viram brinquedo. Ou de ovo de Páscoa feito só de chocolate, sem brinde dentro. Um medo maior que o outro. Maior até que o da escuridão que tomou conta do meu bairro naquela noite.

Foi todo mundo dormir mais cedo depois do jantar, forçadamente realizado à luz das velas. Notívaga de carteirinha, reconheço: bom mesmo é ser passarinho. Que se recolhe quando o dia acaba. E não precisa de lâmpada nenhuma para lhe avisar disso.