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Crônica de minuto #26

Sempre que estou com a página do Facebook aberta, meus filhos se penduram no meu ombro e vão perguntando: “Quem é esse?”, “Quem é essa?”. Muitos eu não conheço, são amigos dos amigos. A imensa galeria de gente forma, de fato, um mosaico de vidas para lá de interessante. Às vezes, dá vontade de brincar de responder: “É o inventor do purê de batatas”. “É a moça que dubla a Jessie no Toy Story”. “É o dono da vendinha da rua de baixo”. Só para ver a cabecinha deles trabalhando. Não seria maldade, seria?

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Crônica de minuto #21

Criança de colo ainda, conheceu três orfanatos. Sempre o mesmo enredo, não havia lugar para ele. Nunca houvera, enfim. Sequer no útero original foi bem-vindo; ele é que não obedecera às ordens de despejo. Da infância, cerzida a caridade, só recordava dos confetes de papel colorido que ganhava na quarta-feira de cinzas. Os que haviam sobrado. Aprendeu a fazer festa depois da festa. Fez alegoria da solidão. Inventou sua história com os pedaços de vida que os outros não queriam mais. Vida de retalhos que não combinavam entre si. Teimou tanto em ser feliz, que um dia costurou e vestiu sua própria fantasia de alegria. Nunca mais tirou.

O Homem do Saco

Ilustração: Julio Minervino/Flickr.com

O menino pulava para lá e para cá no grande sofá da sala de espera. Entre uma cambalhota e outra, esbarrava no vaso amarelo da planta de mentira e a mãe ia ficando furiosa. Na terceira vez em que o pé do moleque quase levou pelos ares os óculos do homem carrancudo que esperava ao seu lado, ela lascou: Se você não parar, o Homem do Saco vai levar você embora. O garoto ficou quietinho até a hora em que anunciaram o nome da sua mãe, e os dois entraram no consultório do médico. O terror havia vencido.

Eis o estrago que o medo – sentimento dos mais originais que, se valioso na essência, pode se tornar maléfico – causa na vida de uma pessoa. No caso, uma pessoinha. Será que a imagem construída pelo menino do ‘homem’ e seu ‘saco’ poderia ser comparada ao fantasma da violência urbana ou da perspectiva da falta de dinheiro para um adulto? Uma criança acredita sempre nos seus pais, referência máxima – ou única – na infância. Mesmo que eles lhe digam uma bobagem, digamos, romântica como essa. Convenhamos, quem usaria um saco para raptar crianças?

Eu também conheci o Homem do Saco. Mas para mim ele tinha outro nome. No bairro onde cresci existia um andarilho dos seus quarenta anos, com barba e cabelos longos. Não era feio. Era, sim, muito sujo e mal-ajambrado. Levava nas costas uma trouxa encardida como ele, espécie de saco, onde acomodava suas catações. Daí a fantasia de que ele poderia carregar ali uma criança arteira ou desobediente. Além de significar uma ameaça terrível para as crianças do pedaço, em casa ele ainda tinha o estigma de não ser um cara legal. Quando tocava a campainha para pedir comida ou dinheiro, minha mãe dizia: Ih, é aquele chato. E ele virou o Homem Chato. Lembro direitinho do pavor que eu sentia quando o via no portão. Levei anos para descobrir que não cabia uma criança naquele saco.

A estratégia do medo, transmitida oralmente por gerações, tem lá seus méritos e dá resultados até hoje – o garoto da sala de espera tornou-se um anjinho em segundos. Talvez esse medo seja importante e faça parte do amadurecimento. Mas será que o preço não é alto? É mesmo na base do medo que se controla alguém? Por quanto tempo? E com quais consequências?

Medo é como vento: dependendo da intensidade, velocidade e direção, pode ser devastador. Ou paralisante. Medo de errar no trabalho, de não acertar na roupa. De falar em público, de pagar mico, do que os outros vão pensar. De atrasar, de esquecer, de lembrar, de rir, de chorar. De engordar, de cair, de tentar. De ouvir não, de dizer sim, de dançar, de telefonar no dia seguinte. De casar, de separar. De dar o braço a torcer, de não dar conta, de perdoar, de mudar, de voltar. De quebrar, de machucar, de perder o emprego. De ficar doente, de morrer, de partir. Medo de amar, como aquela canção eternizou.

A mãe do garoto nem imaginava o que estava fazendo com seu filho. Pudera: ela própria deve ter tido, na infância, seus pesadelos com o Homem do Saco, fosse ele chato ou não. Mas, cá entre nós: cambalhota na sala de espera também já era demais.

Nota: não encontrei nenhum link de “O medo de amar” (Beto Guedes/Fernando Brant) para colocar aqui. O Homem do Saco deve ter levado todos.