Arquivo da tag: faculdade

Tem um cigarro?

cigarro

Eu já quis ser fumante. Fiz força, dediquei-me com afinco. Irmão fumante, irmã idem. Tínhamos cinzeiros espalhados pela casa. Como é que eu, a caçula adolescente, ia querer ficar de fora do maravilhoso mundo da nicotina?

As propagandas da época, assim como as novelas, bem que tentaram me transformar em adicta. Nada mais cool que segurar um cigarro entre o médio e o indicador, soltando longas baforadas de um jeito meio blasé, enquanto engatava um papo cabeça com alguém. De preferência, sobre filosofia. O importante era ter charme.

Experimentei várias marcas, investi até nos mentolados – sempre escondido. O cigarro, no entanto, não me quis. Um relacionamento que nunca daria certo, eu deveria saber.

Se fumante é quem fuma, e ex-fumante é quem fumou e não fuma mais, alguém que desejou ser fumante e fracassou é ex-quase-fumante? Não há adjetivo para o meu caso. Nem explicação. Nunca aprendi a tragar, ardia a garganta. Trago direitinho, no entanto, as lembranças na cabeça.

Depois do colégio, eu e a amiga de pequenas, médias e grandes aventuras tomávamos o metrô na Luz e desembarcávamos no Jabaquara, onde ficava a garagem dos trens. Era lá mesmo que, escondidas, cometíamos o crime. Engasgando aqui e ali, rindo e tecendo considerações sobre o universo. Depois, metrô de volta e cada uma para sua casa, preocupadas em sumir com o cheiro que nos empesteara. Pastilha de hortelã e perfume. Não durou muito, o passatempo. Comecei a achar a coisa meio sem graça.

Mais tarde, eu precisava me enturmar na tribo dos bem-nascidos da FAAP, e a maioria fumava. Mas não queria dar bandeira, comprando cigarros perto de casa. Descia do ônibus na Praça da Sé e, antes de tomar o Cardoso de Almeida, elétrico que me deixaria na porta da faculdade, eu parava em um boteco perto do Páteo do Colégio e comprava meu maço. Que chegaria ao final da semana praticamente intacto. Eu me esquecia dele.

Comecei a trabalhar, agora os cigarros do pessoal eram outros. Tentei também. Queria expandir a consciência, ver coelhinhos azuis dançando ula-ula. E nada.

Então, desisti. Cigarrinho, só de chocolate da Pan.

Que não fazem mais.

Anúncios

O vinho, o táxi e outras paroxítonas

Foto: Maria G./Flickr.com

Saiu do escritório duas horas mais cedo. Tinha, portanto, três horas até a aula. Aquele MBA não acabava nunca. Não era uma pós, mas permaneceu após tudo: casamento, gravidez, separação, lipoaspiração. Passou no boteco ao lado da faculdade e resolveu tomar uma. Uma, não: um. Pediu vinho. O garçom, desacostumado, nem sabia se havia algum vinho para servir. Voltou quatro minutos depois:

– Tem este aqui…

– Vai esse mesmo.

Vinho, para ela, tinha sabor de festa, aniversário, reunião com amigos. Sozinha, nunca. Pois agora o vinho estava ali na sua frente. Seria também uma reunião. Só que desta vez, dela com ela mesma. Hora de colocar os pingos nos is, os acentos nas sílabas certas e os pontos finais nos devidos lugares. Pra que mesmo aquele MBA? Ela, que sonhava ser atriz. Zonza da silva, foi para a aula. Entrou na sala errada, sentou-se na última cadeira e prestou a maior atenção. Fez anotações no caderno. Na hora de ir para casa, a zonzeira não havia passado. Melhor não dirigir e voltar de táxi. Aproveitou um que acabara de deixar o passageiro.

– Para onde vamos, senhorita?

– E por acaso o senhor sabe de onde todos nós viemos?

Da faculdade até sua casa, falaram sobre política, a chuva da semana passada, receita de queijadinha com doce de leite – exclusividade da mulher do motorista –, bíblia, MBAs e novela. Ele estacionou, acendeu a lâmpada sobre o espelho retrovisor, a Nossa Senhora pendurada nele ficou iluminada. Enquanto procurava cinco reais para o troco, anunciou:

– Vou dizer uma coisa: criei meus seis filhos sem esse tal de MBA. Perca seu tempo não, dona. Quem faz o que gosta ganha dinheiro se divertindo.

Dia seguinte, manhãzinha, foi até a faculdade buscar seu carro, que dormira na rua. No pára-brisa, o recado: “Desculpe-me pelo amassado. Me procure e acertamos tudo. Obrigado, Henrique”. Achou engraçado tanta paroxítona. No verso do cartão, pôde ler: o Henrique era dono da escola de teatro, a sete quadras dali. Foi lá, encontrar a sua sílaba tônica.