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Corrija-me

arte: Robin Ator/r8r
arte: Robin Ator/r8r

A vida começa aos quarenta. Ou, no caso da mulher, quando ela conhece o corretivo.

O corretivo é o photoshop natural, não-comedogênico, com textura oil-free e, salve!, FPS 30. É a mágica da maquiagem, sem coelho, nem cartola, mas com ilusionismo garantido. A retificação dermatológica de mentirinha, com validade até o próximo demaquilante. Quem se importa?

Corretivo é item de primeira necessidade, como pasta de dente. Pode faltar tomate na geladeira, bisnaguinha para o lanche das crianças, ração para os gatos, mas não pode faltar corretivo no meu toucador. (Lembrando que quem fala ‘toucador’ tem mais, muito mais de quarenta.) O corretivo não me salva da ação do tempo, mas de mim mesma.

Dei-me conta da minha fascinação pelo creminho quando a maquiadora disse “Vou lhe aplicar um corretivo” e, diferente de uma criança amedrontada que aprontou alguma, e eu fiquei feliz da vida.

O produto é mestre: corrige e ainda dá nota. 7 no disfarce do melasma da gravidez,  surgido dez anos atrás e que ainda está estampado na minha pele, feito a cicatriz da cesárea; 8 para as olheiras, 8,5 para as sardas mais rebeldes e 9 para a espinha. Nada mau para quem tirou zero em cuidados com o sol na juventude.

Melhor que corretivo, só os BB e CC cream, aqueles cremes multifuncionais cujos nomes têm esse jeitão meio tatibitati. Um bom exemplar faz pela sua pele, em cinco minutos, o que você não fez por ela em trinta anos. Resolve aquela aparência de peixe deprimido e repara até mau humor matutino.

Tanto amor pelo corretivo me põe na contramão da nova moda: mulheres inventaram de postar nas redes sociais fotos sem maquiagem. A intenção é nobre: combater a ditadura da beleza perfeita e o excesso dos filtros e retoques nas fotografias.

Mas logo agora, que aprendi a esfumar os olhos?

Bem agora, que dá para se embonecar à vontade com batons, blushes e sombras que não são testados na bicharada? Até pouco tempo atrás, arrancar essa informação dos fabricantes era mais difícil que passar delineador.

Justo agora, que estou de cabelos brancos e a maquiagem é a amiga bacana que não me deixa com ares de fantasminha camarada ou de quem tem hemoglobinas abaixo de 6?

Não. No meu rímel ninguém tasca. Muito menos no meu corretivo.

Porque o movimento #semmaquiagem é mimimi em um tom acima da pele: a moça tira a foto de cara lavada, bota na internet, coleta as curtidas e os comentários de “Continua linda”, “Uau”, “Maravilhosa” e depois vai, leve ou integralmente maquiada, cuidar da vida. É cara lavada da boca e olhos pra fora, para inglês ver. Não vale. Não orna.

Corrija-me se eu estiver enganada.

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Uni-duni-tê

Foto: Prettywar-Stl/Flickr.com

– Você sabe como se escolhe maracujá?

Virei-me e vi quem tocava, de leve, meu ombro. Moço alto, quase constrangido pela pergunta. Talvez fosse um marido pouco afeito às coisas do lar, cumprindo ordens da esposa. Um recém-separado, compulsoriamente levado a fazer sua própria feira. Um jovem morando sozinho há pouco tempo. Ou, simplesmente, alguém com pouca experiência em hortifrútis.

Encarei o moço. Encarei os maracujás da banca. Respirei fundo:

– Assim, ó…

Eu nunca havia ensinado isso. Sempre elegi, intuitivamente, as frutas, os legumes e as verduras que vão para minha casa. Entram no meu carrinho de acordo com um parâmetro estético – embora não saiba explicar, nesse caso, de quê é construído meu conceito de estética, nem exatamente o quê norteia a minha opção. Sei que é difícil vir algo podre. Deve existir uma teoria, mas desconfio que ela raramente se revele na hora do vamos ver. De uma coisa eu sei: só beleza é que não é (numa variação do ditado “Beleza não põe mesa”). Ou, pelo menos, não a beleza como entendemos. Embutimos nas escolhas – seja maçã, companheiro, música, quadro, jóia – um julgamento, consciente ou não, do que nos faz bem ou mal. Mais que isso: ativamos a memória ancestral daquilo que preserva, ou destrói, nossa espécie. (Preciso desenterrar meus livros de antropologia da faculdade.)

No entanto, diante do moço com um ponto de interrogação na testa, precisando de ajuda para tarefa tão elementar – escolher seu alimento –, me vi na necessidade urgente de elaborar uma teoria. Naquele instante, eu era a sua salvação. Comecei dissertando sobre a casca (lisa, podendo estar levemente enrugada, mas firme e sem machucados), falei do peso (leve demais é sinal de pouca polpa) e outros aspectos que nem eu sei de onde tirei, mas fizeram o maior sentido para o moço, que ouvia tudo com extrema atenção. Senti-me a dona da banca. Especialista. Pós-graduada em maracujá.

O moço agradeceu e, confiante, selecionou meia dúzia de bons exemplares. Missão cumprida. E, enquanto eu continuava minha feira, aquele ponto de interrogação da testa dele agora se transferira para a minha. Por que a maioria das nossas escolhas não é simples como selecionar uma fruta?

Quando escolhemos entre duas propostas de trabalho, por exemplo, em vez de aceitar logo a que, acreditamos, nos fará feliz, analisamos mil e uma variáveis: salário, título do cargo, benefícios, tamanho da equipe, nível de reporte, plano de saúde, participação nos lucros e por aí afora. Trabalhar na Cochinchina por um milhão e fazer um troço entediante, ou ficar por aqui mesmo, ganhando o suficiente e acordando feliz todos os dias? Isso não deveria ser um dilema. Difícil mesmo é saber onde fica a Cochinchina.

Saí com a minha filha de três anos para comprar sapatos. O vendedor despejou à sua frente um mar de opções. Minha opinião de mãe seguiu a lógica: beleza, preço, durabilidade, usabilidade. Ela escolheu justamente o último da minha lista. “É porque eu gostei mais desse, mãe”.

A vida é feita de escolhas, até minha filha sabe. E elas nem sempre são, de imediato, racionais. Eis os maracujás, que não me deixam mentir.

[Nota: eu havia escolhido quatro fotografias para abrir esta crônica. Uma delas combinava perfeitamente com o título. Mas não foi a que eu postei.]