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Qual?

interrogação

Qual lugar? – a moça da bilheteria pergunta e mostra a tela com o diagrama. Fico aflita. Ela continua: Tudo em azul está livre. Pode escolher. Há um oceano de assentos vagos na sessão das cinco, e eu afogo-me nas possibilidades. Mais fácil se houvesse apenas meia dúzia de lugares disponíveis. Fartura de opção sempre me chateia.

Estacionamento, por exemplo. Quando estou em um lotado, bufo, embora me saia bem. Radar atento, detecto a vaga e zás! Mas é aportar em um vaziozão e a crise se instala. Onde é melhor, aqui ou lá? Perto do elevador ou ao lado da pilastra, para não correr o risco de ter a porta do carro ralada? Escolho, manobro. Mudo de ideia, dou ré. Vou para outra. Ensaio mudar de novo. Desço, tranco o carro e sigo na dúvida se antes não estava melhor. Como se fizesse alguma diferença.

Na Era da Opção o cardápio de pizza tem oitenta e três sabores. Esmaltes? Dezoito tons só de vermelho. TV com trezentos canais. Planos de celular e suas infinitas combinações de minutos e internet. Por que a simplicidade saiu de moda?

A bilheteira parece tranquilona. No fundo, ela me odeia. Aguarda minha decisão para fechar a venda. Sala de cinema, repare, é um estacionamento de gente.

Fileira D! – disparo. Quero é romper o silêncio constrangedor. Ela posiciona o cursor do mouse na fileira escolhida e agora eu lhe devo um complemento: a poltrona. A vida tinha que ser alfa-numérica?

Quatro! Dê-quatro! – atiro. Lembrei, feito filme, de quando era criança e jogava batalha naval com meus irmãos. No papel quadriculado eu espalhava (sem estratégia alguma, mas com desenho caprichado) minha esquadra. Sob tiros certeiros, ou n’água, derrotas e vitórias nas tardes de sábado. Entro sozinha na sessão. No diagrama dos assentos, represento um quadradinho. Sou, portanto, um submarino. Na ponta da fileira há um casal. É um destroyer. Cinco amigas lá atrás: um encouraçado. Nenhum hidro-avião por perto. Nunca mais jogamos, nós três.

Depois do filme, café. Na hora de pagar, o rapaz do caixa – que eu invento ser platonicamente apaixonado pela bilheteira, que não lhe dá bola porque namora a moça da lojinha – quer saber: Débito ou crédito?

Essa é fácil. Ah, o maravilhoso universo binário.

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Mais uma breve crônica para falar de amor

Image from page 50 of “Emblems of love, in four languages. Dedicated to the ladys by Ph. Ayres, esq” (1600)

Aproximou-se da cancela, baixou o vidro, estendeu o braço, apertou o botão.

– Retire seu cartão e boas compras.

Foi puxá-lo quando ouviu, no mesmo tom:

– Não se esqueça de ajeitar a gravata.

Ele recuou, assombrado. Por via das dúvidas, olhou-se no retrovisor.

– A gravata?

– É. Está torta.

Mirou o nó, levemente à esquerda, quase sob o colarinho. Olhou ao redor. Ninguém. Que brincadeira era aquela? Acenou para a câmera de segurança. Sentiu-se meio bobo. Ressabiado, olhou novamente à sua volta. Ajeitou rapidamente a gravata, estendeu o braço. O cartão o aguardava, metade dentro do dispensador, metade fora. A voz:

– Agora ficou melhor. Retire seu cartão e boas compras.

É pegadinha. Só pode ser.

Obedeceu, a cancela se abriu. Engatou a primeira e ainda teve tempo de olhar mais uma vez em volta, à procura do autor, quer dizer, autora da gracinha.

Durante o almoço, comentou com os colegas. Foi aconselhado a tirar umas férias. Rindo, distraiu-se e feriu-se com a faca que pendia ao lado do prato. Embrulhou o dedo no guardanapo de papel e foi ao banheiro. Enquanto a água sanguinolenta corria ralo abaixo, só pensava em duas coisas. Uma delas eram suas férias.

Dia seguinte, ainda intrigado, resolveu voltar ao shopping. Precisava de meias novas, mesmo. Escolheu a entrada, o plano era seguir à risca o que fizera na véspera. Aproximou-se devagar e olhou ao redor, escaneando o local na esperança de flagrar o mecanismo da pegadinha. Se é que era uma pegadinha. Se é que aconteceria novamente. A voz era bonita, aliás. Não seria de todo mal saber quem falara com ele. Por via das dúvidas (que agora já eram tantas), conferiu no retrovisor a gravata e emparelhou junto ao dispensador. Quer dizer, dispensadora.

– Retire seu cartão e boas compras. Que houve com o dedo?

Ainda que ele esperasse pelo diálogo, aquilo o perturbara. Ele, que chegara a ensaiar um possível diálogo com a máquina, treinando como descobriria de onde partia a voz, estava sem graça. Nada funcionou. “Ela” notara o band-aid.

– Cortei… com a faca… – disse, num gestual hesitante e patético (já que não sabia a quem ou o quê se dirigir), tentando explicar como é que acontecera.

– Precisava de um beijinho pra sarar. Retire seu cartão e boas compras.

Catou o cartão, encabulado. Engatou a primeira e pode-se dizer que chegou a cantar pneus cancela adentro.

Já era demais. Beijinho?

Deu três voltas no shopping, a fim de gastar pensamento e incompreensão. Piada de alguém, só podia ser. Viu-se num futuro próximo, em um daqueles programas dominicais de pegadinhas, a cidade inteira vendo-o pagar mico no estacionamento do shopping. Olhou o dedo, olhou o band-aid, lembrou da voz. Voz sem rosto. Doce, porém. Ih, já estava delirando. Desnorteado, esqueceu-se das meias e foi embora. Beijinho. Era só o que faltava.

E era mesmo o que faltava. Tinha tudo na vida, ele. Só não tinha beijinho.

Passaram-se dias, semanas. Ele pesquisou o sistema de segurança do estacionamento do shopping. O funcionário que poderia, eventualmente, vê-lo pela câmera e, assim, “falar” com ele através do dispensador de cartões, era um homem. Investigou: não havia mulheres naquela equipe há um ano. Chegou a usar outras entradas, e nada aconteceu. Pediu, secretamente, a dois amigos para repetirem a cena em seu lugar, na mesma cancela, e a fala mecânica foi a padrão, sem surpresas: retire seu cartão, boas compras e só. Contrariando sua mente cartesiana e sua alma cética, não restava dúvida: a própria dispensadora de cartões, sabe-se lá como, falava com ele. Sim: a máquina, dotada de impossível ânima, conversava com ele. E ele gostava.

Um dia, acordou decidido. Conferiu gravata, olhou a cicatriz no dedo. Dirigiu até o shopping, aproximou-se da cancela, baixou o vidro, estendeu o braço, apertou o botão.

– Retire seu cartão e boas compras. Senti sua falta.

– Eu também.

A cancela se abriu, ele engatou a primeira e sorriu. Era dia dos Namorados.