Arquivo da tag: espera

O que você está esperando?

“Inertia”, Jason deCaires Taylor, Musa Cancun

No rádio, a moça do comercial me encosta na parede, sem dó: o que estou esperando para ligar já e comprar um pacote de viagem para Cancun com tudo incluído por apenas dez de seiscentos e cinquenta reais?

Eu vou lhe dizer o que estou esperando, meu bem.

Estou esperando o gato terminar de lavar a pata para estender a cama; não se deve atrapalhar um gato em sua toilette (ainda que feita sobre sua cama). Estou esperando o técnico vir consertar a geladeira. Estou esperando o sinal da Net voltar. Estou esperando o terceiro olho brotar em minha testa. Estou feito o Pedro pedreiro penseiro, do Chico Buarque, esperando o trem.

Viver é esperar. Aqui ou em Cancun.

Estou esperando dar meio-dia para servir o almoço para as crianças. No caminho de casa até a escola, dos onze semáforos, talvez tenha que esperar uns nove (ou dez) abrirem. Na tarde de horas comprimidas, espero conseguir zerar pelo menos dois terços das pendências do dia. Enquanto espero a reunião pelo Skype, o pó de café, vestido de coador, espera pela água quente.

O tempo é uma máquina de esperar.

Eu espero até às cinco e meia para ir buscar as crianças. No caminho de casa até a escola, dos onze semáforos, talvez tenha que esperar uns dez (ou onze) abrirem. Esperei, pelo tempo justo, um filho e uma filha saírem pela minha barriga. Agora espero todos os dias um filho e uma filha saírem pelo portão.

Quantos semáforos existem em Cancun?

A verdade é que eu não sei o que estou esperando para comprar o pacote de viagem com tudo incluído. Se nem sei o que estou esperando para arrumar meus armários, e assim livrar-me das tranqueiras físicas e mentais que entulham as gavetas e as ideias. Se nem sei o que estou esperando para escrever o livro sobre os diários de minha mãe. E outro, sobre as formigas daqui de casa. E outro, com as crônicas deste blog. Se nem sei o que estou esperando para começar a ter aulas de piano.

Não sei onde estão todas essas respostas.

Em Cancun, talvez.

Anúncios

Onde está o quarenta e três?

Em pronto-socorro, urgências e emergências são numeradas. Noventa e oito, trezentos e dezesseis, cento e vinte e dois. Fratura passa na frente de febre, virose vem depois de intoxicação.

É como praça de alimentação do shopping, onde fomes também são numeradas. A senha avisa quando a comida está pronta. No hospital, a senha avisa quando o socorro está pronto.

A senha do meu pai é um-sete-um. Ele gosta de prestar atenção aos números chamados no painel, pii, pii. Esbraveja quando o um-sete-dois é convocado. Acha que passou na sua frente. Explico: não está em sequência, depende da prioridade, da especialidade. Ele entende, depois esquece. Aparece o cinquenta e ele desanima, “Ih, tem mais de cem antes de mim”.

Onde é que retira a senha da paciência?

Meia hora de espera num pronto-socorro é suficiente para decorarmos o local, as placas de sinalização, nos familiarizarmos com os funcionários que vão e vêm. Nos habituamos até com os pacientes. Dependendo, viram amigos por um dia. Pena que o assunto é sempre doença.

O painel apita: senha quarenta e três.

Ninguém se levanta. Quem está em pé, não se mexe. Os grudados na TV muda permanecem atentos às cenas, brincando de descobrir as falas. Há diversão num PS.

O painel segue em frente e chama oitenta e nove, trinta e três, cento e dois. Pii, pii, pii. O oitenta e nove é gordinho, enxuga a testa com um lenço xadrez e sai em disparada rumo à sala de atendimento. Que será que tem, além de pressa? A trinta e três está com febre há três dias, faltou no trabalho, o marido também não anda bem, quer só ver se os dois ficarem de cama, quem vai levar o mais novo pra escola? Não vi o cento e dois, eu estava no café. Lá não precisa de senha.

O painel dá uma chance ao quarenta e três, pii. Ninguém aparece.

O segurança, com ares de investigador, olha em direção à plateia adoentada. Quer identificar o paciente distraído. Pergunta em voz alta, a senha verbal é uma exceção justificada.

O painel nervoso apita três vezes seguidas, quarenta e três, quarenta e três, quarenta e três! Onde terá se enfiado? É o que toda gente quer saber.

Começa o burburinho. Foi fazer xixi. Dormiu. Deu problema com o convênio.

A despeito do mistério, nova leva é chamada, pii, pii, pii, pii. O segurança empunha o rádio, vai até a porta, diz qualquer coisa em código para alguém do outro lado da linha.

O quarenta e três é, oficialmente, um foragido hospitalar.

O painel chora a ausência do doente ímpar, que também é primo e tem o número atômico do tecnécio.

Enquanto isso, a ruiva de saia longa e cólica renal caminha amparada pelo marido. Os gêmeos idênticos também na dor de barriga não querem ficar no colo da mãe, choramingam, ganham o chão, tentam lamber o pé da cadeira. A mãe puxa um, arrasta outro, realoca-os nas cadeiras. Eles descem de novo. Ela desiste. Ser mãe é padecer no PS.

Esperançoso, o painel não desiste, pii, pii, piiii! Arde na urgência e na emergência de encontrar o desaparecido, tal fosse caso de vida ou morte.

(Emergência e urgência, nunca compreendi a diferença. Uma saudade pode ser urgente? E amor emergente que vive a urgência de amar? Filho apertado para ir ao banheiro, no meio da rua, é qual das duas?)

Ninguém mais fala em dengue, chuva ou copa. O paradeiro do quarenta e três é a pauta do plantão. Desistiu e foi embora? Não está na lanchonete? Será que morreu? Risinhos proibidos vêm da recepção.

Um colega do segurança junta-se a ele na missão. Checam cantos, inspecionam banheiros, rondam o estacionamento em frente. Estão em busca do paciente perdido. O painel dá seu último suspiro. Quarenta e três, adeus.

Meu pai continua firme na paranoia de que estão passando gente na frente. O quarenta e três, aos poucos, vai sendo esquecido do público enumerado e enfermo. Seus quinze minutos de fama se esgotaram. Nem o painel quer mais saber dele, a fila andou.

Um-sete-um. Vamos, pai.

Lições da Dona

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

A receita diz para deixar a massa descansar por trinta minutos. Acho engraçado. E massa lá fica cansada? Só gente e bicho é que carece de descanso, aprendi assim. “Não é isso, querida”, segreda baixinho Dona Benta – a própria, do livro. Ela conversa comigo: “Para ficar pronto, tudo precisa, antes, de certo repouso. Mas isso não vem escrito nas receitas”. Cá estou, ouvindo livro falar. Livro, não; a autora dele. Bem diferente.

“Feita de farinha, água e fermento, a massa que descansa não está à toa na vida, vendo a banda passar. Está se preparando. Se arrumando, bem bonita, para virar pão. Esse é o destino da massa. Se for ao forno antes da hora, não cresce direito. O pão fica feio, embatumado. Só passarinho é que vai gostar. Por outro lado, se passar da hora também estraga. Mas é a espera, o descanso, que garante que sua sina seja cumprida. Com gente é mais ou menos a mesma coisa, já percebeu?”. Me pega de surpresa, essa senhora. Só estou tentando fazer um pão para o lanche. Mas ela não para: “Gente precisa saber o seu tempo de descanso. Isso é simples. O relógio da Terra está sempre certo, é só ajustar o seu de acordo com ele”. E eu, achando que a Dona Benta só entendia de comida.

O relógio do meu avô estava sempre certo. Ele costumava fazer a sesta. Depois do almoço, chupava uma laranja e ia se ajeitar na poltrona. Recostava-se e punha uma almofada atrás da cabeça. Cruzava os braços e tirava sua soneca, sentado mesmo. Preparava-se para os afazeres da tarde, que não eram poucos. Inventar traquitanas para facilitar a vida da minha avó, alvejar sacos de algodão para fazer panos de prato, buscar cimento no carrinho de mão. Os três pilares fundamentais: alimento, descanso e movimento. Não entendia por que não se deitava de uma vez. Nunca perguntei, então, ele nunca respondeu. Hoje sei: o descanso do dia não deve ser igual ao descanso da noite. Meu avô, que sabia disso, viveu quase cem anos. O descanso sagrado, mais a mania de subir no telhado feito gato, por certo ajudaram na sua longevidade. Eu, que não faço sesta, nem subo no telhado, devo ser forte candidata a uma vida breve.

“Já acendeu o forno, querida?”, a quituteira quer saber. Ih, esqueci. “O que está esperando? Papai Noel?”. Engraçadinha, a velhota. Corro com os fósforos. Em silêncio, na tigela sobre a pia, a massa parece meditar. Sabe de sua missão, que é ser pão. E espera, pacientemente.

Deus, dizem, só descansou no sétimo dia. Não acredito. Fazer mundo é trabalho dos mais penosos. Duvido que, assim que inventou os dias, não tenha feito a sesta, como meu avô, antes de continuar a criação. Além do mais, universo não tem fim. Há sempre alguma coisa para ser criada ou consertada. Meu avô pensava assim. Começo a entender o negócio da imagem e semelhança.

Fecho o forno, guardo o livro e os mantimentos que espalhei pela cozinha. No relógio cinza e branco que, aliás, pertencia ao meu avô, marco o tempo. Agora ele está sincronizado com o da Terra. Como Dona Benta ensinou. Ela deve ter ficado triste comigo, não lhe dei muita bola. O que ela não sabe é que prestei muita atenção a tudo que ela disse. Tudinho.